Stalin visto por George Kennan, por André Araújo

Stalin visto por George Kennan

por André Araújo

George Kennan foi o maior diplomata americano no Século XX. Ingressou no serviço diplomático na década de 20, optou desde o inicio por especializar-se em Rússia.

O Departamento de Estado tem uma escola para formação de diplomatas, o Foreing Service Institute. Em 1925 os EUA não tinham relações diplomáticas com a União Soviética e para um diplomata estudar a Rússia era preciso fazer cursos no exterior, nos EUA não havia escolas para essa especialização. Kennan começou a carreira como vice-cônsul em Genebra e estudou língua e cultura russa na Universidade de Berlim e depois em Riga, nos países bálticos.

Terminados os estudos de língua e cultura russa, Kennan se tornou o principal especialista em União Soviética no Departamento de Estado. Preparou-se assim para ser o encarregado de abrir a Embaixada americana em Moscou em 1929, quando foram restabelecidas relações diplomáticas. Kennan alugou o prédio para sede da Embaixada, providenciou a instalação, os móveis, a contratação de pessoal, aguardando a chegada do Embaixador indicado, William Bullit, não podia ser ele por causa da pouca idade e nível diplomático. Depois com várias escalas Kennan foi galgando postos no serviço diplomático passando por Berlim e Belgrado, finalmente foi nomeado por Truman Embaixador dos EUA em Moscou. Enquanto era encarregado de montar a Embaixada em Moscou, Kennan aproveitou suas férias e viajou por 36 dias pelo interior da União Soviética, seu conhecimento de russo era tão perfeito que nunca foi abordado como estrangeiro nessa jornada, era tratado como russo, numa época de extrema vigilância de estrangeiros no regime stalinista.

Seu profundo conhecimento da União Soviética desagradava Stalin que aproveitou suas férias em 1952 e impediu Kennan de reentrar na Rússia, declarando-o “persona non grata”.

Numa de suas estadas em Moscou, em 1946 e já como o Chargé d´Áffaires (segundo da Embaixada) Kennan mandou um telegrama de 49 páginas ao Presidente Truman, conhecido como o “Longo Telegrama” (enviado em 22 de fevereiro de 1946).

Nesse documento Kennan compõe um histórico das relações americano-soviéticas e traça a lógica da estratégia soviética para expansão de seu poder e influência e propõe qual deveria ser a politica americana para conter o expansionismo  russo no mundo, recomendação então conhecida como a “ Doutrina de Contenção”, que Kennan julgava ser a melhor politica em relação a URSS, ao contrario dos falcões de Washington  que propunham uma Doutrina de Confrontação. Nesse telegrama Kennan prevê a erosão do sistema soviético e sua desintegração em torno de 1990,  previsão escrita em 1946 e que se realizou.

Quando chefiava a Divisão de Planejamento Estratégico do Departamento de Estado, criada por ele, Kennan sob o então Secretário de Estado George Marshall  refinou a “Doutrina de Contenção”, desde então a base da politica americana frente a URSS até 1990. Kennan também teve grande participação na formulação do Plano Marshall como instrumento de contenção dos Partidos Comunistas na Europa Ocidental, no imediato pós-guerra havia fundados receios em Washington da prevalência dos partidos comunistas sob orientação soviética na França e na Itália, o Plano Marshall foi um instrumento para contrabalançar esse risco com um grande auxilio as economias devastadas da Europa.

Kennan era extremamente critico em relação à sabedoria diplomática americana, especialmente no Congresso, que ele considerava um poço de estupidez e ignorância em relação  às relações externas dos EUA. Nas suas memorias (1925-1950) , que foram editadas em português pela Top Books, tive um pequeno papel em estimular  a editora a praticar essa aventura , Kennan conta dois episódios em que confrontou-se com Senadores americanos em visita a  Moscou que não tinham a mais remota noção do Pais que visitavam.

Numa delas o Senador da Florida Claude Pepper, a caminho do Kremlin para uma audiência com Stalin dizia na sua voz roufenha “”vou dar um susto nesse ditadorzinho, vou dar um soco na barriga dele”, Kennan perdeu a paciência e fez o Senador descer do carro “ se o senhor fizer isso todos nós estaremos mortos, no gabinete de Stalin há atiradores ocultos prontos para metralhar quem ameaçar Stalin”.

