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A comemoração do aniversário do sistema de metas inflacionárias, por Luis Nassif

Em sua fase de autocrítica, bem recente, o economista André Lara Rezende – um dos dois pais do Plano Real – recupera a importância das observações empíricas -que ele sempre relevou quando comandava a política cambial do Plano Real.

Em suma, o que ele quis dizer é o seguinte: se você vê um animal com pelo de gato, orelha de gato, pelo de gato e mia, é gato. Não adiantam elucubrações teóricas para mostrar que não é gato.

É o que ocorreu com a teoria das metas inflacionárias, compondo o tal tripé econômico que o sistema louvava como a grande herança de Fernando Henrique Cardoso para Lula e dele para Dilma.

Trata-se de uma teoria que ganhou vida nos anos 90, em cima de um conjunto de deduções.

  1. Se os preços estão aumentando, é por excesso de demanda.
  2. A maneira de combater é aumentando os juros pois, com isso, há redução no crédito e no valor patrimonial dos investimentos, reduzindo a demanda por duas vias: pelo encarecimento do crédito e pela sensação de pobreza representada pela queda nos preços dos ativos.

A partir dessas constatações, sistematizaram-se os princípios da tal meta inflacionária.

  1. Sabe-se lá porque contas, chega-se a uma taxa de juros de equilíbrio de uma economia. Uma que, teoricamente, não influencia o nível de atividade e preços.
  2. Com base nisso, define-se uma meta de inflação para os próximos 12 meses.
  3. Se as expectativas são de inflação acima da meta, aumentam-se os juros, a partir das taxas básicas da economia.
  4. Se as expectativas são de inflação abaixo da meta, reduzem-se os juros.

A ideia real, por trás dessa teoria, é simples. O investidor sempre tem que ter assegurado um ganho real nas suas aplicações. Se a inflação sobe (corroendo o valor da moeda), as taxas de juros têm que aumentar mais que proporcionalmente. Na prática, tornou os rentistas sócios da inflação.

Inúmeras vezes demonstrei, aqui, os efeitos do aumento da taxa Selic sobre o crediário. Com taxas de 3% ao mês, no crédito, um ou dois pontos ao ano a mais na Selic – capaz de provocar devastações na divida pública – representam centavos no valor das prestações. Nunca, em nenhum momento, os defensores das metas inflacionárias, demonstraram correlação entre a taxa de juros e demanda.

Qual o efeito concreto, então, do aumento das taxas?

Simples. Com o aumento da Selic, aumenta o fluxo de entrada de dólares, vindo se alimentar dos juros. O aumento do fluxo aprecia o real. Se o especulador retirar seu dinheiro com os reais valendo mais do que na entrada, ele ganha duplamente: com as taxas de juros em reais e com a conversão para dólares.

Desde a implantação do sistema, os únicos soluços inflacionários decorreram de aumento dos preços das commodities, ou da quebra de safras, refletindo-se nos preços da alimentação. E, também, nos solavancos do câmbio. A apreciação do câmbio provocava uma redução nos preços dos produtos importados ajudando, por esta via, em alguma redução da inflação.

O custo desse sistema foi altíssimo. Primeiro, no aumento desmedido da relação dívida/PIB, com o serviço da dívida. Depois, pelos efeitos sobre a produção interna, esmagada pelo câmbio apreciado.

Provavelmente, trata-se da teoria que mais prejuízos causou ao país em toda sua história, só ficando atrás das conversões de dívida do período Mailson da Nobrega, que jogaram o país na superinflação.

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