Santos naquele tempo, por Ignácio de Loyola Brandão

Jornal GGN – Em sua coluna no Estadão, Ignácio de Loyola Brandão fez um emocionante testemunho sobre sua história pessoal na cidade de Santos, inspirado pelo livro de Lygia de Carvalho, Aquele tempo Passou. O autor aproveita o relato pra passear pela altura e a largura de todas as coisas que deixaram marcas em sua memória.

Enviado por Motta Araujo

Nós que amávamos tanto Santos!

Por Ignácio de Loyola Brandão

Do Estadão

Quando vi o mar em Santos tinha 21 anos. Um dos sonhos de minha vida. Ver o mar. Adorei Santos, não era só o mar, eram os bondes, os bares, os jardins à beira da praia, o incrível hotel Parque Balneário, os canais. Em 1959, Samuel Wainer mandou-me para lá para ser chefe de reportagem da sucursal da Última Hora. Mudei-me para o Hotel Martini, no José Menino. Adorava aquela praia deserta todos os dias e o bonde que me levava ao centro. Queria morar em Santos, tinha tanta mulher bonita na praia aos domingos. Era uma cidade ícone para nós do interior. No Teatro Independência, vi o grupo Oficina ganhar o primeiro prêmio de direção (Zé Celso) em festival amador com A Incubadeira.

Com o passar dos anos, perdi a cidade de vista. E subitamente, a recupero com um livro, Aquele tempo Passou, de Lygia de Carvalho (Editora Scortecci). Santos nas décadas de 40 e 50. Delícia para uma geração, curiosidade para outra. Como éramos todos iguais. Lygia restaura a história perdida, os costumes que se foram, uma cultura, o ensino (ainda se ensinava), os hábitos, as maneiras de ser e viver, de vestir, comer e divertir. Nos mostra uma cortesia e educação que se foram, estamos nos tornando cada vez mais grosseiros. Um livro para ser incorporado à coleção memorialística do Brasil, que tem Pedro Nava no alto do pódio e segue entre outros com Minha Vida de Menina, de Helena Morley, O Rio de Janeiro de Meu Tempo, de Luis Edmundo, Cidades e Sertões: Entre História e a Memória, de André Souza Martinello e São Paulo, Cidade Invisível, de Marcílio Godoi, e outros.

Lygia declara seu amor a Santos. Ao recontar sua cidade, nos faz reviver um tempo em que tudo era partilhado. Ela fala de Seleções do Reader’s Digest e me lembro de meu pai trazendo todos os meses a revista para casa. Ou a Em Guarda, propaganda de guerra dos aliados, da qual eu recortava fotos com navios e aviões. E Grande Hotel, com suas fotonovelas. A Cena Muda sobre cinema. E Lever, sabonete da estrelas. E a Casa Sloper e a Galeria Paulista que tinha em São Paulo e em Santos. E os “caixotinhos” para fotografar, ou seja a câmera Agfa? A coleção Biblioteca Infantil da Melhoramentos. Como as infâncias e juventudes e até maturidades foram iguais pelo Brasil afora. Tudo nos aproximava, igualava.

Lembrar o livro de francês – naquele tempo se estudava essa língua tão sonora e rica – em detalhes de paginação e frases. As aulas de canto orfeônico (por que em lugar de abolirem, não incrementaram? ). A visita a Santos de Anita Leocádia, filha de Luís Carlos Prestes, o comunista que levava pavor às famílias católicas (e como minha mãe era devota!). Dona Palma Angerami, a professora de piano dos filhos da gente rica. Os comícios políticos em cima de palanques ou caminhões. A aventura e o perigo de conhecer Flora, que vendia produtos contrabandeados. Os passeios nas tardes de sábado, à sombra dos jamboleiros, à beira dos canais. A travessia do Canal de Santos a nado. O alvoroço causado pelos marinheiros americanos cujos navios atracavam; pareciam galãs de Hollywood.

