Sobre nossa tendência à confirmação, por Gustavo Gollo

Sobre nossa tendência à confirmação

por Gustavo Gollo

Nossa cultura nos impõe uma tendência a confirmar as crenças que já estabelecemos, transformando-as, assim, em dogmas, convicções imutáveis, defendidas a qualquer preço. A tendência tem sido apontada como uma das causas da polarização que assola o mundo em nossos dias, fato perigoso e preocupante (há uma grande chance de que estejamos à beira de um grande confronto disparado pela polarização crescente).

Há quem pense que a tendência seja inerentemente humana e, por essa razão, inevitável. Precauções racionais, no entanto, podem minimizar drasticamente essa propensão, deixando-a sob controle, como sempre costumava estar.

A atitude consiste em um dos fundamentos da prática científica, o que não a torna nem difícil, nem inacessível. Não há, de fato, nenhuma dificuldade em transpô-la para o dia a dia das pessoas, o que consistiria em aprendizado e prática bastante úteis.

De acordo com Karl Popper, a possibilidade de testar conjecturas, é o que distingue a prática científica de outras. Nada obsta que transponhamos tal prática para a vida comum, para o dia a dia, passando a chamar a isso de “atividade racional”, sem precisar atribuir a ela o pomposo rótulo de “atividade científica”. Os cientistas transpõem, com naturalidade, o exercício da racionalidade para todos os momentos de seu cotidiano. Tal tarefa é extremamente simples.

Costumamos elaborar hipóteses sobre todas as coisas, funcionamos assim, criando expectativas sobre os acontecimentos ao redor. Em tudo o que fazemos, ao erguer nas mãos um copo d’água, por exemplo, geramos uma vasta quantidade de expectativas. Esperamos, por exemplo, que o copo mantenha a sua forma, e não entorte em nossas mãos, derramando a água, nem que se dissipe como fumaça, e que permaneça impermeável, mantendo água em seu interior. Assim como essa, todas as nossas ações pressupõem um enorme conjunto de hipóteses tão banais que, em vista disso, damos-lhes tão pouca importância que nem as percebemos. Todas elas estão em nossas mentes, no entanto, milhões delas, justificando todas as ações que executamos.

Algumas dessas hipóteses são conscientes, podendo ser facilmente explicitadas. Temos crenças sobre quase todas elas, convicções, expectativas sobre o que ocorrerá, e gostamos de confirmar nossas crenças, sentindo-nos sábios e confiantes quando o fazemos.

Esse sentimento distingue nitidamente a abordagem científica de outras. O cientista não se interessa pela confirmação de hipóteses, mas atenta especialmente às refutações! Aqui, revela-se o grande mistério da atitude científica, o que distingue um cientista de um homem comum: seu apreço, seu entusiasmo, sua busca por refutações, e seu desinteresse por confirmações, disposição francamente contrária à comum.

Mas, então, cientistas são pessoas “do contra”? Que mania seria essa de atentar aos erros, às refutações e o que a justificaria?

Não se trata de ser do contra, é que cientistas são amantes do conhecimento, gostam de aprender sobre todas as coisas.

Vejam aqui um cientista contemporâneo:

A justificativa para a atenção ao erro, à refutação, consiste exatamente na busca por aprendizado, e na admissão de que aprendemos ao reconhecer nossos erros. Quando confirmamos nossas convicções permanecemos como estávamos. Descobrir um erro nos induz a sua correção e consequente aprendizado. Erros e refutações são, por essa razão, mais profícuos que as confirmações, o que torna a busca daqueles mais frutuosa que a dessas últimas.

Certas tendências culturais, no entanto, tendem a distorcer essa meta. Costumamos atribuir mais status e, consequentemente, mais poder, àqueles que confirmam suas hipóteses, considerando o erro uma ocorrência desabonadora. Tal pressuposto torna natural nossa disposição para confirmar nossas hipóteses, demonstrando assim nossa sabedoria e proeminência. Esse arranjo nos predispõe a “armar o jogo” de maneira a confirmar nossas expectativas.

Cientistas são instados a fazer o exato contrário, a tentar refutar suas teorias, tentar mostrar que são falsas. Sob o ponto de vista lógico, confirmações da teoria são praticamente irrelevantes, razão pela qual os testes de uma teoria constituem tentativas de refutação.

Existem, no entanto, inúmeras maneiras de “salvar” uma hipótese, de torná-la imune a refutações. Isso pode, à primeira vista, parecer uma grande coisa, não é. Hipóteses que não possam ser refutadas são inúteis. Essa informação parece abstrusa, mas não vejo como justificá-la sem o uso de certas tecnicidades lógicas. Ao dominar certas técnicas, pode-se transformar qualquer hipótese em uma teoria irrefutável, o que só a desqualifica aos olhos de quem reconhece tais artifícios.

A atitude científica: “antes e depois”

Ao se deparar com uma hipótese qualquer, deve-se perguntar: e como essa ideia pode ser refutada? Ou: que fatos evidenciariam a refutação dessa hipótese? Se a hipótese não puder ser refutada, ela não serve para nada.

Se for possível listar um conjunto de possibilidades, um conjunto de fatos que, caso ocorram, refutem a hipótese, ou seja, mostrem que ela é falsa, constatamos estar tratando com uma hipótese informativa.

Caso seja impossível imaginar algum fato que contradiga a teoria, ela não proporciona informações sobre o mundo. Uma boa teoria informa que certos fatos não podem ocorrer. Boas teorias proíbem certos estados de coisas.

