Vice de Salvador contra o modelo de carnaval

Coloco aqui texto retirado do blog da Maria Fro, é reportagem do Terra Magazine. Segue o link e o texto. Mostra um lado nada agradável do que se tornou o carnaval no Brasil.

http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI4199139-EI6578,00-Vice+de+Salvador+ataca+exploracao+de+cordeiros+no+Carnaval.html

Vice de Salvador ataca exploração de cordeiros no CarnavalTerça, 12 de janeiro de 2010, 21h38 Querem o dinheiro da ...Ex-prefeito e atual vice de Salvador, Edvaldo Brito ataca ganância dos donos de grandes blocos carnavalescos em Salvador: “Querem o dinheiro da Prefeitura, querem tudo o que você possa imaginar”11 de janeiro de 2010Secom/Divulgação

Claudio Leal

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Baba Egbé do Terreiro do Gantois, uma espécie de protetor da comunidade do Candomblé, o vice-prefeito de Salvador, Edvaldo Brito (PTB), precisará de auxílio dos ancestrais para impor mudanças nas relações de trabalho no carnaval baiano. Em especial, no cabresto dos cordeiros, os subempregados da indústria carnavalesca que cuidam das cordas de segurança nos desfiles dos blocos (a etnia predominante é a negra).

Divulgado na semana passada, o novo estatuto das festas populares determina que os cordeiros devem ganhar três litros de água, protetores solar e auricular, sapatos antiderrapantes e camisa de algodão. Para superar as condições precárias dentro dos blocos, houve a participação do Ministério Público do Trabalho, mas, ainda assim, os empresários reagiram às medidas humanitárias da Prefeitura.

– Eu vi reagir o chamado presidente do Conselho Municipal do Carnaval. E, considerando ser alguém vinculado a um bloco do carnaval, é evidente que não tem isenção para ser presidente de um órgão que congrega diversos segmentos – diz o vice-prefeito, Edvaldo Brito, responsável pela coordenação da folia baiana, em entrevista a Terra Magazine.

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Entre outras medidas, a Prefeitura obriga os blocos a pagarem também pela exposição de patrocinadores. Em conversa com o jornal baiano Correio, o dublê de presidente da Associação de Blocos de Trio de Carnaval de Salvador (ABT) e do Conselho Municipal do Carnaval, Fernando Boulhosa, afirmou: “Vamos ingressar na Justiça para cancelar as regras, pois elas foram divulgadas a 35 dias do Carnaval. Nós não fomos consultados e nem temos condições de arcar com os custos para equipar os cordeiros com tantos itens”.

Numa festa milionária, os cordeiros chegam a receber pela diária menos de R$ 10. A concentração para a escolha dos braços negros, em frente ao Farol da Barra, chega a lembrar os procedimentos dos mercados de escravos, séculos atrás. Edvaldo Brito responde ao choro financeiro dos empresários:

– O vice-prefeito de Salvador está propondo oferecer três litros d’água aos cordeiros, proteger os ouvidos dos cordeiros, a integridade dos cordeiros… E eles declaram, safadamente, que não têm dinheiro.

 


“Gigi, eu chego lá” – “O 1o voo do Chiclete Voador” (sic!) destacado por jornal baiano: Chiclete com Banana investiu R$ 17 milhões em jatinho

No dia 8 de janeiro, o jornal A Tarde estampou louvaminheira metade de primeira página para informar aos leitores “chicleteiros”, em foto sinérgica: a banda Chiclete com Banana (Bell Marques à frente) realizara o “voo inaugural” de um avião particular avaliado em R$ 17 milhões. Edvaldo Brito não citou diretamente o esbajamento do jet set, mas critica os plutocratas da música baiana:

– Estão trocando a dignidade por dinheiro, pra ficarem mais ricas, terem mais condições de comprar seus bens materiais com valores estratosféricos.

Ele denuncia a ganância privatista do setor carnavalesco:

– Querem o dinheiro da Prefeitura, querem tudo o que você possa imaginar desde que privatizem mais, mais, mais e mais o Carnaval da Bahia, sob o sacrifício da dignidade da pessoa humana.

Nos últimos meses, Brito tem sido mais atuante do que o próprio prefeito de Salvador, João Henrique Carneiro (PMDB), apontado pelo Datafolha como o pior administrador entre as capitais brasileiras. Há articulações para Carneiro abandonar o cargo no mês de abril. O alcaide tenta se aproximar do governador Jaques Wagner (PT), apesar de ser liderado do ministro da Integração Nacional, Geddel Vieira Lima. Prefeito da cidade em 1978 e 1979, o atual vice desfaz a especulação de que poderá assumir o cargo este ano.

Leia a entrevista.

Terra Magazine – Como o senhor vê as críticas dos donos de blocos de Carnaval ao estatuto que os obriga a dar coisas básicas aos cordeiros, como água e protetor solar?
Edvaldo Brito – Você colocou duas premissas. Blocos de carnaval, não. Eu diria que alguns reagiram, não todos. Eu vi reagir o chamado presidente do Conselho Municipal do Carnaval. E, considerando ser alguém vinculado a um bloco do carnaval, é evidente que não tem isenção para ser presidente de um órgão que congrega diversos segmentos. Perde a legitimidade quando fala a favor ou contra a medida.

