Resposta ao Post “Dialética Negativa: T. Adorno Gnóstico”

Por Douglas A. Remonatto 

Uma resposta de Douglas Remonatto (mestrando em Filosofia pela Universidade de Lisboa) à postagem anterior “Dialética Negativa : Theodor Adorno Gnóstico” (clique aqui para ler): Se Adorno revela-se gnóstico em sua Negative Dialektik (1966), mais gnóstico ainda é Hegel. Este esquema especulativo apresentado por Hegel é de origem claramente gnóstica, análoga à peregrinação pela qual a centelha alienada (pneuma) dos gnósticos regressa de seu exílio no cosmo à plenitude original (pleroma) via a um autoconhecimento essencialista e absoluto (gnosis)

 


Se para Adorno a dialética positiva de Hegel erra ao abandonar a realidade concreta, ignorando a experiência do particular em prol de uma busca por transcendência através da “síntese do Espírito Absoluto”, para Hegel não buscar nada além da experiência pessoal é iludir-se com fragmentos do processo teleológico, sem nunca ter a possibilidade de contemplar o processo como um todo, nos privando assim de autodescobrirmos nossa essencialidade. 

E se Adorno revela-se gnóstico em sua Negative Dialektik (1966), mais gnóstico ainda é Hegel cujo pensamento filosófico tem por base o processo pelo qual, de uma situação alienada, o espirito passa a se encontrar em si mesmo através do conhecimento de sua verdadeira natureza absoluta. Este esquema especulativo apresentado por Hegel é de origem claramente gnóstica, análoga à peregrinação pela qual a centelha alienada (pneuma) dos gnósticos regressa de seu exílio no cosmo à plenitude original (pleroma) via a um autoconhecimento essencialista e absoluto (gnosis). 

Transcendência imanente e absoluto vazio 

Bramanismo:  a aceitação de uma
realidade una e imutável

Há algo em comum entre o hermetismo de Hegel e o niilismo de Adorno? Julgo que para entendermos as minúcias deste “monismo dualista gnosiológico” seria interessante fazermos uma analogia, recorrendo ao fértil diálogo existente entre o Buddhadharma (Budismo) e o Sanātana Dharma (Hinduísmo ou Bramanismo). 

A questão central em debate é a existência ou não de uma realidade absoluta e se esta nos é acessível. Pois bem, não há meio melhor para entendermos as diferenças existentes entre a doutrina contida nos Upanishads (Bramanismo)e o Buddhadharma do que analisarmos o que ambas dizem a respeito da aceitação (ou não) da existência de uma realidade una e imutável. Isso significa tentar compreender as diferenças entre a doutrina Bramânica do atmano e a doutrina Budista do anatta (não-eu). 

O Sanātana Dharma ou Vedanta possui um ensinamento focado na relação existente entre o Absoluto (Brahman), Alma universal (Atman) e a alma individual (Jivatman). Neste diálogo se percebe a concepção de uma realidade objetiva e una do absoluto e, por conseguinte, sua relação com o “eu” uno de cada indivíduo. Possui, portanto, uma base equivalente a dialética hegeliana onde,por meio da aplicação consequente desse princípio espiritual de busca pelo absoluto, contido em cada ser humano, é possível realizar a identidade de seu atman com Braman reconhecendo Deus em si através da intuitiva sentença tattvamasî (tu és isto). É através desta sentença que se alcança o princípio não dual de onde emana o mundo fenomênico. Em outras palavras, assim como Hegel o hinduísmo busca encontrar a verdade transcendente na absoluta unidade universal. 

Já o Budismo ultrapassa a barreira da própria unidade com uma simples averiguação: “Se tudo se reduz à Unidade, a que se reduz a Unidade?” (kōan Budista). Assim, fazendo da negação da existência de um “Atman” uma de suas teses centrais, a dita doutrina do «anatta», doutrina da não unidade absoluta, ou doutrina do “não Eu”. Nega assim qualquer possibilidade da existência de uma verdade una e transcendente, e faz desse busca um completo absurdo.Esta afirmação poderia ser posta junto a Dialética Negativa de Adorno ou mesmo às afirmações de Albert Camus entorno do Absurdo existencial. 

Talvez o mais interessante aqui não seja o contraponto e sim o diálogo. Como diria Edgar Morin, devemos deixar a dialética de lado e partirmos para uma dialógica, conciliando ambas as doutrina e percebendo que “duas lógicas, dois princípios, estão unidos sem que a dualidade se perca nessa unidade: daí vem a ideia de unidualidade” pois “o homem é um ser unidual” e ‘unitotal’ (Edgar Morin, in “Ciência com Consciência”). 

Assim percebemos que ambas as doutrinas discutem, por perspectivas distintas, as relações do homem com o absoluto, investigando os caminhos possíveis para escapar da ignorância e da ilusão. Ou seja,ao analisar fenomenologicamente as relações existentes entre a dialética de Adorno e de Hegel, se nota que apesar de suas explícitas diferenças, convergem para uma mesma finalidade:a transcendência seja ela imanente ou não, sacra ou secular, una ou múltipla, Absoluta (bramica) ou Vazia (nirvanica). 


Douglas A. Remonatto Licenciado em Filosofia pela Universidade Federal de Mato Grosso – Brasil (com Equivalência pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.) Mestrando em Filosofia pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

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