Sua vida cabe numa timeline?

Por Eliana Rezende

Publicado originalmente no Blog Pensados a Tinta

Esta tem sido, na última década, a pergunta que milhões tentam responder. Uma pergunta simples que possibilita alimentar compartilhamentos e publicidades de si por meio da rede mundial mais conhecida e utilizada no planeta, o Facebook.

Em geral o mundo de eterna felicidade, sucessos e realizações em rede pode trazer atrás de si outras verdades. Viver online, compartilhar e curtir pode ser muito mais simples do que viver o dia a dia trocando o olho no olho e suportando as diferentes dificuldades, sem desconectar-se ou com status de invisível.

A vida real tem muito menos ‘likes‘, risos, caras e bocas, frases, causas, militâncias ou animais de estimação!

Em verdade o mundo não mudou tanto!

Ainda escolhemos onde passamos boa parte de nossas vidas, para onde viajamos e com quem nos relacionamos,  comunicamos e como nos movemos. O que ocorreu foi uma potencialização de tudo em proporções nunca antes vistas e aos olhos de todos. Dessacralizaram-se espaços, víveres e condutas.

As redes também nos mudaram de lugar sob um outro aspecto: até o advento delas éramos apenas consumidores solitários de informações. Consumíamos, e muito pouco podíamos opinar ou divulgar, o que víamos, sentíamos ou pensávamos. Hoje, temos a possibilidade de produzirmos conteúdos e compartilhamentos, tanto quanto formos capazes. Não há limites e em muitos casos nem regras.

E é exatamente em relação a estes limites que ainda estamos experimentando em relação às redes.

Quer ver?

Quanto somos capazes de produzir, quanto somos capazes de consumir? Quanto do que produzimos é consumido e com que proveito? Por quem? De que forma? Eis o terreno em que nos movemos. Incertezas e limites: eis com o que nos confrontamos. 

De outra sorte, o mundo em rede potencializou em nossa sociedade o anseio pelo consumo. Consome-se tudo e em profusão: tempo, imagens, bens, informação, histórias de outros e principalmente pessoais. É um enredo onde a publicidade de nós mesmos nos transforma em principal produto a ser consumido. O índice desse “valor” de mercado é dado pela quantidade de “curtir” que um compartilhamento alcança. E de novo nos vemos confrontados com uma sociedade egóica e muito preocupada com desempenho e performance. A competição acirra-se e superar índices anteriores, nossos ou de outros, acaba sendo a meta a ser alcançada.

Compartilhamentos que flertam e seduzem algoritmos: isso é o que no final das contas buscamos. Já que estar em evidência em rede significa entre outras coisas saber como disparar no outro o desejo do curtir. O flerte e sedução algorítmica pode, e quase sempre é, ser manipulável. Mas não por nós e sim pelo poderoso banco de dados do Facebook.

Manipulável a tal ponto que recentemente pesquisadores revelaram como influenciaram ânimos e índices de felicidade em usuários do Facebook. Através de manipulações de imagens enviadas às pessoas, um laboratório humano de emoções foi criado, com o fim de influenciar disposição de ânimos e índices de felicidade. 

O que resulta disso tudo é um mercado de aparências e ignorâncias. Aparentamos o que não somos e o que não sentimos e ignoramos nossas verdadeiras dificuldades, limites, insatisfações, dores. O mundo em rede é aceito facilmente como ópio de contentamento e moeda de troca para escondermos frustrações e desventuras.

É óbvio que fora do mundo da rede outros mecanismos de opacidade, manipulação ou controle também existem: haja visto o que vemos em relação a doutrinas sectárias ou fundamentalistas, partidarização midiática ou política, famílias tradicionais, regimes autoritários.

Ao que parece, todos estes comportamentos, mais do que ligados ao desenvolvimento tecnológico possuem, sim, um ingrediente que vem do Humano.

O ciberespaço simplesmente potencializa seu alcance e velocidade. Apenas isso.

Mas afinal, “o que você tem feito“?

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1 comentário

  1. Minha filha me orienta

    que já na década de 60 havia o caderninho de perguntas e respostas sobre os gostos e predileções da moçada, nos quais numeravam-se as linhas e cada um respondia àquela mesma pergunta que encabeçava a página. Dessa forma, todos ficavam sabendo o que todos que ali já haviam escrito pensavam sobre o tópico.

    De outro modo, as agendas ‘gordinhas’, até fechadas por elásticos de dinheiro, pelas meninas, deixavam nelas ingressos de shows a que tinham comparecido, papeizinhos de balas e bombons, letras de músicas, poemas e fotos. Sim, fotos.

    “Ora direis … ouvir estrelas. Decerto perdeste o senso pois só quem …”

    Mais ou menos assim.

    O ser humano humano. 

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