Fui atravessando este livro como se estivesse num daqueles bondes amarelos (eram mesmo amarelos?), que me levavam pela praia, eu deixando o vento bater em meu rosto, sentindo o cheiro de mar, que no interior e em São Paulo não existia. E o primeiro navio que vi? Anos mais tarde, em Amarcord, a passagem noturna do transatlântico Rex por Rimini, na memória de Fellini, me devolveu aquela sensação de Santos. Recuperada agora na fotografia de um navio atravessando o canal na Ponta da Praia, no livro de Lygia.

Os luxuosos navios Giulio Cesare, o Conte Grande, os da Linea C. Míticos. Os castelos na areia, o calor da cidade, o porto, a escola de dona Nini, o Colégio Canadá, os bondes que atrapalhavam o carnaval, a Viação Cometa, o Expresso Brasileiro, o Expresso Zephyr, de luxo, as marchinhas de carnaval, a Rádio Clube, a Rádio Atlântica, as soirées do Cine São José, os gibis, o armazém Artista Nortista, o Ao Anjo Barateiro (adorei este anjo), a Padaria José Bonifácio, com suas tranças e seu pão sovado. Com detalhes impressionantes, claros, como se as coisas tivessem acontecido nesta manhã.

Lygia Carvalho nos devolve uma cidade intacta. Para nós do interior era mítica também. O mar, praias, as mulheres de maiôs, os navios, cabarés e bares do porto, o pecado, a sensualidade, o Parque Balneário (que loucura derrubá-lo). Ao lerem Aquele Tempo Passou, parem no capitulo De Ilusão Também se Vive. Imperdível o Les Éclats de Rire de la Jeunesse à l’arrêt de l’autobus. Vejam minhas leitoras se não é a juventude de vocês? Vejam se não são nossas filhas. E um bem-humorado capítulo conta como alunas se reuniram, redigiram um documento, foram ao cartório, registraram, selaram. O que tornaram oficial? A declaração: “Juramos que nunca vamos estudar em casa”.

Poucos livros de memórias de uma cidade têm tal extensão e riqueza de detalhes. Muita atmosfera. Sem nostalgia. Sem ficar dizendo: aquele tempo é que era bom. Lygia mostra como era aquele tempo. Cada um o receba como quiser, com saudade, com curiosidade, com interesse. 

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4 comentários

  1. Há sombras sobre Santos.

    Santos é quase o que o Brasil poderia ter sido, uma cidade que tem uma das melhores qualidades de vida do país graças aos sindicatos terem arrancado migalhas das riquezas que pela cidade passaram, levando a índices altíssimos de urbanização e imóveis próprios como na Argentina. A arquitetura das casas e lojas, para fins previdenciários das famílias portuguesas, foi obra da genialidade de mestres da região do Porto em Portugal, o que faz pessoas que lá estiveram acharem-na estranhamente familiar, como os brasileiros em Nova York ao transitarem pelos locais de filmagens nas nossas telas colonizadas; os bangalôs de tapamento americano são cópias das casas da Ilha da Madeira e suas técnicas sustentáveis que contornam o relevo dos morros sobre pilotis, se valem do local seguro e de caminhos construídos com a força e o tirocínio do coletivo lusitano e servem de moldura para as festas comunitárias alegradas por ranchos folclóricos belíssimos e caracterizados. O maior jardim de praia do mundo, pelo Guinnes, foi resultado de uma desapropriação proposta pelo poeta vereador Vicente de Carvalho, para dar aos trabalhadores, naquela dimensão gigantesca, o que eles já estavam acostumados ao andarem perante os jardins das casas da cidade. O transporte público ganhava prêmios nacionais até que em 1972 o interventor pós AI-5 general clóvis bandeira brasil, também executivo da Mercedes, conforme ouviu-se na época, mandou picotar à maçarico os bondes no local da atual Escola Politécnica, ao lado de um antigo quilombo na 13 de Maio no início da avenida Ana Costa, que abrigava junto ao mar o Parque Balneário, aonde meu padrinho era caldeireiro; esse belíssimo prédio, do premiado Fracarolli, foi demolido na ditadura. O idealizador da UNICAMP, Zeferino Vaz, concebeu essa universidade tão aberta aos contrários para Santos, na atual Bertioga, local vetado pelos milicos por considerarem a cidade já suficientemente subversiva, o “porto vermelho” de acordo com Jorge Amado. Dentro dessa lógica argentina, até Alfredo Lepera, o maior compositor de Gardel, trabalhou em Santos antes de ir para Buenos Aires, mas deixou nas canções de ninar de minha avó galega sua sensibilidade e alegria.