Mas, todas as coisas proibidas pela teoria, devem ser explicitadas antes de se conhecer o resultado. Caso a pessoa já conheça o fato a ser explicado, ela simplesmente moldará sua explicação a ele.

Tendo ocorrido um evento qualquer, torna-se fácil adequar-lhe uma explicação baseada em nossa hipótese, confirmando-a, o que não significa absolutamente nada. Essa “maneira fácil” permitiria confirmar, seguidamente, todas as nossas hipóteses, fazendo-nos sentir conhecedores de determinadas coisas sobre as quais passamos a não mais precisar aprender. Tendemos, desse modo, a nos tornar conservadores e não mais alterar nossas crenças, transformadas, assim, em dogmas.

Para testar nossas hipóteses, temos que estabelecer, de antemão, antes de conhecer os fatos, as ocorrências que refutariam a teoria. Quanto mais claras sejam as proibições, mais informativa é a hipótese. Mesmo assim, tendemos fortemente a “justificar” nossos erros, de modo que, mesmo tendo estipulado antes dos fatos as condições que refutariam nossa hipótese, ao encontrar exatamente uma das condições proibidas, tendemos a dizer: mas, nesse caso, ocorreu diferente porque… e damos uma explicação qualquer, o que significa, apenas, não termos a menor intenção de testar, de fato, nossas crenças.

Ciência e cotidiano

A receita acima, embora bastante simples, é o que define a prática científica, segundo Karl Popper. Sua simplicidade extrema faz com que possa ser transplantada para o dia a dia com naturalidade. Os que tentarem segui-la, perceberão, no entanto, inúmeras arapucas empurrando-os para a confirmação fútil e injustificada, e a evitação do teste.

Um modo usual de falsa confirmação de hipóteses consiste em buscar provas para a hipótese que decorrem dela própria, de modo que a hipótese se sustenta a si mesma. Darei um exemplo. A maioria das pessoas supõe a si mesmas capazes de descobrir quando outras estão mentindo. Convicto de sua capacidade de detectar mentiras, ao perceber certas expressões faciais, corporais e inflexões vocais que a seus olhos, revelem mentiras, tendo ouvido um réu, um juiz pode concluir, que ele mentiu sobre dado acontecimento, acreditando ter descoberto, desse modo, a verdade, justificando, com isso, a condenação do réu.

Testes, no entanto, revelam que as pessoas, em geral, mesmo os que se consideram exímios na detecção de mentiras, têm enorme dificuldade em detectá-las, sendo incapazes de descobrir, em testes controlados feitos com crianças de 6 anos, quais delas estavam mentindo. O índice de acertos das pessoas testadas é baixíssimo, o que deve parecer inacreditável, para a maioria, que pensará: mas eu acertava!

Esse vídeo, bem interessante, revela a incapacidade geral para se detetar mentiras, mesmo as contadas por crianças. (O vídeo também apresenta um sistema de detecção de mentiras, em desenvolvimento que nos deixará completamente transparentes).

[video:https://www.ted.com/talks/kang_lee_can_you_really_tell_if_a_kid_is_lying#t-363232

O que leva a maioria a crer ser capaz de detectar mentiras é o fato de buscarem “confirmações” dependentes da própria crença. Assim, se uma pessoa executa um gesto que a outra considera indicativo de mentira, ela acredita ter flagrado o logro. Para confirmar a suposição, ela aceitará a repetição do mesmo gesto, o que tenderá a ocorrer invariavelmente, sendo o outro um mentiroso, ou não.

A confirmação da hipótese exige um teste independente da crença. Utilizei a expressão “testes controlados” acima, que significa apenas que o resultado é conhecido independentemente da crença. No caso do teste com crianças pode-se deixá-las por momentos, sozinha em uma sala, sob o foco de uma filmadora oculta e posteriormente, perguntar a ela se executou determinada ação proibida, ou não. Caso não se conheça a resposta, o índice de acertos é próximo do de um fato aleatório.

Uma parte considerável das crenças das pessoas decorre de “confirmações” do tipo aventado acima, dependentes da própria hipótese. Creio que a constatação desse fato tenda a deixar as pessoas extremamente constrangidas. A não constatação por outro lado, faz com que a pessoa se aferre, cada vez mais, em crenças equivocadas que a impedem de se corrigir, e que ela repassa a outras pessoas. Esse modo de “confirmação” das próprias hipóteses torna-se assim um “cristalizador” de erros, fixando-os, compelindo as pessoas a se aferrar nos mesmos erros por toda a vida, impossibilitando-as de aprender. Aprendemos reconhecendo nossos erros.

Em suma

O primeiro passo, portanto, para incorporar uma atitude racional, científica, em nosso dia a dia, consiste em, tão somente, extrair de nossas crenças previsões sobre fatos desconhecidos. É sobre esses, que ainda não conhecemos, que podemos nos equivocar. Nunca nos equivocaremos sobre fatos que já conhecemos.

Quando, eventualmente, erramos, descobrimos que precisamos mudar nossas hipóteses, é assim que aprendemos e evoluímos. Se só usamos nossas hipóteses para explicar fatos já conhecidos, nunca erraremos nossas previsões, e nos manteremos, eternamente, aferrados aos mesmos dogmas imutáveis. Só erramos se nos arriscamos a errar.

 

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