A força do conhecimento. I. Livros, lentes & afins, por Felipe A. P. L. Costa

O aparecimento de jornais e livros impressos, por exemplo, foi sucedido pelo aumento da parcela alfabetizada da população. O que, por sua vez, intensificou a demanda por certos tipos de equipamentos corretivos da visão

A força do conhecimento. I. Livros, lentes & afins

por Felipe A. P. L. Costa [*].

Na esteira do que foi dito no capítulo anterior, vamos examinar agora dois conjuntos de invenções que se revelariam cruciais na secularização e, em última instância, na democratização do saber. Ambas devem muito ao trabalho de sucessivas gerações de práticos.

Estou a me referir a duas inovações tecnológicas: (1) A criação do tipo móvel, que daria origem à tipografia e, por extensão, aos jornais e ao mercado livreiro moderno; e (2) O surgimento de dois instrumentos ópticos que impulsionariam a Revolução Científica, o telescópio e o microscópio.

Há uma forte e significativa ligação entre as duas.

O aparecimento de jornais e livros impressos, por exemplo, foi sucedido pelo aumento da parcela alfabetizada da população. O que, por sua vez, intensificou a demanda por certos tipos de equipamentos corretivos da visão (e.g., óculos) [Nota 1].

Quando os livros eram alugados.

Os livros já foram objetos raros. Era difícil e caro obtê-los. Ou mesmo alugá-los. A rigor, poucas instituições eram capazes de reunir e manter um acervo. Ter uma biblioteca particular em casa já foi algo impensável.

Eis o comentário de Boorstin (1989, p. 482-4):

“No número crescente de universidades medievais havia poucas bibliotecas institucionais, mas os professores continuavam a precisar de livros. Era possível obtê-los de mercadores de livros itinerantes, fonte pouco merecedora de confiança sobre a qual os professores não tinham nenhum controle. Alugar manuais, geralmente mediante um preço fixo por caderno, era um privilégio valioso que podia enriquecer a universidade e proibir a circulação de textos heréticos. O catálogo mais antigo da Universidade de Paris, de 1286, enumera uns 138 títulos diferentes para [alugar]. Em Bolonha e noutros lugares, era exigido a cada professor que fornecesse ao ‘estacionário’ [Nota 2] da universidade uma cópia das suas lições, para poderem ser transcritas e alugadas ou vendidas. Chamava-se-lhe ‘estacionário’ simplesmente porque, ao contrário dos mercadores de livros itinerantes, permanecia num lugar. Os mercadores ainda negociavam em livros proibidos, e foram eles que possibilitaram a grande circulação das traduções proibidas da Bíblia que John Wycliffe fez para inglês. Mas o ‘estacionário’ continuou durante muito tempo a ser a fonte autorizada de fornecimento de manuais e material de escrita, e operou também como biblioteca circulante. […]

“Então, quando a própria imprensa se tornou uma instituição estabelecida, os impressores organizaram as suas guildas e tentaram limitar as edições, a fim de manterem a estabilidade dos postos de trabalho. Em Inglaterra, um decreto da Câmara Estrelada de 1587 limitava as edições a 1.250 exemplares, apenas com algumas, poucas, excepções. Mais ou menos por essa altura, a própria Stationer’s Company limitava as edições a 1.500 exemplares, tendo como única excepção obras como gramáticas, livros de orações, estatutos e proclamações, calendários e almanaques. Na Europa, durante os séculos 17 e 18, uma primeira edição só excedia os 2.000 exemplares quando se tratava de bíblias e obras de uma popularidade invulgar, como Le siècle de Louis XIV, de Voltaire, ou a Enciclopédie, de Diderot. […]

“[O alemão] Leibniz foi um marco da transição das coleções reais e eclesiásticas destinadas à minoria privilegiada para a biblioteca pública ao serviço de todos. No século seguinte, as suas visões seriam concretizadas na surpreendente carreira do imigrante italiano Sir Anthony Panizzi (1797-1879), nacionalista italiano apaixonado e enérgico homem de acção. Forçado a fugir da sua Brescello natal, no ducado de Modena, onde aderira a uma sociedade secreta que conspirava contra os ocupantes austríacos, fora condenado à morte à revelia. Encontrou refúgio em Inglaterra, onde foi nomeado primeiro professor de Literatura Italiana da Universidade de Londres. Como não aparecessem estudantes, abandonou o cargo honorífico para se integrar nos quadros do Museu Britânico em 1831. Nos 35 anos seguintes, dominou e revigorou esse lugar para fazer dele o modelo de uma biblioteca nacional no estilo moderno, indo ao encontro do público leitor.”

