As dificuldades para licenciar Belo Monte

Jornal GGN – Na última quarta-feira (25), a usina de Belo Monte conseguiu a Licença de Operação do IBAMA. A previsão é que a partir de fevereiro de 2016, a hidrelétrica comece a gerar energia para o Sistema Interligado Nacional.

Normalmente, o processo de licenciamento ambiental é bastante criticado pelas concessionárias de energia.

A emissão dessas licenças caminha paralelamente ao andamento das obras. E as obras acabam sofrendo diversas paralisações pela ação de indígenas, ribeirinhos e ONGs.

Muitas vezes, também são questionadas por órgãos fiscalizadores, que paralisam o andamento por meio de liminares na justiça.

No caso de Belo Monte, a concessionária Norte Energia teve que cumprir uma série de condicionantes sócio-ambientais. Ao todo, foram R$ 4 bilhões apenas em investimentos desse tipo.

Na última sexta-feira (27), o Jornal GGN conversou com o presidente da Norte Energia, Duilio Diniz de Figueiredo, que comentou algumas das dificuldades para conseguir o licenciamento da usina, falou sobre a relação com os indígenas e demais moradores dos municípios afetados, sobre as intervenções sócio-ambientais e o início da operação da hidrelétrica.

Jornal GGN – Quais foram as dificuldades para conseguir a Licença de Operação e como elas foram superadas?

Duilio Diniz de Figueiredo – Quando você recebe a licença de instalação, você começa a se preparar para a Licença de Operação (LO). É um processo quase que contínuo. Você recebe as condicionantes e você começa a trabalhar nessas condicionantes que vão lhe habilitar para efetivamente conseguir a licença de operação.

E foi isso que a Norte Energia fez. A Norte Energia recebeu uma série de condicionantes que são normalmente atribuições de Estado. Como, por exemplo, fazer saneamento em municípios, reformar e melhorar hospitais. Então, tudo isso, o empreendedor teve que fazer.

E se criou também nesse cumprimento uma pequena lacuna, que depois reflete nos dados da LO. Por exemplo, você faz o saneamento, mas você tem que entregar para alguém operar.

Quer dizer, não ficou claro durante o período de licenciamento inicial, na obtenção da licença de instalação, o que o empreendedor devia fazer.

Mas na hora que você vai entregar, você vai entregar sempre para o estado, ou para o município, ou para alguma empresa que o município crie, para que você possa fazer. Então, isso é um ponto que nós temos que discutir agora nessa parte final da obtenção da LO.

Jornal GGN – Por exemplo?

Duilio Diniz de Figueiredo – Por exemplo, as ligações interdomiciliares. A nossa obrigação era fazer todo o sistema de saneamento de água e esgoto até a parte da entrada da propriedade.

E o que estabelece a legislação brasileira é que dali pra frente é da empresa que vai operar. Nós tivemos que assumir isso aí. É um custo adicional para a empresa e tudo isso aí foi um processo de negociação.

E como nós não tínhamos a obrigação de fazer, nós negociamos. Isso implica em custo, você tem lá seus fóruns de decisão corporativa, diretoria, conselho. Esse foi um dos pontos que nós tivemos que fazer negociação.

Jornal GGN – Então, cada prefeitura assume a sua parte? Ou colocam uma empresa para operar para elas, uma empresa privada, ou criam estatais para administrar?

Duilio Diniz de Figueiredo – Vamos pegar o caso específico de Altamira. Altamira teve que fazer uma lei, teve que discutir lá na Câmara Municipal uma lei para criação de uma empresa para fazer a parte de operação de tratamento de esgoto.

Então, ela vai ter que ter uma empresa, já foi aprovado. Mas nós ainda ficamos com a incumbência de operar durante a transição, durante dois anos.

Então, durante dois anos nós vamos ter que operar e nesse período a gente faz a transição para essa empresa. Vai ser criada, vai ser treinada para operar daí pra frente.

O sistema de abastecimento de água, nós ontem assinamos com o prefeito a doação e a transmissão da operação da água para a prefeitura de Altamira.

Água nós já entregamos ontem, estamos na fase de transição. E a parte de esgoto nós vamos levar ainda dois anos operando e fazendo a transição para depois a prefeitura operar.

Jornal GGN – A parte de água vocês já entregaram. E foi um processo tranquilo, sem traumas? Eles assumiram e estão conseguindo operar?

