A arte dos números

O competente Cristiano Romero, no “Valor” de hoje ( <a href=’http://www.valoronline.com.br/valoreconomico/285/primeirocaderno/brasil/AL+na+poeira+da+Asia+Oriental,,,63,3797138.html’ target=clique aqui), apresenta estudos do economista Anthony Élson, publicado na última edição da revista “Finance and Development”, do FMI, comparando a América Latina copm a Ásia Oriental.

Com base nos indicadores médios da região, Élson tira suas conclusões de que o crescimento na Ásia Oriental foi maior do que na AL porque os asiáticos conseguiram, antes dos latinos, credibilidade na área fiscal. Em segundo plano vêm outros indicadores.

Nenhuma discussão maior sobre a importância da credibilidade fiscal. Mas o que os indicadores demonstram é algo muito mais relevante, e presente em várias análises críticas de economistas e analistas sobre o modelo de atração de capital externo brasileiro. O investimento externo, quando entra no país, tem efeito substitutivo, ocupando lugar da poupança interna. Entram os dólares, são convertidos em reais, depois o Banco Central enxuga os reais da economia através de compulsórios ou colocação de títulos públicos. Quem tem dólares, portanto, acaba rendo plena liquidez, porque não tem limite para captação e colocação. E quem não tem dólares sofre todos os efeitos desse efeito-substituição. Pior: os dólares que entram, em geral, não são para investimento, porque focados no curto prazo.

Por isso, o pensamento não-ortodoxo (da Escola de Economia da FGV-SP ao Instituto de Economia da UFRJ) sustenta que o desenvolvimento só será alcançado com o uso da poupança doméstica — que existe, é ampla e está aplicada basicamente na indústria de fundos.

Volte para a tabela do Élson, e se fixe em outras linhas, para entender porque o PIB per capita da AO cresceu 7% ao ano no período 2000-2005 e o da AL 1%:

Setores onde AL leva vantagem:

1. Fluxos de capitais privados: na AL cresceu 3,9% ao ano, contra 2,5% na AO. Em todos os períodos analisados, o crescimento desse item foi maior na AL.

2. Investimento estrangeiro direto: 3,7% ao ano na AL contra 2,5% na AO.

Setores onde AO leva vantagem:

1. Investimento doméstico bruto: 32,7% do PIB contra 19,8% da AL.

2. Poupança doméstica bruta: 36,8% do PIB contra 19,6% da AL.

3. Saldo comercial: crescimento de 4% ao ano contra 0,9% da AL.

4. Déficit público: média de 1,8% do PIB contra 2,4 da AL.

Pela análise dos grandes números, fica evidente que o fator primordial de crescimento foi o investimento doméstico bruto, financiado pela poupança doméstica bruta.

Por aqui, toda a política monetária visa atrair fluxos de capitais privados, pagando juros que só agora (se não sobrevier nenhuma crise externa) permitirão a reciclagem da poupança financeira para o mercado de capitais.

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