Durante muitos anos, porém, a alfabetização e o acesso à leitura não religiosa continuaram a ser vistos como privilégios de uns poucos, mesmo entre os integrantes da classe dominante [Nota 3].

Nas palavras de Schwartzman (1981, p. 35):

“Historicamente, os intelectuais muitas vezes surgem como grupos especializados em assuntos religiosos. Como indica Weber, ‘a princípio o sacerdócio era a carreira mais importante do intelectualismo, particularmente onde existiam escrituras sagradas, que faziam com que os sacerdotes se transformassem em uma guilda literária, engajada na interpretação das escrituras e no ensino de seu conteúdo, sentido e aplicação’. Isso foi particularmente verdade, ainda de acordo com Weber, na Índia, Egito, Islã e para o cristianismo antigo e medieval; e menos na Grécia, Roma e China, lugares onde ‘o desenvolvimento do pensamento metafísico e ético ficou nas mãos de não sacerdotes, tanto quanto o desenvolvimento da teologia’. Na China, o confucionismo foi uma doutrina desenvolvida pela burocracia dos mandarins, ‘com uma absoluta falta de sentimento de necessidade de salvação ou de qualquer ponto de apoio transcendental para a ética. Em seu lugar existe uma doutrina substantivamente oportunista e utilitária (ainda que esteticamente refinada) de convenções apropriadas a um grupo de status burocrático’ […]. Na Índia, os brâmanes desenvolveram uma religião secularizada que convinha à nobreza dominante da classe guerreira, mas puderam manter para a sua própria casta o controle dos rituais, procedimentos e normas de comportamento em que as classes dominantes eram educadas. Outras formas de religião – mais místicas e introspectivas, mágicas ou salvacionistas – desenvolveram-se quando as relações entre os setores políticos e religiosos se tornavam menos harmônicas. O budismo e o jansenismo são exemplos importantes de religiões salvacionistas que surgiram nas tradições chinesa e hindu, desenvolvidas dentro de grupos intelectuais e mais tarde espalhadas entre as massas. No judaísmo antigo, a desorganização do Estado e de seu sistema sacerdotal, após Salomão, parece ter dado condições para o surgimento de uma religião popular baseada em um movimento profético e em algo que Weber denomina ‘intelectualismo pária e pequeno-burguês’, com um forte conteúdo ético e salvacionista.”

Boa parte desses mundinhos literários começaria a ruir a partir do século 15. Um marco histórico nesse processo foi o trabalho do artesão e editor alemão Johannes Gutenberg (c. 1394-1468). Foi ele quem inventou os tipos móveis – a ferramenta que resultaria na criação da tipografia.

Sobre a invenção de Gutenberg, eis o comentário de Boorstin (1979, p. 463):

“O seu invento crucial não foi, na realidade, tanto um modo novo de ‘imprimir’, quanto um modo novo de multiplicar o tipo metálico de letras individuais. […] Via imprimir uma página inteira como a tarefa acumulada de imprimir letras individuais, frequentemente repetidas. Por que, então, não fazer muitas cópias de cada letra, que poderiam voltar a ser usadas tão frequentemente quanto fosse necessário?

“[…] Por exemplo, para fazer um livro impresso cada letra fundida tinha de ser precisamente da mesma altura de todas as outras. Fazer as peças de maneira a serem móveis, era o menos difícil. Todos os moldes fundidos para determinada letra tinham de ser permutáveis.

“[…] O invento crucial de Gutenberg foi o seu molde especialmente concebido para fundir rapidamente e em grande número peças de tipo precisamente similares. Tratava-se de uma máquina-ferramenta – uma ferramenta para fazer as máquinas (isto é, o tipo) que faziam a impressão.”

