China seguirá comprando soja do Brasil agora, mas esse cenário pode mudar, alerta especialista

Para internacionalista ouvido pela Sputnik, por mais que o agronegócio brasileiro tente, através da ministra Tereza Cristina, minimizar os atritos do governo com a China para não afetar as exportações, isso pode mudar no longo prazo, com o investimento de Pequim em novos fornecedores

© Foto / Pedro Revellion / Palácio Piratini / Fotos Públicas

da Sputnik Brasil

por Raphael Raposo

Na última quinta-feira (20), durante o Seminário China-Brasil, que foi realizado através de videoconferência, a ministra da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Tereza Cristina, afirmou que o Brasil e a nação asiática compartilham de uma longa parceria no agronegócio, cujo desafio atual é dar qualidade de vida às pessoas que vivem no campo, dentro do contexto de uma agricultura sustentável.

Além disso, a ministra lembrou que o Brasil é responsável pela produção de alimentos para mais de um bilhão de pessoas no mundo, em um total de 180 mercados, e ressaltou que a China é protagonista na inserção brasileira nas cadeias agroalimentares globais.

Tereza também fez questão de destacar que os dois países construíram “uma relação de confiança na entrega perene, com qualidade, inocuidade e sustentabilidade”, e acrescentou que ainda existe espaço para ampliar e diversificar a oferta de produtos brasileiros para consumo da população chinesa.

Em entrevista à Sputnik Brasil, o especialista em Relações Internacionais, Vinícius Guilherme Rodrigues Vieira, professor da Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP), assinala que, apesar de aparentar uma contradição com o que dizem outras vozes do governo de Jair Bolsonaro, e o próprio presidente, o discurso de Tereza Cristina reflete o fato de que o Ministério da Agricultura é, historicamente, ocupado por representantes do setor, para o qual a China tem uma importância colossal.

“[Os titulares da pasta] são prepostos do setor no governo e o próprio Estado brasileiro tem muito dessa característica, independentemente do governo de plantão. Então, não surpreende que ela faça esse tipo de declaração, porque, de fato, sem a China, boa parte do nosso agronegócio ficaria a ver navios […] então vejo como algo natural”, opina.

Além disso, Rodrigues Vieira ressalta que a ministra, ao longo de toda a sua gestão no governo Bolsonaro, conseguiu manter-se afastada das polêmicas que, de tempos em tempos, vêm à tona por causa de declarações negativas e insinuações de integrantes do governo em relação à China.

Contudo, o professor assinala que, mesmo com todo o esforço da ministra e do setor de exportação agropecuária para minimizar o impacto de declarações de certos membros do governo, é contraproducente no longo prazo “apoiar um governo que tem como principal alvo internacional, surpreendentemente e justamente, o nosso principal comprador, sem o qual a nossa economia entraria em dificuldades ainda piores”.

China à procura de novos fornecedores

Para Rodrigues Vieira, a ideia de que Bolsonaro e seu entorno podem dizer qualquer coisa sobre a China que não haverá impacto para as exportações do Brasil ao país asiático, principalmente de soja, não se sustenta no longo prazo. Segundo o especialista em Relações Internacionais, o fato de a China depender do Brasil, por não ter outros fornecedores, pode até ser verdadeiro neste momento, mas alerta que esse cenário tende a mudar no futuro próximo.

Reunião do embaixador da Tanzânia com a Câmara Conjunta de Comércio e Indústria China-África em Pequim, na qual foram traçados planos para a aquisição de mandioca e soja da Tanzânia.

“Temos relatos de que a China está [fomentando] e teria um plano de longo prazo para fomentar a produção de soja em áreas de clima análogo ao brasileiro na savana africana. Estamos falando de Tanzânia, Quênia […] A China não vai parar de comprar soja agora, mas não tenho dúvidas que, havendo um plano de alternativa, esse plano será por ela fomentado, é assim que ela agiu ao longo dos séculos”, afirma o professor da FAAP.

Além disso, o especialista ressalta que a China passou a comprar mais soja dos Estados Unidos, o principal concorrente do Brasil no mercado internacional, o que refletiria uma aparente distensão entre as duas potências e era um movimento esperado, que não deveria representar uma surpresa para as autoridades brasileiras.