Duilio Diniz de Figueiredo – Eles vão começar a operar. É um processo onde você faz uma vistoria entre as partes, faz um checklist, levanta alguns pontos que não estão 100%. Refaz ou conserta. Coisa mínima. Troca um vidro quebrado, ou alguma coisa do tipo.

Passa o login, passar a senha, para poder entrar no sistema que é todo eletrônico.

Jornal GGN – É um processo de transição mesmo de administração.

Duilio Diniz de Figueiredo – Exatamente. Então, nós iniciamos o processo de transição. E ontem nós assinamos o documento de entrega para a prefeitura. Foi um ato formal em que a diretoria da Norte Energia e o prefeito assinaram.

Como também a parte de vigilância patrimonial, que hoje nós temos e ele vai ter que criar um mecanismo lá para fazer a segurança. Porque são estações moderníssimas. Coisa de primeiro mundo.

Então, nosso pessoal operacional já está nesse momento fazendo a transição, de passar a água para a prefeitura.

Jornal GGN – E a prefeitura tem os seus fiscais lá que vistoriam antes de receber?

Duilio Diniz de Figueiredo – Sim. Essa parte, por exemplo, de esgoto, vai ter sempre um acompanhamento da prefeitura. Eles que fizeram o levantamento de todas as propriedades lá do município de Altamira. E quando nós formos fazer a instalação física da conexão eles vão acompanhar também.

Porque aí fica mais fácil de repassar. Eles vão fazendo o acompanhamento e na medida em que você vai ligando, você vai dando o termo de aceite.

Jornal GGN – Certo. Nós estamos falando de populações de quantos habitantes?

Duilio Diniz de Figueiredo – O município de Altamira tem em torno de 100 mil habitantes. Mas não quer dizer que sejam 100 mil casas. Em contingente de casas, eu não posso lhe precisar, mas é alguma coisa em torno de 16 mil, 18 mil residências.

Residências, casas, hospitais, colégios, que nós vamos fazer a ligação no sistema de tratamento de esgoto.

Jornal GGN – Vocês construíram residências também? Ou eram residências que já estavam lá?

Duilio Diniz de Figueiredo – Nós fizemos a mudança das pessoas que moravam em palafitas. Nós tiramos todas essas populações. Foram 3700 mudanças que nós fizemos.

E fizemos cinco novos bairros. Com casas de três quartos, uma suíte, copa, cozinha, sala. 63 m².

O bairro novo é dotado de tudo. Rua asfaltada, luz, água, esgoto. Enfim, foi um upgrade enorme na vida deles. Porque todo ano que enchia eles tinham que ir para moradias alternativas.

Este ano não. Este ano eles já estavam todos no bairro. E nós tiramos todas as pessoas este ano para esses novos cinco bairros.

E vamos criar um sexto novo bairro, que se chama Pedral, que vai ser para ribeirinhos e índios citadinos.

Esse outro nós recebemos um prazo na Licença de Operação para que a gente possa fazer e mudar essas pessoas.

Mas não quer dizer que essas pessoas estão desassistidas . Essas pessoas estão morando em suas residências, aluguel social. Eles estão assistidos.

Jornal GGN – E a relação com os indígenas é pacificada?

Duilio Diniz de Figueiredo – A gente tem dois níveis de relacionamento. Tem relacionamento diretamente com a população. Porque nós temos lá uma área que é a superintendência dos índios, que é uma casa separada só para atender os índios.

Tem o dia a dia e tem o relacionamento também com a FUNAI.

Eu diria a você que foi um dos pontos que a gente teve bastante ocupação. De indígenas. Tanto no sítio quanto nos nossos escritórios. Para conseguir algumas coisas que às vezes já estavam sendo feitas no ritmo próprio.

Porque você sabe que para você fazer obra ou fazer qualquer atendimento nas aldeias – são 34 aldeias indígenas – você tem que cumprir uma liturgia muito bem determinada.

Tem que informar o nome das pessoas, o número de pessoas. Porque não pode ter um contingente que crie algum tipo de mal estar lá, etnológico, com os indígenas.

Cada aldeia tem um contingente máximo de pessoas que pode trabalhar. Então, como você tem que instalar gerador diesel, água, fazer escola, fazer unidade básica de saúde indígena.

Cada aldeia vai ter uma.

