Série “Dark”: o campo unificado da ciência com a tradição mística ocidental, por Wilson Ferreira

A grande novidade na abordagem de “Dark” sobre a viagem no tempo é que ela não é exatamente sobre o “Tempo”, no sentido dado pelos cânones da ficção científica.

Série “Dark”: o campo unificado da ciência com a tradição mística ocidental

por Wilson Ferreira

A série alemã “Dark” (2017-2020) coloca o último grão de areia que faltava na ampulheta das viagens no tempo no cinema e audiovisual: a “Teoria de Tudo” ou do “Campo Unificado” – ao lado dos campos nucleares (fortes e fracos), eletromagnético e da força gravitacional, também o campo do conhecimento hermético. A grande novidade na abordagem de “Dark” sobre a viagem no tempo é que ela não é exatamente sobre o “Tempo”, no sentido dado pelos cânones da ficção científica. Viagem no tempo tem a ver com metáforas de passagens, túneis, buracos negros, buracos de minhoca, labirintos criados pelas diferentes linhas de tempo. Tudo isso remete à milenar mitologia das cavernas (elemento central na série), que condensa a tradição mística Ocidental: Tábua de Esmeralda, Alquimia, Ouroboros etc. – Imitar Deus dominando o Tempo para escapar do loop que nos prende ao perverso eterno retorno criado por Ele.

A tradição das cavernas como antecâmara de um mundo subterrâneo, terra dos mortos, o meio do caminho para o contato com deuses em uma realidade separada da humana, está presente desde tempos arcaicos. Filósofos gregos pré-socráticos, por exemplo, estavam fundamentados numa tradição da busca da sabedoria na escuridão, e não na luz, através da incubação de sonhos em cavernas. Aqueles que se iniciavam nesses lugares sagrados participavam de uma jornada no reino dos mortos na esperança de encontrar uma divindade que se tornaria seu amigo ou mentor. Tais cultos apresentavam a caverna como lugar de cura e conexão com o transcendental mundo para além dos nossos sentidos.

A partir de Platão e Sócrates temos uma virada: a caverna será apresentada como uma parábola da limitação da percepção derivada da experiência sensorial, portanto, um lugar de onde devemos escapar para encontrar a verdade.

A tradição das cavernas foi abandonada. O mundus subterraneus, local dos mistérios, sonhos e da morte, canal de conexão com o transcendente, é recalcado pela simbologia da Luz, da Ciência, que desvenda todos os mistérios e ilumina a ignorância.

Mas a própria Ciência pavimentou o caminho de retorno à simbologia das cavernas que fundamenta todo o conhecimento hermético ou esotérico – das escolas dos antigos mistérios à Alquimia.

Buracos negros, buracos de minhoca, viagens no tempo, mundos paralelos quânticos ramificados como cavernas labirínticas (a própria ideia de labirinto remonta a antiga simbologia das cavernas) das atuais discussões cosmológicas secretamente resgatam essa simbologia milenar.

A série Dark (2017-2020), produção alemã aposta da Netflix, retoma o velho e desgastado tema da viagem no tempo no cinema e audiovisual. Porém, a série colocou o último grão que faltava na ampulheta de todas as viagens no tempo da indústria do entretenimento: não é uma simples retomada do tema da viagem no tempo, mas do ESPAÇO-tempo.

Esse último grão de areia que faltava na ampulheta viagens no tempo na indústria audiovisual tornou a série cientificamente e esotericamente verossímil – o espaço de passagem de uma dimensão temporal para outra: cavernas e labirintos.

Por isso, Dark combina solidamente buracos negros, bóson de Higgs e matéria escura com inúmeros simbolismos do hermetismo: Triquetra, a Tábua Esmeralda (o documento que deu origem à Alquimia), a serpente Ouroboros. Sem falar na confluência entre a Consmogonia Gnóstica e a Cosmologia moderna.

É comum vermos séries que lidam com viagens no tempo se perderem dentro da própria narrativa, em suas regras e paradoxos. Obrigando os roteiristas a deixar linhas desamarradas ou simplesmente apelar para o chamado “Deus ex-machina” – termo usado para designar soluções arbitrárias, sem nexo ou plausibilidade para solucionar becos sem saída encontrados em roteiros malconduzidos.

Ao contrário, a complexidade e consistência de Dark é que a narrativa atinge o conteúdo simbólico de toda a mitologia da viagem no tempo: a simbologia das cavernas, das passagens pelos infra mundos através de túneis e labirintos.

A Série

À primeira vista, Dark é essencialmente uma série sobre viagem no tempo. A trama se passa numa pequena e fictícia cidade rural no interior da Alemanha chamada Windem. De alguma forma, todos os moradores da cidadezinha estão ligados a uma usina nuclear construída na década de 1950, prometendo trabalho e uma forma de energia limpa e barata para um país que se recuperava da Segunda Guerra Mundial.

A pacata cidade de Windem está abalada pela série de desaparecimentos de adolescentes. Eventualmente, vamos descobrindo que esses desaparecimentos são eventos cíclicos que ocorrem a cada 33 anos.