O tipo móvel acelerou e barateou a impressão, abrindo as portas para a imprensa e a indústria livreira.

A despeito da resistência inicial dos impressores, a variedade de títulos e as tiragens aumentaram progressivamente. O que, por sua vez, multiplicou o número de leitores e popularizou a leitura. Com mais gente lendo, os problemas de visão passaram a ser detectados com maior frequência, provocando um aumento na demanda por equipamentos corretivos (óculos e afins).

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Notas.

[*] O presente artigo foi extraído e adaptado do livro A força do conhecimento & outros ensaios: Um convite à ciência (título provisório), cujo lançamento está previsto para o primeiro semestre de 2021. Para detalhes e informações sobre o livro mais recente do autor, O que é darwinismo (2019), inclusive sobre o modo de aquisição por via postal, faça contato pelo endereço [email protected]. Para conhecer outros livros e artigos, ver aqui.

[1] Não que o ato de ler tenha necessariamente provocado um aumento no número de indivíduos com problemas de visão (e.g., míopes). O que houve foi que a popularização da leitura descortinou diferenças que já deviam existir antes, tornando claro que nem todos tinham a mesma facilidade para deitar os olhos sobre tipos impressos em uma folha de papel.

[2] Nota da tradutora (Fernanda Pinto Rodrigues) do livro de Boorstin: “A palavra inglesa é stationer, de que derivou o stationer’s moderno, ou papelaria, e o stationery, ou artigos de papelaria”.

[3] Sobre a importância prática e comezinha do conhecimento, eis um trecho de uma reivindicação feita pela ativista e parlamentar britânica Mary Agnes Hamilton (1882-1966) (apud Sá da Costa & Freire 1943, p. 47-9; grafia original):

Como representante dos simples consumidores, aos quais esta grande assembleia, com característica generosidade, permitiu usar da palavra, desejo abordar a discussão de um ponto posto por Sir Harold Hartley. Ele disse, e, claro está, com verdade, que o uso científico da energia não revolucionou somente as condições do trabalho; reduziu também, consideravelmente, a fadiga, aumentou o confortou e melhorou as condições de saúde dentro do lar. Esse alívio, porém, ficou limitado, em geral e neste país, às casas dos bem dotados, a casa moderna. A maior parte das mulheres que trabalham está ainda ligada à sujidade, aos antigos trabalhos pesados e aos antigos utensílios. Trabalha em condições que lhe tornam extremamente difícil encontrar na sua actividade aquela satisfação artística que é devida a qualquer trabalho feito tão bem quanto possível; trabalha em condições que lhe tomam mais tempo, mais energia e mais paciência do que seriam necessários. O meu pedido será, portanto, que se tornem extensivos ao lar humilde os utensílios que poupam trabalho e que podem revolucionar a vida dentro dele. […]

É este o âmago do meu pensamento. O mundo, para a sua reconstrução, vai precisar do trabalho de todos os seus cidadãos. Vai precisar tanto do trabalho de suas mulheres, como precisa do dos seus homens. Se o trabalho do lar humilde fosse racionalizado – é isso, o mínimo, que a ciência pode fazer por ele – a mulher que quere e pode ter uma ocupação fora de casa, pode tê-la sem sacrificar o seu lar. […] O aligeiramento duma tarefa desnecessária e sem fim tornará a família, que vive nesse lar, capaz de gozar uma intimidade mais completa e mais livre e, ao mesmo tempo, mais rica e mais variada. A ciência, se não for tão orgulhosa que não possa promover essa comezinha aplicação dos seus grandes sucessos, dará uma não pequena contribuição para aquilo que o dr. Thomas Jones chamou, no outro dia, ‘os milhares de pequenas vitórias à volta da nossa porta, nas quais a nossa vitória deve ser dividida’.

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Referências citadas.

+ Boorstin, D. J. 1989. Os descobridores. RJ, Civilização.

+ Sá da Costa, A & Freire, JR. orgs. 1943. A ciência e a ordem mundial. Lisboa, Cosmos.

+ Schwartzman, S. 1981. Ciência, universidade e ideologia. RJ, Zahar.

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