O empreendedor pode fazer tudo em um mês, dois meses. Mas dentro dessa lógica que eu estou te falando não pode.

Como você não pode trazer muita gente, você tem que contratar uma empresa que comece a fazer a fundação da unidade básica de saúde e da escola. Aí depois sai, vai o outro. Até acabar. Leva um tempo maior.

Jornal GGN – Leva um tempo maior para não causar um choque para eles muito grande, é isso?

Duilio Diniz de Figueiredo – É. Principalmente das ONGs [que causam mais transtornos do que os próprios indígenas].

Jornal GGN – E eles vêem isso como progresso? Eles enxergam que estão recebendo energia, geradores. Eles vêem isso de uma maneira positiva?

Duilio Diniz de Figueiredo – Claro. Uma aldeia onde você fez casa, botou água, energia, escola indígena, unidade básica de saúde indígena, é um upgrade enorme. Não tenha dúvida. Eles percebem isso.

Quem não percebe isso são as ONGs. Eles combatem do ponto de vista ideológico e do ponto de vista dos interesses de quem eles representam. Que não são interesses nacionais.

Jornal GGN – E o processo de licenciamento sofreu algum atraso?

Duilio Diniz de Figueiredo – A licença está muito associada ao andamento da obra. Não adianta ter uma licença se você não tem uma obra pronta. Porque você só tem um papel na mão.

E isso tem que ser uma coisa concatenada.

Como nós tivemos muitas invasões, muitas complicações, nós estamos pleiteando junto à Agência Nacional de Energia Elétrica, que é o órgão regulador disso, 465 dias de excludência de responsabilidade do empreendedor.

Paralisações, invasões, greves, atrasos na emissão de licenças.

Jornal GGN – Porque por contrato a Norte Energia pode ser responsabilizada pelo atraso.

Duilio Diniz de Figueiredo – Isso. Aí nós entramos com processo administrativo na ANEEL para reconhecer que esses dias não foram responsabilidade do empreendedor. Foram por motivo de força maior.

Jornal GGN – E como está esse processo?

Duilio Diniz de Figueiredo – Está ainda no campo administrativo. Nós entramos com a liminar para que nós não fôssemos penalizados enquanto não tivesse o posicionamento final da ANEEL.

Então, nesse momento agora nós não sofremos nenhum tipo de punição. Porque nós estamos cobertos por uma liminar.

Jornal GGN – Que eventuais punições podem ocorrer? Multa?

Duilio Diniz de Figueiredo – Comprar energia, ter que fornecer energia, multa.

Mas eu quero lhe esclarecer uma coisa. Nós temos duas usinas lá em Belo Monte. Uma usina menor, que se chama Pimental, que é onde você barra o rio para encher o reservatório intermediário, que é onde está Belo Monte, que gera 11 mil MW.

Esses 3% que é essa usina de Pimental, que é 233,1 MW, essa usina nós estamos com atraso de quase um ano. Mas a de 97% que é a usina grande de 2 mil MW nós não estamos atrasados, estamos rigorosamente em dia.

Então, o pessoal faz essa confusão. ‘Belo Monte está atrasada’. O que está atrasado de Belo Monte é uma parcela pequena de 3% que a empresa está discutindo e debatendo com o órgão regulador a excludência de responsabilidade.

Porque o empreendedor não pode ser penalizado por coisas que ele não causou. Então, essa é nossa tese, que nós defendemos.

Jornal GGN – Que é uma tese que nós ouvimos recorrentemente das concessionárias.

Duilio Diniz de Figueiredo – Mas ainda não está completamente pacificado.

Jornal GGN – E quando liga ao sistema esses 97%?

Duilio Diniz de Figueiredo – Quando começar a gerar energia. Nós vamos começar a gerar em março de 2016.

Jornal GGN – Podemos esperar um incremento suficiente na produção para equilibrar as contas de energia do país?

Duilio Diniz de Figueiredo – Eu diria do ponto de vista de suprimento energético.

Jornal GGN – A segurança energética – a oferta de energia para o país – está garantida?

Duilio Diniz de Figueiredo – Melhora. Porque eu entro em março com 611 MW. E a cada dois meses eu entro com mais 600.

Porque a pequena são 233. Ela também entra na mesma proporção. Mas a cada dois meses entra 39.

Então você vê. Entra 39 na pequena e 611 na grande. É uma desproporção grande.