Outro Senador, conta Kennan nas suas memorias, a caminho da mesma audiência disse “vou aproveitar o encontro para vender uma entrevista com Stalin, tem um jornal que me paga 1.000 dólares por essa entrevista”. Kennan respondeu “Stalin é uma das maiores personalidades do século, levei dois meses de tratativas para conseguir essa audiência que Stalin raramente concede,  é dada em deferência especial  ao Congresso dos EUA, o senhor vai sujar nossa reputação para conseguir alguns trocados ? “

Kennan gasta boa parte do seu livro de memorias para se lamentar da boçalidade e ignorância do Congresso em relação às relações internacionais dos EUA e foi por causa disso que se aposentou precocemente, sua ultima decepção foi a rejeição pelo Senado de um Tratado com a Iuguslasvia de Tito, onde Kennan era Embaixador, conseguido após três anos de duras negociações, Tito era comunista mas fora do controle soviético e pelo tratado compraria trigo dos EUA para não depender da URSS, o tratado para choque de Kennan foi rejeitado pelo Senado porque dois senadores de terceira categoria dependiam do voto de eleitores de origem iugoslava no meio-oeste e para não desagradar esses eleitores votaram contra o tratado. Para Kennan foi demais, pediu aposentadoria e se recolheu para a vida acadêmica. Seu primeiro livro foi A RUSSIA E O OCIDENTE, escrito logo após a Revolução de 1917 publicado no Brasil pela Forense e o ultimo foi SKETCHES OF A LIFE, um balanço de sua longa vida, que gentilmente me autografou quando o visitei no Instituto de Estudos Avançados de Princeton, já quase centenário, Kennan morreu em 2005, com 101 anos.

Sua curta descrição do perfil de Stalin, visto de perto, é uma obra prima. Esse pequeno relato está em “GOTHA DEI CENTI PERSONAGGI”, publicado  em 1977, em Milão, pela Editoriale Nuova, tenho essa edição original. A tradução do italiano é minha, desculpem falhas.

JOSEF STALIN

“Era atarracado e pequeno de estatura. Sua veste parecia ser maior do que o corpo, a impressão era  que a veste larga tinha o proposito de esconder a boa composição da figura. Por trás da roupa se via uma pessoa intensa,  de uma força concentrada, os dentes amarelados, a face amaciada  e insipida. Todo o conjunto, incluindo a pele devastada pela varíola e os olhos amarelos dava a impressão de um velho tigre belicoso.

A sua postura nos deixava a vontade, era simples, pacato e discreto. Não queria ser notado, falava pouco e na maior parte das vezes suas palavras pareciam razoáveis, de compreensão das razões do interlocutor. Um visitante longínquo que ignorasse quem era jamais poderia captar que abismos de calculo, de ambição, de vontade de poder,  de crueldade,  se escondiam sob tal personalidade modesta.

O transformismo de Stalin se constituía em fator essencial de sua grandeza como estadista, assim como sua facilidade em se exprimir de modo simples, claro e aparentemente inócuo.

Sabidamente privado de qualquer pensamento criativo, era sempre um aluno que aprendia rápido e muito facilmente. Possuía incríveis dotes de observador e até de imitador.

Quando eliminava seus mestres e isso fazia frequentemente significava para ele uma demonstração de respeito à sabedoria dos professores.

O que mais ressaltava nele era sua diabólica habilidade.  Na era moderna não se conheceu um estadista com  capacidade tática maior que ele. O seu aspecto tranquilo, sereno, inocente, que desarmava os adversários, fazia parte de sua inquietante superioridade tática.

Outros observadores que o encontravam com maior frequência do que eu, disseram que seus acessos de fúria eram terríveis quando se dirigiam a um infeliz subordinado e nos grandes banquetes diplomáticos da Guerra humilhava seus subordinados com brindes infindáveis apenas para demonstrar seu poder sobre eles.

Eu pessoalmente não o vi nessas situações. “Mas durante minhas muitas visitas a ele, nunca duvidei de que estava frente a um dos homens mais poderosos da Terra, grande, sobretudo na sua malignidade, cruel, astuto, perigoso, enfim um dos grandes personagem de nossos tempos”.

Esse pequena narrativa pessoal é valiosa  foi escrita por um observador que conhecia Stalin de perto e interagia com ele no apogeu da Guerra Fria quando as relações URSS-EUA eram as mais tensas do Século.

 Ao mesmo tempo que via Stalin como o inimigo, Kennan admirava o personagem na sua dimensão histórica e isso é o que se depreende de seu perfil de Stalin.

Kennan figurou como um dos WISE MEN (Seis Homens Sábios e o Mundo que Eles Criaram)  livro de Evan Thomas  que  versa sobre os seis grandes amigos que criaram o poder imperial dos EUA no Século XX, Kennan é um deles, os demais foram  Robert Lovett, Charles Bohlen, Averrel Harriman, Dean Acheson e  John McCloy, todos pesos pesados da diplomacia e do poder americano nos governos Truman e Eisenhower, no pico da guerra fria.

Infelizmente e há muito tempo os Estados Unidos não tem mais diplomatas do calibre de Kennan, a diplomacia americana caiu na mediocridade  que é parte do ciclo de decadência dos EUA, embora jamais, mesmo nos mais negros pesadelos, se  poderia  imaginar um desastre das proporções  de Donald Trump, um verdadeiro  cataclima histórico cujas raízes estão nos excessos do neoliberalismo e da globalização financeira que destruíram a classe media americana e produziram os 60 milhões de eleitores de Trump revoltados com seu País.

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