A aposta das editoras

Infelizmente, perdi o programa. Trabalho há décadas no mercado editorial, sem vínculo exclusivo porém com nenhuma editora. Não vejo a coisa da mesma ótica da Alice, em particular no que diz respeito a uma espécie de quase antagonismo entre comércio x cultura, leitor x consumidor de livros (como coloca outro comentador). A atividade editorial é uma atividade comercial, obrigatoriamente segue as regras do comércio, em particular esta: se não vender, quebra. Que os editores façam pesquisa de mercado e congêneres, faz parte do negócio. Qual a alternativa realista para isso, não enxergo.

Não é verdade, por outro lado, que as editoras, assim generalizadamente, concentrem sua atividade no livro comercialmente palatável. Todas as boas editoras grandes, médias ou pequenas (cito algumas: Record, Cia das Letras, Objetiva, Planeta, Rocco, 34, M. Fontes, Iluminuras, e vou parando por aqui, senão o post fica enorme), apostam, e muitas vezes é uma aposta arriscada, em autores “pouco comerciais”. Quem garantiria, por exemplo, que o esplêndido Mia Couto seria capaz de desempatar o capital investido para lançá-lo aqui, quando o Brasil nunca se notabilizou pelo interesse pela literatura africana. Aliás, nem mesmo pela literatura portuguesa. Seu sucesso, como o do próprio Saramago, foi até meio inesperado. Hoje, já temos um razoável número de autores luso-africanos e portugueses presentes em nossas estantes e livrarias.

AseAs editoras investem, sim, em livros de sucesso provável, que são best-sellers mundo afora. Mas concomitantemene lançam novos e desconhecidos autores, e em bom número, inda mais considerando a pequena dimensão do nosso mercado editorial. É só consultar seus catálogos para constatar.

O “encalhe” não é visto com terror. Faz parte do negócio. E como a edição é um, é óbvio que os editores prefeririam não ter encalhe nenhum. Mas nem por isso deixam de editar obras, autores, até coleções que são sérios candidatos ao encalhe. Por várias razões, entre elas o prestígio que conferem ao catálogo, ou até questões de ordem, digamos, sentimental, de gosto do editor. Conheço um bom número de editores e donos de editora; nenhum considera o livro com desdém, nem o iguala a sabão em pó ou ferro de engomar. Ao contrário: são amantes do livro, têm paixão pelo que fazem.

Aqui, um parêntese sobre o calvário dos novos autores. É um fato universal, mais que assinalado aliás na literatura de todas as línguas há séculos. De certo modo, é um cavaco do ofício. Não me parece que isso tenha a ver apenas com o modo de proceder das editoras. A quantidade de manuscritos que chega todo santo dia às editoras é enorme. Não há como editar todos, obviamente. Nem por quê. Também já fui “leitor” de editoras, e a quantidade de livros fracotes que caíam nas minhas mãos era desalentadora. Não me parece sensato pensar que as editoras tenham a obrigação de publicar tudo que lhes é encaminhado. Todas têm seus critérios de seleção, entre eles o famoso “perfil”, que serve com frequência de polida desculpa para o autor: sentimos muito, mas sua obra não se encaixa no perfil da editora… Mas não é desculpa esfarrapada apenas, não. O tal “perfil” existe mesmo. Querem a prova? Entrem no site de uma das nossas mais consagradas e sérias editoras, a Cia das Letras. Procurem pelas obras-primas de nosso maior autor, Machado de Assis. Não vão encontrar. Ele não se “encaixa no perfil” do que ela publica. Até ele, até o Bruxo do Cosme Velho!

Fechando o parêntese sobre essa difícil questão dos novos autores e voltando à questão da edição. O dilema não está numa oposição, para simplificar, comércio x cultura ou leitor x consumidor. O nó me parece outro, aliás, os nós.

O maior, talvez, seja o preço do livro, caríssimo por aqui, principalmente levando-se em conta o poder aquisitivo do brasileiro. Barateá-lo deveria ser uma preocupação central dos profissionais do livro e dos nossos governantes. Rever toda a cadeia de produção etc. Mas há também um meio de barateá-lo que está diretamente ligado à política cultural: as compras públicas de obras, em particular de autores nacionais, para equipar bibliotecas públicas, escolares e universitárias. Sendo o livro um negócio, a ele também se aplica a regra de que, quanto maior a produção, mais baixo pode ser o preço. Me parece que estamos dando os primeiros passos nesse caminho, com a implantação de bibliotecas públicas Brasil afora. Pari passu, deveria vir a compra maciça de livros para equipá-las. Não pensem que isso requeira uma verba astronômica.

Só para dar uma ordem de ideia, com valores aproximados. Considando um preço de capa médio de R$ 40, se o preço médio de compra maciça pelo Estado saísse por uns R$ 20 (o que reembolsa o investimento do editor e ainda lhe dá uma boa margem de lucro), com 20 mi por ano daria para comprar 1 milhão de livros. O que equivaleria à compra da edição inteira de uns 500 títulos (tiragem de 2.000 cada). E o que são 20 mi ou mesmo 100 mi no orçamento do Estado, inda mais se houver uma participação dos 3 níveis, União, Estados, Municípios? Gota d’água.

Desatando esse nó, os outros — formação de leitores, ampliação da magérrima rede de livrarias, etc. — iriam se desatando mais facilmente. 

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