Nós fizemos tudo que era possível para manter o cronograma. Estamos cumprindo. Eu cheguei ontem do campo, estava inspecionando as obras.

Estamos seguros de que em fevereiro a menor entra em operação. Em março a outra entra em operação.

Nós estamos falando aí de mais três meses. Em três meses nós vamos estar gerando energia para o Brasil a vontade.

Jornal GGN – Então, diminui mais um pouco a dependência das termelétricas? Lá na Amazônia a situação da água é boa?

Duilio Diniz de Figueiredo – É boa porque nós vamos entrar agora no período chuvoso. Agora nós entramos no inverno amazônico. Que vai de janeiro a maio.

Dezembro começa a chover, mas janeiro mesmo é que caracteriza o inverno amazônico. Janeiro, fevereiro, março, abril, vai até maio. Quando chove muito, até um pouco de junho.

Mas agora é que vai entrar o período de chuvas mesmo lá. E nós vamos ter máquina e vamos ter água para poder gerar.

Jornal GGN – Nós ouvimos muito dizer que órgãos estaduais e municipais todos podem parar as obras e que isso é uma questão muito séria. Vocês sofreram com isso? Além das invasões. Paralisações por excesso de zelo de algum órgão fiscalizador?

Duilio Diniz de Figueiredo – Nós temos em torno de 30 ações civis públicas contra o empreendimento. Os mais variados órgãos que entram. Ministério Público, AGU, promotores.

Todos eles nós estamos nos defendendo. E todos eles nós temos tido sucesso.

Por quê? Porque eu não posso dizer que não entre com ação contra Belo Monte. A democracia permite isso.

Mas ela permite também ao empreendedor se defender.

E nos seus órgãos colegiados de primeira instância, segunda instância, terceira instância, eles são julgados e se vê quem tem razão.

Nós temos enfrentado isso aí, para a alegria dos advogados, porque quem ganha dinheiro nisso aí são os advogados.

Porque cria uma linha de defesa o tempo todo. Belo Monte está se defendendo o tempo inteiro, desde que nós começamos.

É um caso atípico. Eu trabalho no setor há 43 anos e nunca tinha visto uma coisa dessas.

Você tem ações, talvez uma ação civil pública. Aqui é uma coisa natural. Não é normal.

Então, esse é um ponto que efetivamente atrapalha e deixa o empreendedor apreensivo.

Jornal GGN – E causou atraso? Chegou a parar dias de trabalho? Os operários ficarem ociosos lá?

Duilio Diniz de Figueiredo – Do ponto de vista de liminar, nós paramos muito poucos dias.

Paramos. Em segunda instância uma vez deu uma liminar. Nós ficamos parados três, quatro dias, mas caçamos a liminar.

Os casos que a gente foi a julgamento o bom senso sempre prevalece.

Jornal GGN – Certo. Quanto foi gasto só em condicionantes?

Duilio Diniz de Figueiredo – Vamos falar assim: socioambiental. R$ 4 bilhões.

Jornal GGN – E o custo total do empreendimento?

Duilio Diniz de Figueiredo – O custo do empreendimento também tem um mal entendido aí. O empreendimento tem um orçamento de R$ 25,8 bilhões.

R$ 25,8 bilhões é o orçamento lá em abril de 2010. E esse orçamento é corrigido todos os anos. Pelo IPCA, pelas formas de pagamento dos contratos.

E hoje esses R$ 25,8 equivalem a alguma coisa em torno de R$ 32,8 bilhões. Mas é o mesmo R$ 25,8.

Só que os jornalistas normalmente dizem que o empreendimento é de R$ 32 bilhões. Que aumentou R$ 7 bilhões.

Não aumentou nada. Esse valor é corrigido. O que eles não dizem é que nossa receita também é corrigida.

A receita que nós lidamos lá em 2010 vem sendo corrigida pelo IPCA. E se você perde na correção, você ganha na receita.

Jornal GGN – Mas isso é previsão de receita?

Duilio Diniz de Figueiredo – Claro. O leilão quando foi feito, 70% da energia era a ser fornecida para o ambiente de contratação regulado, que são as concessionárias do serviço público. Isso já tem contrato assinado.

E 10% tinha que ser contratado pelos novos produtores de energia. Também já está contratado.

O que nós precisamos contratar ainda é 20% somente.