Nos primeiros episódios vamos conhecendo os principais personagens como Jonas Kahanwald (Louis Hofmann) que tenta compreender os motivos que levaram ao suicídio do seu pai. Enquanto isso, sua mãe Hannah (Maja Schöne) vive um caso com Ulrich Nielsen (Oliver Masucci), casado com Katharina.

Até os Nielsen descobrirem que o seu filho Mikkel também desapareceu. As circunstâncias do desaparecimento estão associadas com a caverna que é o elemento central da série: após saírem da escola, o grupo de adolescentes vai em busca de um suprimento de drogas escondido nas proximidades da caverna – Erik Obendorf era o principal fornecedor, mas também desapareceu.

Assustados com estranhos sons que começam a ecoar das profundezas da caverna, todos saem correndo pela noite chuvosa – Mikkel desaparece no meio da floresta.

Aquela caverna é a abertura de uma intrincada rede de túneis que se liga não apenas com a usina nuclear, mas com passagens no tempo-espaço com três períodos distantes a cada 33 anos: 2019-1986-1953.

O sistema de cavernas é nada menos do que um “buraco de minhoca”, teoria que os físicos Albert Einstein e Nathan Rose criaram em 1935 – hipotéticos atalhos pelo tempo-espaço, a chamada “ponte Einstein-Rosen”.

Essa fenda não está ali por acaso: houve algum tipo de explosão de graves proporções análoga ao acidente de Chernobyl em 1986 – certamente que a escolha desse ano na série não foi por acaso.

Mas qual a conexão desse buraco de minhoca com o desaparecimento de crianças? E por que nesse ciclo de 33 anos? Aos poucos os aspectos científicos da viagem no tempo (buraco negro e o bóson de Higgs que estabilizaria esse buraco de minhoca ao longo dos anos) vão combinando-se com referências místicas, esotéricas e herméticas: seguimos o calendário gregoriano que é totalmente dessincronizado com os ciclos solares e lunares. Porém, a cada 33 anos, esses ciclos são sincronizados. Pelo menos essa é a ideia do relojoeiro da cidade chamado HG Tannhaus, autor do livro “Viagem Através do Tempo” e construtor de uma máquina temporal que lembra a estética vitoriana da Máquina do Tempo do escritor inglês HG Wells.

A máquina de Tannhaus será o pivô de uma disputa envolvendo o controle sobre esse poder em se deslocar pelo tempo-espaço. No quarto episódio somos apresentados ao personagem Noah (Mark Wascke) – um religioso que tenta construir em um bunker abaixo do sistema de cavernas uma máquina do tempo para controlar esse buraco de minhoca.

Todos os ciclos de desaparecimentos estão conectados à busca de cobaias para os experimentos de Noah, com consequências mortais. Essas experiências repetem-se tanto em 1953, 1986 e 2019. Segundo ele, essa máquina poderá salvar a humanidade, prisioneira de um ciclo vicioso de dor e sofrimento. Noah quer romper com a condição humana contraditória entre livre-arbítrio versus determinismo. Claro, eventualmente citações em torno de Nietzsche e o seu conceito de eterno-retorno aparecerão.

Pouco sabemos sobre Noah, mas a imensa tatuagem nas suas costas é emblemática: a Tábua de Esmeralda, associada à Filosofia Oculta do Hermetismo, Magia e Alquimia – texto que se pensa ter sido escrito pelo ícone helenístico Hermes Trismegisto (conhecido como “Hermes-Três-Vezes-Grande”, uma combinação de aspectos do deus grego Hermes e do deus egípcio Toth) que revela os segredos sobre substância primordial que seria onipresente em tudo que forma o universo. Com enorme relevância ainda hoje por revelar como o conhecimento antigo sobre o Universo tem se revelado verdadeiro por inúmeras ciências.

Noah está determinado a romper esse ciclo vicioso determinístico que mantém a cidade de Widem (transformada aqui no microcosmo da própria humanidade) prisioneira em um loop em que o presente influencia o passado e vice-e-versa… até o futuro entrar na segunda temporada com as forças que irão se opor a Noah pelo controle do buraco de minhoca.

É evidente a tentativa de rompimento com a cosmogonia gnóstica: o Tempo é Deus, como um demiurgo que nos aprisiona num ciclo vicioso de sucessivas reencarnações, de dor e sofrimento – a budista tibetana “Roda do Samsara”, a ilusão que esconde o fluxo contínuo do ciclo interminável de mortes, renascimentos e sofrimentos.

A Tábua de Esmeralda é a base do conhecimento alquímico: imitatio dei por generatio animae, imitar Deus criando vida, através dos princípios descritos por Hermes Trimegisto: “o que está embaixo é como está em cima. Sobe da Terra para o Céu e desce novamente à Terra e recolhe a força das coisas Superiores e inferiores… e se afastarão todas as trevas. Assim esse mundo foi criado – “Sic Mundus Criatus Est”, frase onipresente nas três temporadas da série.

Se Deus cria a vida e ele mesmo é o Tempo, somente escaparemos da “Roda do Samsara” se imitarmos Deus, dominado o próprio Tempo.

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