  2. A maior parte da urbanização

    A maior parte da urbanização de Santos se deve a ´´São´´ Saturnino de Brito. Tudo que a especulação imobiliária não conseguiu estragar é dele. Tudo de ruim foi o tanto que conseguiram estragar. Ele propôs as Avenidas Afonso Pena e Francisco Glicério largas. Quem, no início do século XX iria pensar em avenidas daquela largura em uma cidade do interior. Saturnino de Brito propôs um uso muito mais racional para a água em SP no início do Século XX. Mas a câmara de vereadores não aceitou. Talvez o projeto da Light fo$$e melhor. Quem quiser depois pesquisa.

    As avenidas no sentido centro-praia (os canais, Ana Costa, Conselheiro Nébias) formando um xadrez e estruturando o espaço urbano da cidade. Claro que tudo isso foi necessário não para melhorar a qualidade de vida dos trabalhadores. Mas para garantir a exportação do ´´ouro verde´´ que era o café e continuar enriquencendo os Barões do Café em seus casarões na Av. Paulista.

    Santos já foi a 3a. praça de cinemas do país (depois de SP e RJ). Antes da centralização de todas as Bolsas de Valores, existia a Bolsa do Café em Santos. Foi para a BM&F em SP.

    Com uma verticalização excessiva, muito da qualidade de vida caiu. Com tudo isso, Santos possui o 6o. IDH do país. Já foi o 3o. Não vale comparar com cidades minúsculas como Águas de São Pedro que deve ter menos de 25.000 habitantes e alto IDH. Ainda assim, Santos possui uma das maiores (senão a maior) população morando em palafitas do país.

    Curiosamente, Florianópolis e Niterói são duas outras cidades litorâneas, com 400.000 habitantes com alto IDH.

    Teve uma posição de Vanguarda com relação à Saúde Pública com David Capistrano secretário municipal de Saúde (Telma de Souza prefeita) com relação à luta anti-manicomial, postos públicos de Saúde e combate à AIDS.

    No início dos anos 1980, pessoas com AIDS vinham de outros locais do país para se tratar em Santos.

    Hoje estão construindo um VLT ligando os bairos mais periféricos em São Vicente para trazer trabalhadores de Praia Grande e São Vicente para Santos. No meu entendimento, é uma linha ´´pendular´´. Vai repetir o erro da Linha 3 – Vermelha do Metrô em SP, favorecendo o pobre a se localizar cada vez mais distante das áreas onde estão concentrados empregos, hospitais e escolas. Ao invés de se pensar de forma metropolitana e levar empregos para o Litoral Sul do Estado de SP. O que vai contra os interesses da especulação imobiliária. 

    Os novos transteineres dos terminais portuários (saiu esta semana no jornal daqui) estão com indicadores de movimentação de conteineres/hora acima dos portos de Roterdã e Hamburgo. Acima da média mundial. Hoje este indicador em Santos só está abaixo dos portos Chineses (que movimentam mais de 120 a 130 conteineres/hora).

     

     

  3. Uma brisa de ar fresco em

    Uma brisa de ar fresco em meio ao sufocante clima pré-eleitoral: não foi à toa que Ignácio de Loyola Brandão cobriu de elogios o livro “Aquele Tempo Passou”, memórias da juventude de Lygia Lolo Silva de Carvalho na saudosa Santos dos anos 1940 e 1950. Estou lendo a obra e, assim como Ignácio gostou, também estou adorando. Recomendo a todos a leitura, mesmo aos que (sorry, periferia) não tiveram o privilégio que eu e Lygia tivemos de vir ao mundo na agradabilíssima Santos.

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