“Sim, eu acho que a bipolaridade China-Estados Unidos veio para ficar, mas está havendo uma distensão agora com a saída do Trump, [isso] era um movimento esperado […] Mas, o governo brasileiro também, para variar, não fez esse cálculo, cálculos estes que até são óbvios em política internacional, que o governo […] deixa de fazer, ou por má-fé ou por incompetência mesmo”, afirma Vinícius Guilherme Rodrigues Vieira.

Nesse sentido, o especialista afirma que a postura de alguns governo integrantes do governo em relação à China é imprópria para as relações internacionais e pode ter efeitos prejudiciais para o país, por mais que alguns setores que dependem economicamente do mercado chinês, como o agronegócio, tentem jogar panos quentes. 

“O problema não é falar mal da China, mas falar mal de qualquer país. […] É algo impróprio no concerto das nações, a linguagem diplomática não deve ser assim, nua e crua, […] tem todo um cuidado para que, justamente, os países não percam oportunidades, não percam potenciais aliados num mundo que é cada vez mais incerto”, conclui.  

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6 comentários

  1. ótima notícia, o agronegócio exportador brasileiro precisa ser contido. Quanto ao dinheiro só vai para as mãos de poucos, impostos sobre exportação que beneficiariam toda a população brasileira, cadê? Além disso se a área plantada de soja não se expandir significa menos desmatamento, menos grilagem de terras, menos envenenamento de nossas águas e terras com agrotóxico. E por fim o agronegócio da soja e outras mercadorias emprega pouco

  2. outra coisinha. Os latifundiários brasileiros sempre se beneficiaram dos avanços científicos desenvolvidos na Embrapa e outras instituições públicas. E qual a contribuição deste bando de burgueses safados para a educação e ciência?

  3. Já faz algum tempo que se fala sobre a busca de alternativas ao Brasil, uma medida acertadíssima. O mesmo deve se dar em relação à carne, pelo menos no que diz respeito à carne bovina, onde o grande trunfo do Brasil é a produção a baixo custo e grande escala bem mais que pela qualidade. Argentina, Canadá, EUA, Austrália e mesmo Rússia possuem carne de melhor qualidade. A partir do momento que países africanos, especialmente da costa do Índico (mas não só), também produzirem carne, a China terá fornecedores mais próximos e provavelmente a um preço mais barato devido à menor distância e aos modais de transporte mais baratos envolvidos. Vale lembrar igualmente que há projetos de infraestrutura em andamento na África financiados pela China, entre eles ferrovias. Graças ao baixo nível educacional e intelectual da elite brasileira e de boa parte de sua classe média, que não consegue enxergar o grande potencial desta terra, a criatividade de seu povo, o Brasil não apenas deixa de desenvolver-se em outras áreas onde poderia alcançar excelência, como destrói as bases para que se consiga alcançá-la. E tudo por causa de anos de lavagem cerebral com as bobagens dos “economísticos” da Universidade de Chicago e Escola Austríaca, como pela “vergonha-de-si-mesmo”, pelo viralatismo que afeta gerações de brasileiros. É absolutamente lamentável. 🙁

  4. …No começo foi o pau brasil, ciclo do pau-brasil ocorreu durante a fase pré-colonial (1500-1530); depois foi o ciclo da cana; do Brasil Colônia compreendido entre meados do século XVI e meados do século XVIII; depois veio o café, perdurou por mais de 100 anos, entre os anos de 1800 e 1930, vamos acrescentar também o ciclo da borracha, entre os anos de 1879 e 1912; vamos colocar também o ciclo da cacau (Jorge Amado salta a memória), e também o ciclo da laranja no interior de São Paulo, que não durou muito, se me lembro,na minha adolescência, segunda metade dos anos 80, acho que teve uma geada na Flórida, e o preço do suco de laranja disparou… … bem não importa, como nosso amigo Juho Salonen anotou aí em cima, não vai durar muito este “ciclo da soja”, a qualquer dia destes, alguém descobre como plantar soja na savana africana , e baBAU pra soja brasileira, como aconteceu, como café, cacau, borraca, e por aí vai

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