Nós, os mamíferos. I. A mama masculina é um penduricalho ou uma adaptação?, por Felipe A. P. L. Costa

Por estranho que pareça, a presença de itens disfuncionais, como os chamados órgãos vestigiais, é uma evidência positiva do processo evolutivo.

Nós, os mamíferos. I. A mama masculina é um penduricalho ou uma adaptação?

Por Felipe A. P. L. Costa [*].

  1. Somos primatas africanos.

“Somos mamíferos primatas” – esta frase resume bem a posição que a espécie humana (Homo sapiens) ocupa na escala zoológica. Pelos sobre o corpo (ainda que escassos) e amamentação dos filhotes são dois dos caracteres que compartilhamos com os demais mamíferos.

Mãos e pés pentadáctilos, armados com unhas (em vez de garras) e providos de polegares oponíveis; locomoção dominada pelos membros posteriores e focinho curto, com as órbitas oculares em posição frontal (e não voltadas para os lados) – eis alguns caracteres que compartilhamos com os mamíferos da ordem dos primatas.

O nome da ordem – Primates – foi cunhado pelo naturalista sueco Carl von Linné (1707-1778), ou simplesmente Lineu.

O termo deriva da palavra latina primus (= em primeiro lugar) e foi usado por ele porque, aos olhos do autor, o grupo ocuparia a posição mais elevada – o topo da montanha! – dentro do reino animal.

  1. Atrofia e perda de órgãos.

Por estranho que pareça, a presença de itens disfuncionais, como os chamados órgãos vestigiais, é uma evidência positiva do processo evolutivo. Um órgão vestigial é a versão rudimentar de um par de estruturas homólogas, estando a versão funcional em alguma espécie afim. Há itens rudimentares em nosso corpo, conforme nos contam Freeman & Herron (2009, p. 42; adaptado):

“Temos o cóccix, um minúsculo osso remanescente da cauda. Além disso, temos músculos ligados aos nossos folículos pilosos que se contraem, fazendo nossos pelos corporais arrepiar-se quando estamos com frio ou com medo. Por isso, se fôssemos peludos, como os chimpanzés, a contração dos músculos eretores dos pelos aumentaria a superfície de nossa pelagem, mantendo-nos aquecidos ou tornando-nos aparentemente maiores e mais ameaçadores aos inimigos. Todavia, não somos peludos, portanto ficamos apenas com a pele arrepiada, o que implica que somos descendentes de ancestrais que eram mais peludos do que nós. Do mesmo modo, nossos pequenos ossos remanescentes da cauda indicam que nos originamos de ancestrais dotados de caudas.”

A versão rudimentar é apenas o que sobrou daquilo que outrora já foi algo funcional. Tendo perdido a relevância, e já não mais fazendo falta na organização geral do corpo, em geral por causa de alguma mudança no contexto ecológico, o item em questão passa a ficar fora do orçamento – i.e., os recursos que eram empregados em sua construção e manutenção passam a ser alocados em outras estruturas. É a realocação que aos poucos o torna vestigial.

Por que esses penduricalhos já não desapareceram? Um dos motivos pode ser o fato de o item partilhar de uma mesma rota de desenvolvimento com alguma estrutura funcional importante, o que dificultaria a sua eliminação. Ainda que um ou outro atalho possa ser estabelecido – resultando daí o isolamento e a simplificação do item –, a rota como um todo não pode ser eliminada, sob pena de comprometer a organização geral do corpo [1].

Mas a simplificação às vezes vai além e a atrofia, de fato, se converte em perda. É o caso da falta de dentes em alguns grupos de mamíferos. Tamanduás, pangolins e cachalotes são exemplos vivos de três linhagens que passaram por processos independentes de perda. (Os primeiros mamíferos eram providos de dentes, uma condição que eles herdaram dos ancestrais reptilianos.)

De fato, a evolução da perda é um fenômeno relativamente comum, já tendo sido registrado em inúmeras linhagens, envolvendo os mais variados itens.

  1. Efeitos do arquétipo.

Inovações evolutivas não brotam do nada. Os fenótipos da geração filial são uma bricolagem de caracteres presentes em gerações anteriores, e é essa herança que é periodicamente exposta à seleção.

Veja o nosso sistema respiratório. Como os demais mamíferos, nós somos animais pulmonados: as trocas gasosas em nosso corpo ocorrem no interior de pulmões. O mesmo acontece com os cetáceos modernos (e.g., baleias, golfinhos), mamíferos marinhos que descendem de ancestrais que viveram em terra firme [2].

Ora, a maioria dos vertebrados aquáticos respira por meio de brânquias. Por que então as baleias são desprovidas delas?

A resposta reside no passado: durante a colonização dos oceanos, o pulmão não foi substituído por uma estrutura mais apropriada (e.g., brânquias). E por quê? Talvez porque as rotas que levavam ao desenvolvimento de brânquias já tivessem sido perdidas – i.e., o ancestral que deu origem aos cetáceos já não teria mais a base genética necessária para produzi-las. Nem foi possível esperar pelo acúmulo de novas mutações que levassem a isso.

