Ainda sobre a hipótese do cozimento, por Felipe A. P. L. Costa

Ainda sobre a hipótese do cozimento

por Felipe A. P. L. Costa

Em 20/7/2013, a Folha de S. Paulo publicou um artigo relativamente extenso, ‘Cozinho, logo existo’, de Suzana Herculano-Houzel. Autora de artigos técnicos importantes, sobretudo na área de neuroanatomia comparada, a renomada cientista brasileira ganhou fama como autora de obras de divulgação científica, sendo, inclusive, colunista daquele jornal.

No referido artigo, Herculano-Houzel procurou situar suas descobertas recentes em um contexto evolutivo mais amplo. Embora o texto tenha me parecido agradável e, em linhas gerais, bastante acessível, penso que a autora deixou escapar alguns equívocos significativos, os quais mereceriam reparo. (Temo que, no livro mais recente da autora, A vantagem humana [Companhia das Letras, 2017], os ajustes não tenham sido feitos e que, portanto, os problemas referidos a seguir ainda estejam todos de pé.)

Pergunta pertinente, resposta inapropriada

Em linhas gerais, o que mais me chamou a atenção foi o aparente desarranjo entre o tipo de questão que é levantada no artigo – algo do tipo “por que os seres humanos passaram a cozinhar os alimentos?” – e a natureza da resposta que a autora oferece e discute – algo do tipo “porque é mais fácil e rápido extrair calorias de alimentos cozidos”.

Em casos assim, o grande problema é que a pergunta levantada – bastante pertinente e por si só das mais intrigantes – é de natureza essencialmente histórica; pede, portanto, uma resposta de natureza igualmente histórica. Ocorre que a explicação oferecida é de natureza metabólica, funcional; como tal, embora possa estar inteiramente correta no âmbito da fisiologia, não serve como resposta a uma pergunta de natureza histórica.

A resposta apropriada deveria adotar um ponto de vista filogenético (i.e., quando e como os nossos ancestrais passaram a cozinhar alimentos) ou adaptativo (i.e., de que modo e até que ponto tal inovação tecnológica passou a afetar a sobrevivência dos grupos que a adotaram). Em outras palavras, para responder apropriadamente à pergunta “por que os seres humanos passaram a cozinhar os alimentos?”, não basta constatar que o cozimento implica em determinados benefícios metabólicos, é necessário colocar tais benefícios em perspectiva – e.g., que tipo de contexto ecológico favoreceria a adoção do cozimento e que vantagens seletivas isso traria? Vejamos um exemplo de como isso pode ser feito.

De acordo com a chamada ‘hipótese do cozimento’ – para detalhes, ver Pegando fogo (Jorge Zahar, 2010), de Richard Wrangham –, cozinhar (sobretudo raízes, tubérculos e outras estruturas do corpo das plantas ricas em carboidratos) foi uma inovação tecnológica que permitiu a nossos ancestrais aumentar em muito a taxa de extração de calorias dos itens ingeridos.

A partir de então, uma mesma quantidade de energia podia ser obtida a intervalos de tempo bem menores. Isso por si só teria tido amplas, profundas e duradouras consequências na ecologia dos hominídeos, incluindo alterações no ‘orçamento doméstico’ (e.g., atividades envolvidas com a manutenção do metabolismo corporal passaram a ser atendidas em períodos de tempo mais curtos) e no comportamento de forrageio dos indivíduos (e.g., uma menor quantidade de tempo precisava ser alocada na procura de alimentos).

Em um contexto de competição intergrupal, os grupos que dominavam tal tecnologia devem ter usufruído de ganhos relativos importantes (e.g., redução nos níveis de mortalidade, elevação no tamanho médio do grupo e colonização de novos hábitats), sobretudo quando comparados aos grupos que, por algum motivo, não cozinhavam.

Problemas pontuais

Olhando o texto mais de perto, também me deparei com alguns problemas pontuais. Por exemplo, no resumo que antecede o corpo principal do artigo (não sei se foi a própria autora quem o escreveu ou se já foi alguém do jornal), lemos o seguinte:

O domínio da técnica de cozer alimentos representou vantagem competitiva para o homem em relação a outros animais.

A expressão ‘vantagem competitiva’, ao que parece, foi usada no sentido de ‘vantagem seletiva’. Nesse caso, estaríamos diante de grave mal-entendido. Não custa ressaltar: seleção natural é um processo que opera entre coespecíficos que vivem em uma mesma população. Não faz sentido, portanto, afirmar que uma determinada característica tenha conferido algum tipo de vantagem seletiva para os nossos ancestrais em relação a outras espécies de animais.

Na frase seguinte, lemos

O aprendizado lhe permitiu obter rápida e facilmente combustível energético para alimentar 86 bilhões de neurônios e deu impulso a funções cerebrais cognitivas, não ligadas à sobrevivência.

Afirmativa triplamente problemática. Em primeiro lugar, não é necessário evocar a ocorrência de aprendizagem. Em segundo lugar, caberia ressaltar (como a própria autora faz mais adiante, no texto principal) que o controle do fogo – e o próprio cozimento – talvez não tenha tido início com a espécie humana (Homo sapiens), mas sim com algum ancestral mais remoto (Homo erectus). Por fim, o mais importante: a afirmativa de que as funções cerebrais cognitivas não estariam ligadas à sobrevivência é, na melhor das hipóteses, um palpite gratuito e desnecessário.

Embora alguns estudiosos defendam a ideia de que as nossas funções cognitivas seriam meramente um epifenômeno – um ‘subproduto’ da evolução de outras características do cérebro –, há quem argumente a favor de explicações adaptativas, segundo as quais o desenvolvimento de tais funções teria sido lapidado pela seleção natural.

Dicotomia fundamental

Não estou aqui dizendo que a autora deveria ter abordado essa questão em seu artigo, estou apenas alertando contra afirmativas gratuitas e desnecessárias – como o trecho “não ligadas à sobrevivência”, na frase acima –, as quais, muitas vezes, servem apenas para induzir o leitor a erros e mal-entendidos.

Entre outras coisas, penso que o caso serve para ilustrar o tipo de confusão que pode acontecer quando não observamos a dicotomia fundamental que ronda todo e qualquer fenômeno ou processo biológico – e mesmo um renomado cientista pode incorrer nesse tipo de problema.

Não custa repetir: em biologia, diferentemente do que ocorre em outras ciências naturais, há dois níveis de explicação. Temos as explicações funcionais, envolvendo ontogenia e fisiologia, mas temos também as explicações históricas, envolvendo filogenia e aptidão – para detalhes, ver ‘Por que envelhecemos?’ e ‘Por que as mulheres menstruam?’.

[Nota: versão anterior deste artigo foi publicada no Observatório da Imprensa, edição 770, de 29/10/2013; para conhecer artigos e livros do autor, ver aqui; para informações sobre o livro mais recente do autor, O evolucionista voador & outros inventores da biologia moderna (2017), inclusive sobre o modo de aquisição por via postal, ver aqui.]

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