Se refere a Fernando Bulhosa (ligado ao bloco Internacionais)?
Esse senhor. Em segundo lugar, vale a pena repetir sua expressão: as coisas básicas estão na Declaração dos Direitos do Homem, estabelecendo os princípios da dignidade da pessoa humana. A primeira a colocar isso foi a Constituição Alemã, exatamente depois da Segunda Guerra Mundial. Não se pode brincar com a dignidade da pessoa humana. Tudo isso que estou lhe dizendo é pra falar que os cordeiros, em favor dos quais a Prefeitura de Salvador veio agora, são portanto titulares da dignidade da pessoa humana. E aí essas pessoas estão reclamando. Poucas pessoas, pois vários segmentos aplaudiram… Essas pessoas estão trocando a dignidade por dinheiro, pra ficarem mais ricas, terem mais condições de comprar seus bens materiais com valores estratosféricos. O vice-prefeito de Salvador está propondo oferecer três litros d’água aos cordeiros, proteger os ouvidos dos cordeiros, a integridade dos cordeiros… E eles declaram, safadamente, que não têm dinheiro.

Querem o dinheiro da Prefeitura?
Querem o dinheiro da Prefeitura, querem tudo o que você possa imaginar desde que privatizem mais, mais, mais e mais o Carnaval da Bahia, sob o sacrifício da dignidade da pessoa humana.

O senhor disse que somente uma pessoa, o presidente da entidade dos blocos do canaval, se pronunciou contra a medida da Prefeitura. Mas a verdade é que se trata de uma prática tão forte que até hoje os empresários submetem os cordeiros a esse tipo de regime de trabalho.
Com certeza. Estou aqui na minha fente com a enquete promovida por um site, indagando o que as pessoas acham das medidas do Estatuto. Até as 15h e 24 minutos, 53,8% das pessoas achavam ótimo. Mas alguns acham que vai prejudicar muita gente.

Como vai ser feita a fiscalização?
Será feita por diversos órgãos integrados: Polícia Militar, Civil, Defesa Sanitária, órgãos de combate à violência… Será um batalhão de fiscalização.

Há uma questão racial no tratamento dado aos cordeiros?
Não diria que é uma questão racial, mas é um desrespeito à igualdade racial. Não no sentido de segregar, mas da igualdade. Se mais de 90% dos cordeiros são negros, precisamos ter a ideia logo de saída de que é um desrespeito à igualdade racial. Você pode imaginar o que é o dia de pagar esse dinheiro?

Filas enormes, sob o sol…
Mulheres grávidas, menores que pelo Estatuto da Criança e do Adolescente não podem trabalhar… O menor de 18 anos só pode trabalhar como estagiário. Como é que ele já vai puxar cordas? Essas regras valem para quê? Um grande escritor político do século XX, Norberto Bobbio, escreveu um livro chamado “A Era dos Direitos”. Ele diz que todos nós temos direitos inscritos nos documentos normativos, mas faltam órgãos públicos para aplicar esses direitos. Não renego minha origem. Sou filho de uma lavadeira de roupas com um pedreiro. O povo vem e me dá 800 mil votos, me dá essa cadeira, me dá uma caneta para legitimar o exercício do poder. Não me abato com nada disso.

Por que o vice-prefeito tomou a frente disso e não o prefeito João Henrique? 
Ele me delegou. Existe um artigo da Lei Orgânica, o artigo 52, que estabelece que o prefeito pode me convocar para algumas tarefas especiais. Na quinta-feira “de cinzas”, posterior ao carnaval de 2009, o prefeito deu um café da manhã para apurar como foi o carnaval. Neste momento, ele olhou para mim e deu a coordenação do carnaval de 2010, assim como me deu a revitalização do Pelourinho (no centro histórico de Salvador) e a reforma administrativa. Enfim, foi por isso. Significa que ele está de corpo e alma.

O que se comenta é que o senhor o sucederá em breve, na Prefeitura. Por isso tomou a frente? O prefeito vai se licenciar em abril?
(gargalhadas) Meu sorriso já mostra que eu não acredito em nada disso. Eu acho que isso não tem procedência. Você está me entrevistando lindamente e eu estou lhe respondendo lindamente.

Em relação aos cordeiros, numa análise mais sociológica, como o senhor avalia essas práticas da elite baiana?
Não quero generalizar em termos de elite. Prefiro dizer: capitalismo à baiana. Uma determinada faixa capitalista da Bahia, voltada para a exploração da cultura baiana e da fonte da cultura, o negro, essa sim, no plano sociológico e histórico, não se compadece.

Entra naquilo que disse Joaquim Nabuco? De que a escravidão permaneceria como uma característica nacional? 
Uma pessoa, o vereador Alcindo Anunciação, exatamente no dia de hoje, falou de quando os negros puxavam os navios negreiros com as cordas. Ele vê uma reedição com os cordeiros puxando a corda no carnaval. Você pode dizer que eu assino embaixo disso. Cada vez que vejo essa cena, me lembro da miséria do meu povo, me lembro da minha avó, que para poder sobreviver dependeu da minha ajuda. E me lembro de mim mesmo, tomando café com farinha. Digo isso sem nenhum complexo de inferioridade. Porque um filho de lavadeira que chegou aonde chegou não pode ter complexo de inferioridade, mas somente a gratidão a Deus, Nosso Senhor.

Terra Magazine

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