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Apoie e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Apoie agora

8 comentários

  1. E a culpa, hein? Só pode ser

    E a culpa, hein? Só pode ser da Dilma, como vem sendo nesses últimos tempos. Dela e do Lula!

    E o Brasil necessitando se preparar para desafogar o sul/sudeste… E ainda tem tapado, que mora no sul/sudeste, claro!no conforto de onde já tem muita coisa feita, que fica boicotando junto… Haja saco!

     

  2. A OAB adora Uma obra grande
    E lógico, dar apoio aos movimentos sociais.

    “Nós temos enfrentado isso aí, para a alegria dos advogados, porque quem ganha dinheiro nisso aí são os advogados.”

  3. Por acaso alguém já viu

    Por acaso alguém já viu alguma obra de tucano(também quase não existe, rs), ser interditada ou paralisada???? Perguntar não ofende, né!

  4. LT Manaus – Boa Vista

    Há dois anos eles impedem a continuidade da construção da Lt Manaus-Boa Vista que ligaraá Roraima ao sistema interligado e a conexão à usina de Guri.

    Enquanto isso deixaram escapar as barragens da samarco e nunca pensaram o que poderia advir do seu rompimento e as consequencias. Esqueceram.

    Rigor demais e radicalismo acabam nisso. Permitam a construção da LT, o impacto é mínimo, senhores.

  5. Com esse calhamaço de

    Com esse calhamaço de burocracia para se conseguir uma obra de grande porte no Brasil fica difícil fazer o país crescer. Quem acha bom são os gringos, principalmente eua, que constroem qq obra com 10% da burocracia brasileira.

    Ongs, indigenas e mp são os grandes atrasadores de obras no Brasil. Isso é fato e tem um custo muito alto. E quem paga tudo isso não é o construtor ou o concessionário, é voce cidadão brasileiro.

  6. O OUTRO LADO DA QUESTÃO OU TUDO PELO PROGRESSO? QUE PROGRESSO?

    http://brasil.elpais.com/brasil/2014/12/01/opinion/1417437633_930086.html

    http://brasil.elpais.com/brasil/2015/09/22/politica/1442930391_549192.html

    http://brasil.elpais.com/brasil/2015/07/06/opinion/1436195768_857181.html

    http://brasil.elpais.com/brasil/2015/09/14/opinion/1442235958_647873.html

    Fiquei com uma pena da Concessionária Norte Energia…, realmente esses empresários são uns sofredores, fazem tudo pelo progresso do país e têm que enfrentar essa burocracia infernal.

    E para arrematar um trecho do último artigo da Eliane Brum, de hoje.

    “…

    E a lama avança.

    Em 24 de novembro, o IBAMA (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis), outro nome para se prestar atenção, deu a licença de operação à barragem de Belo Monte, no Pará. A presidente do órgão, Marilene Ramos, afirmou durante o anúncio: “Postergar a licença de operação seria punir o Brasil”.

    E a lama avança.

    Três dias depois dessa frase lapidar da presidente do IBAMA, a empreiteira Andrade Gutierrez fechou acordo com a Procuradoria Geral da República, conforme informaram os principais jornais brasileiros, comprometendo-se a detalhar vários esquemas de corrupção, entre eles propinas envolvendo Belo Monte, uma obra estimada hoje em mais de 30 bilhões de reais. Pagamentos de propinas na obra da hidrelétrica já foram relatados em acordos de outras delações premiadas da Operação Lava Jato por executivos de empreiteiras que formam o Consórcio Construtor Belo Monte (CCBM), contratado pela Norte Energia para executar a obra, e estão sendo investigados. Mas em Belo Monte o “interesse nacional” é tão imperativo que nem mesmo 23 ações do Ministério Público Federal denunciando violações à Constituição foram capazes de interromper a obra, que será julgada como “fato consumado”. Como escreveu o presidente da Norte Energia, Duílio Diniz de Figueiredo, após a licença de operação, “é um orgulho para o Brasil ver Belo Monte se tornando uma realidade”.

    E a lama avança.

