Perdido em Marte: o estranho filme destoante de Ridley Scott, por Wilson Ferreira

Por Wilson Ferreira

Um filme que destoa do conjunto da obra de Ridley Scott – “Alien”, “Blade Runner”, “Prometheus” entre outros universos distópicos. “Perdido em Marte” é um sci fi estranhamente otimista sobre um astronauta deixado só numa missão no planeta vermelho após um acidente, à espera da morte. Mas ele é cientista e botânico com a determinação de um MacGyver ou de um John McClane de “Duro de Matar”, com suas principais armas: lonas e fitas de silver tape. Contando com o velho clichê do “nenhum americano será deixado para trás”, o filme parece uma grande peça de propaganda NASA/complexo militar americano. Será que foi alguma obrigação contratual da Fox ao diretor Ridley Scott na sua quarta produção seguida pelo estúdio? Estaria Scott seguindo os supostos passos de Kubrick nas relações perigosas com a NASA?

“No espaço ninguém poderá ouvir seus gritos”. É surpreendente que o autor dessa linha de diálogo do filme Alien, o diretor Ridley Scott (artífice de universos distópicos e gnósticos como em Blade Runner e Prometheus), tenha dirigido Perdido em Marte com linhas de diálogo como “o mundo inteiro está torcendo por um só homem”. E ainda com um protagonista que tenha falas como “o primeiro homem a pisar fora dessa sonda”… “o primeiro a subir essa colina”, “o maior botânico do planeta”… “o pirata espacial”… “o colonizador de Marte”… “foda-se Marte…”.

Diante da sua obra marcada por protagonistas em estado de estranhamento e deslocamento e que desafiam a tudo e a todos ao seu redor para resgatar algo que lhe é precioso dentro de si mesmo, Perdido em Marte é um filme destoante. 

É um conto sci fi supreendentemente otimista: “vou ter de usar muita ciência para sair dessa”, desafia o astronauta Mark (Matt Damon) deixado para trás em Marte depois de uma missão abortada cuja tripulação teve que fugir às pressas. E após declarar para seu vídeo-diário que não morrerá no planeta e mandar Marte “se fuder”, ao melhor estilo de um herói americano como MacGyver ou John McClane em Duro de Matar, Mark resolverá todos os problemas sozinho completamente tranquilo. E ainda com direito a tiradas irônicas e trocadilhos nos momentos mais tensos.

Se em Prometheus toda a Ciência e racionalidade humanas levam uma tripulação a paradoxos metafísicos e filosóficos, ao contrário, em Perdido em Marte o filme preocupa-se quase que exclusivamente em Física, Química e Biologia para criar uma narrativa linear do estilo “nenhum homem será deixado para trás”. 

Ufanista e patriótico

E em estilo supreendentemente ufanista e patriótico – bem diferente das distopias de Alien, Blade Runner ou Prometheus onde astronautas são vítimas de conspirações corporativas. Em Perdido em Marte o logotipo da NASA e a bandeira dos EUA estão sempre em destaque nos enquadramentos em uniformes, objetos e fuselagens de rovers, espaçonaves e centros de controle.

O filme 2001 de Kubrick em 1968 mostrou que é possível o equilíbrio entre o realismo científico e reflexões metafísicas e filosóficas. Mas estranhamente Scott despreza essa possibilidade ao apresentar um protagonista tão linear quanto um apresentador de infomercial da TV Polishop: não há drama ou conflito psicológico que seriam factíveis numa situação tão desesperadora e deplorável como a que em se encontra Mark.

As reservas de alimentos não são suficientes para o tempo de espera de quatro anos para uma próxima missão que o resgataria, água é extremamente limitada e as intempéries são imprevisíveis com uma atmosfera constantemente acossada por tempestades e furacões.

Mark parece se divertir em Marte, fazendo piadinhas até no clímax final e desesperador. E se algo dá errado, sempre terá os seus principais amigos: uma lona e um rolo de silver tape.

E a último e não menos importante elemento que confirmaria a suspeita sobre a natureza desse filme que o Cinegnose vai defender abaixo: além de Perdido em Marte desprezar questionamentos psicológicos, metafísicos ou existenciais do protagonista ou dos próprios objetivos da missão, a narrativa simplesmente ignora os potencias e evidentes problemas políticos e diplomáticos do salvamento do astronauta – a cooperação das agências espaciais dos EUA e China é prá lá de utópica como, por exemplo, a partilha das tecnologias de lançamento e propulsão entre duas superpotências que ameaçam na atualidade iniciar uma nova Guerra Fria.

Uma peça de propaganda

Agora, juntemos as evidências: um filme nitidamente destoante no conjunto da obra de Ridley Scott, centrado unicamente na Ciência e racionalidade, despreza qualquer tensão ou conflito psicológico, ignora reflexões metafísicas ou filosóficas (embora arrisque colocar uma música metafísica de David Bowie como Space Oddity, solta no filme e sem sentido) e limpa a narrativa de qualquer tensão política entre superpotências como EUA e China.

Em outras palavras: estamos diante de uma peça de propaganda da agência espacial norte-americana (NASA), ávida por conseguir a aprovação de verba no Congresso para uma suposta missão a Marte para 2030. O timing do lançamento do filme foi perfeito: entre o anúncio da missão pelo presidente Obama e o eufórico anúncio pela imprensa da descoberta de água no planeta vermelho.

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