O que houve, então? O que houve foi uma bricolagem: com base na matéria-prima então disponível, foram promovidos múltiplos ajustes (morfológicos, fisiológicos, comportamentais), de sorte que os cetáceos modernos respiram o ar atmosférico, ainda que sejam incapazes de viver fora da água.

Nas palavras de Gatesy et al. (2013, p. 481; tradução livre):

“Os cetáceos modernos representam uma mistura bizarra de caracteres [ver a figura que acompanha este artigo], muitos dos quais, imagina-se, são especializações que permitem um estilo de vida obrigatoriamente aquático. […] Muitas das especializações que fazem com que uma baleia se pareça com uma baleia são perdas evolutivas (e.g., membros posteriores, orelhas externas, pelos, dentes), combinadas com a evolução de estruturas únicas entre os mamíferos (e.g., nadadeira dorsal, orifício respiratório, melão, barbatanas, crânio extremamente projetado e assimétrico, sulcos ventrais).”

  1. O oportunismo das adaptações.

Itens fenotípicos que hoje são tidos como adaptativos já foram penduricalhos. Significa dizer que itens desprovidos de função ou até ligeiramente prejudiciais podem se tornar úteis. Há dois caminhos conhecidos para isso: (i) sob novas circunstâncias, um item disfuncional pode se revelar útil; ou (ii) a presença de um novo item melhora o desempenho de algum item preexistente [3].

A função de um item também é maleável e pode mudar.

As penas das aves e a produção de leite pelos mamíferos são dois exemplos – aquelas não surgiram como uma adaptação ao voo nem esta, como uma adaptação para nutrir os filhotes.

Para começo de conversa, as penas – em sua versão primordial – apareceram antes das aves. O fóssil emplumado mais antigo que se conhece tem ao menos 150 milhões de anos e ainda não era o que chamaríamos hoje de uma ave. As aves só surgiriam dezenas de milhões de anos depois. Há controvérsias a respeito do papel inicial dessas estruturas, mas os estudiosos concordam que, em seus primórdios, elas nada tinham a ver com o voo. Em compensação, poucos duvidam que, em algum momento subsequente, a evolução das penas passou a ser moldada pela função que elas assumiram na capacidade de voo dos seus portadores.

O segundo caso é semelhante. Para começar, a lactação surgiu antes dos mamíferos, provavelmente em alguma linhagem de ancestrais ovíparos e endotérmicos que já exibiam algum tipo de cuidado parental. Há quem argumente, mais especificamente, que a produção de leite teria surgido ainda entre os répteis sinapsídeos (de onde saíram os terapsídeos, linhagem ancestral dos mamíferos), há uns 300 milhões de anos. (Os primeiros mamíferos apareceriam 100 milhões de anos depois!) Em seus primórdios, o leite seria uma secreção hidratante, com a qual as fêmeas ajustavam o teor de umidade dos ovos no ninho.

A lição aqui é uma só: se um traço fenotípico qualquer adquire um papel adaptativo, a sua evolução subsequente passa a ser determinada por aquele papel. Mantido o seu valor adaptativo, sua história prosseguirá na mesma toada – seja na linhagem original onde surgiu, seja em alguma linhagem derivada que o herdou. Todavia, se o item é cooptado para uma nova função, esta, a partir daí, passará a balizar o seu futuro.

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Notas.

[*] O conteúdo deste artigo foi extraído e adaptado do livro mais recente do autor, O que é darwinismo (2019). Para detalhes e informações sobre a obra, inclusive sobre o modo de aquisição por via postal, faça contato pelo endereço [email protected]. Para conhecer outros livros e artigos, ver aqui.

[1] Exemplo de atrofia ligada ao sexo é a mama masculina. Embora tenha pequenos ductos e algum tecido de suporte, é desprovida de lóbulos e alvéolos, sendo incapaz de secretar leite. A presença de mamas nos machos seria assim um exemplo de penduricalho.

[2] A linhagem ancestral dos cetáceos iniciou a colonização dos oceanos há ~50 milhões de anos; cerca de 15 milhões de anos depois, os dois ramos que dariam origem às espécies atuais já podiam ser reconhecidos (ver a figura que acompanha este artigo): Odontoceti (golfinhos e outros cetáceos providos de dentes; +66 espécies) e Mysticeti (baleia-jubarte e outros cetáceos providos de barbatanas; +11).

[3] O fenótipo, como foi dito, é uma bricolagem de traços. Traços (e genes) individuais podem ser discriminados, desde que o efeito deles sobre a aptidão se destaque.

[4] Na 10ª edição de sua obra Systema Naturae (1758), Lineu descreveu e nomeou pouco mais de 40 espécies de primatas, arranjadas em quatro gêneros: Homo (seres humanos e chimpanzés), Simia (macacos do Novo e do Velho Mundo), Lemur (prossímios e um lêmure-voador, hoje na ordem Dermoptera) e Vespertilio (morcegos, transferidos depois para uma ordem própria, Chiroptera).

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Referências citadas.

+ Freeman, S & Herron, JC. 2009. Análise evolutiva. 4ª ed. Porto Alegre, Artmed.

+ Gatesy, J & mais 7. 2013. A phylogenetic blueprint for a modern whale. Molecular Phylogenetics and Evolution 66: 479-506.

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