    Ao anunciar a licença de operação, segundo o jornal O Estado de S. Paulo, a presidente do IBAMA afirmou que a Norte Energia tinha “atendido integralmente” às exigências, “menos 10%”. Dias antes, a FUNAI (Fundação Nacional do Índio) já havia dado o seu aval à licença de operação, apesar de mencionar uma série de pendências e descumprimentos de condicionantes. A mesma FUNAI que, em vez de ser fortalecida para que os povos indígenas afetados pela obra pudessem ter maior proteção diante da empresa, passou exatamente pelo processo contrário: teve seu quadro em Altamira reduzido de 60 para 23 funcionários, no período de construção de uma das maiores obras do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento).

    E a lama avança.

    Em Belo Monte, o que era condição para acontecer virou condição depois do acontecido

    A palavra “condicionante” sofreu uma intervenção original no texto da Licença de Operação, em uma das interpretações recentes da língua portuguesa de maior criatividade, expressa por essa frase que abre uma nova página na literatura brasileira: “A validade desta LO (Licença de Operação) está condicionada ao cumprimento das condicionantes constantes no verso deste documento….”. Como se sabe, a língua é viva. E, assim, o que era condição para acontecer virou condição depois do acontecido.

    Mas, assim como as autoridades do IBAMA e da FUNAI acreditam, aquele que acha que a lama jamais chegará à sua porta, muito menos à sua garganta, também tem certeza de que é justamente agora, quando a Norte Energia já conseguiu tudo o que quer, que a empresa fará questão de cumprir cada uma das suas obrigações legais. Faz todo o sentido. É sempre um prazer constatar que as ações do governo estão em sintonia com o pensamento lógico.

    A barragem de rejeitos de mineração da Samarco (leia-se Vale e BHP Billiton) que rompeu tinham como condicionante um plano de contingência.

    E a lama avança.

    Belo Monte começa a encher o lago num momento em que a região passa por uma seca histórica e a vazão do rio está perigosamente baixa. Antes, havia uma resolução da Agência Nacional de Águas (ANA) permitindo o enchimento do reservatório apenas entre janeiro e junho, fora do período de estiagem. Mas ela também foi derrubada, como denunciou o repórter André Borges, do jornal O Estado de S. Paulo. Cerca de 1.800 famílias expulsas de suas casas e ilhas procuraram a Defensoria Pública da União em busca de justiça. A população atingida só teve acesso à assistência jurídica no início deste ano de 2015, cinco anos após o leilão da obra. Também o governo não cumpriu com suas obrigações, como homologar a Terra Indígena Cachoeira Seca, a mais desmatada do Brasil: só em 2014 saiu dali uma quantidade de madeira capaz de encher 13 mil caminhões madeireiros.

    Lideranças da floresta amazônica e organizações socioambientais denunciam que ninguém sabe o que acontecerá com o Rio Xingu e com todos que vivem nesse delicado ecossistema. Denunciam que ninguém consegue avaliar com a necessária precisão o tamanho do impacto da operação de Belo Monte, já que os órgãos fiscalizadores dependem das informações e análises fornecidas pela própria empresa. Como os órgãos também eram dependentes na catástrofe da bacia do Rio Doce, que já alcançou o oceano.

    Mas talvez aquele que acredita que a lama jamais chegará à sua porta conclua que todas essas pessoas que alertam para o impacto de Belo Monte nada sabem do “interesse nacional”. Diante do temor e da dúvida, é preciso invocar a frase da presidente do IBAMA, para recuperar de imediato a tranquilidade e a confiança no desenvolvimento: “Postergar a licença de operação seria punir o Brasil”.

    E a lama avança.

    E a lama avança, derrubando as fronteiras entre o público e o privado, entre os partidos e também entre os poderes

    E a lama avança para muito além, derrubando as fronteiras entre o público e o privado, entre os partidos e também entre os poderes, se imiscuindo a cada dia um pouco mais, empapando os dias, emprestando ao cotidiano a sua textura tóxica. E também aí ninguém sabe até aonde a lama pode chegar. Quantos pontos ela poderá ligar não apenas nos contratos da Petrobras, mas também no setor elétrico. E talvez adiante.

    E a lama avança. …”

     

     

     

  7. Em Minas, não houve

    Em Minas, não houve dificuldade nenhuma pras mineradoras gringas. Deu no que deu.

    Por falar nisso, como anda o licenciamento da Belo Sun Mining Corporation, pertencente ao grupo Forbes & Manhattan Inc., aí nessa maravilha descrita descrita pelo post? Em terras indígenas, ou seja brasileiras. 

Deixe uma mensagem

Por favor digite seu comentário
Por favor digite seu nome