A competição bancária

Coluna Econômica – 6/9/2006
As medidas de aumento da competição bancária, anunciadas ontem pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), embora ainda incipientes, estão acenando para uma nova etapa na competição bancária.

Nos últimos doze anos ocorreram dois fatos novos no sistema bancário. O primeiro, a re-concentração do setor, com o desaparecimento de instituições menores ou mais frágeis. O segundo foi a entrada de grandes bancos internacionais, que apregoavam uma maior familiaridade com o crédito como uma vantagem competitiva contra os bancos já instalados no país.

A competição não ocorreu por falta de oferta de crédito, devido aos juros elevados. Então o sistema quedou em um acordo cômodo, anti-concorrencial, que garantiu grandes nacos de rentabilidade a todos.

O jogo começou a virar a partir do ano passado. Com o advento do crédito consignado e a redução relativa da taxa Selic pela primeira vez em muitos anos os bancos começaram a praticar a competição em cima de uma nova clientela.

Este ano os ensaios de competição se ampliaram. Bancos estrangeiros passaram a testar financiamentos habitacionais sem TR; pequenos bancos nacionais estão investindo em cima da parte mais sacrificada da estrutura de juros: os devedores de cheque especial e cartão de crédito. Passaram a oferecer a esses devedores taxas de 5% ao mês, contra 10% do mercado. Ganharão muito dinheiro e conquistarão muitos clientes.

É nesse ambiente que devem ser entendidas as medidas adotadas ontem pelo CMN. Todas elas lubrificam as engrenagens daqueles bancos que pretenderem, de fato, partir para a competição.

Nenhuma individualmente resolve a questão do “spread” -e não haveria mágica para tanto. Algumas medidas, neste momento, têm caráter meramente pedagógico. Por exemplo, isentar de CPMF e IOF a transferência de crédito é pouca coisa, comparado aos ganhos que o cliente tem, trocando financiamento de 10% ao mês por outro de 5%. Mas a medida funciona como um gatilho nas expectativas, acordando consumidores e demais bancos para o novo cenário de competição.

A questão da conta salário é outro ponto relevante. Até agora muitos bancos disputavam clientes Pessoa Jurídica, oferecendo vantagens que eram subtraídas, depois, dos funcionários da empresa, amarrados por inércia ou por custos de transferência aos produtos do banco. Agora, a disputa será nas duas frentes. A empresa terá que ter vantagens específicas para continuar no banco.

O cadastro positivo não terá muita utilidade para a relação atual entre o banco e seu cliente. O banco sabe quem é bom pagador e quem não é. E joga nas costas de ambos mais do que o necessário para cobrir a inadimplência. Mas o cadastro será um aliado importante para o banco que pretender tirar cliente do concorrente, pois saberá, através dele, quem é o devedor contumaz e quem passa por dificuldades momentâneas.

O toque final, para deflagrar o ambiente de competição, foi bater em cima dos bancos oficiais para que reduzissem taxas e “spreads”. É uma medida positiva não apenas para o país, mas para os próprios bancos oficiais, que poderão conquistar “market share” saindo na frente.

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