Home Editoria Cultura Pobres milionários, por Cristiane Alves

Pobres milionários, por Cristiane Alves

1
Pobres milionários, por Cristiane Alves

Arte Onda 21

Pobres milionários

por Cristiane Alves

O problema do pobre é julgar que as conquistas são direitos adquiridos, logo, inalienáveis. Nada é inalienável ao sem poder.

Não ter consciência de classe faz com que o pobre ressoe a consciência alheia.

Fala por exemplo que “pobre” é acomodado, de uma posição só explicada pelos teóricos da experiência pós morte ou quase morte. Ali o individuo observa a si mesmo, seu corpo e os demais envolvidos, descreve tudo como se presente, no entanto a despeito de suas narrativas cheias de detalhes atestáveis pelos outros presentes, não estava ali. Ao menos não consciente.

Essa apropriação da consciência alheia é até bonita, porque pobre não pode ter riqueza, não pode ter auxílio do Estado, não pode ter afirmação, mas pode pensar no outro pobre como um fardo, o que não lhe trará riqueza mas alívio. No Brasil temos pobres de “almas ricas”, quanto menos possuem mais milionariamente se expressam.

O despossuído que quer o iPhone, mesmo sem ter o dinheiro do bilhete de metrô pensa no objeto de desejo como uma passagem para a riqueza. Se possuem, estão autorizados a esmagar quem não tem. Querem ostentar a riqueza dos ricos e fazem.

Falam como ricos, mas cheios de erros de português. Um detalhe pouco importante. São norte americanos (quase), já que se sentem assim, se vêem nos filmes, se identificam. Só não falam inglês, detalhe só.

Então os ricos compram a mídia, que lhes representa uma vez que lhes é propriedade privada. A elite tem a linguagem, o dinheiro a consciência e os vendem para os idiotizados que as compram pagando caro em tempo de vida e nem percebem.

O iludido que defende ferrenhamente a meritocracia, que acredita ser parte da elite, morando numa cidade de 50.000 habitantes, que possui um comércio cheio de engodos fiscais mas com pintura nova e chamativa; mal sabe ler e escreve bisonhamente; que nunca conseguiria terminar os estudos não fosse o projeto de genocídio educacional implantado pelo PSDB e infelizmente nunca revogado, a progressão continuada no ensino fundamental e médio (extra oficialmente). Esse mesmo que olha a fotografia da criança em trabalho análogo à escravidão numa tentativa de fazer pensar a meritocracia e diz que todo trabalho escravo só existe porque as pessoas aceitam ser escravos, que é só denunciar. Esse é o proletário brasilero.

É o que, diante do poder daquele que lhe representa, menos como classe que por intelecto, se adornou de sábio. O sábio do contrário.

O sábio do contrário nunca leu nada, nunca estudou nada, nunca testou nada. Todo seu (des)conhecimento científico vem de sua fé, de inspirações de um divino que ele mesmo amolda. O divino de cada um é subordinado à quem o crê, mas é autoritário com o outro.

O desintelectual é sábio de coisas impossíveis de racionalizar, estando nisso sua proficiência. Ele tudo sabe, mas nada estuda.

“Cogito, ergo sum”, a inocente concepção do filósofo e matemático francês René Descartes, está no rol de todo pensamento estruturado por séculos e destruídos por brasileiros. Descartes não está só. Com ele jazem Aristóteles que apenas por observar as estrelas compreendeu os hemisférios, Copérnico com seu Heliocentrismo; e Galileu com a esfericidade da Terra.

Dar poder aos ignorantes não é apenas vergonhoso, mas potencialmente perigoso.

Todos os que já creram nesse como o pais do futuro estão estupefatos. Nunca antes na história desse país se cogitou, de longe, a magnitude do atraso da elite brasileira. Nunca se mensurou o tamanho da inveja do pobre pela ignorância da elite.

Alguns dirão que não se pode generalizar, e como sempre digo o farei novamente. Não, tora unanimidade é burra, não se pode generalizar. Mas tampouco podemos analisar um comportamento coletivo logrando olhar cada indivíduo, um por vez, não creio possível nem brilhante.

Somos isso agora. Exemplos de um povo que prima pela ignorância. E em terra de líderes míopes, os dominados fazem filas voluntárias para que se lhes vazem os olhos.

Cristiane Alves – Formação em Geografia (licenciatura e bacharelado) – UNESP, Especialista em educação especial com ênfase em Altas Habilidades e Superdotação – UNESP

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Apoie e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Apoie agora

1 COMMENT

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here

GGN
Sair da versão mobile