A compra de medicamentos

Coluna Econômica – 31/08/2006
No final dos anos 80, havia uma grande discussão entre as grandes redes de supermercados, sobre a melhor maneira de gerenciar as compras. A primeira mudança foi uma descentralização das compras. Argumentava-se que o gerente de cada unidade tinha muito mais sensibilidade para suas necessidades e para as oportunidades de compra do que um departamento centralizado. De fato, as compras centralizadas acabavam atrasando a reposição dos estoques ou entregando todos os produtos de uma vez, dificultando o giro das lojas. Por outro lado, a compra descentralizada dificultava o controle e o poder de barganha dos gerentes para conseguir bons preços.

Tudo se resolveu com a informatização. Com bons sistemas e processos, o departamento de compras passou a acompanhar o movimento de estoques de cada loja, as vendas, as necessidades, as particularidades. Comprava-se de forma centralizada, mas atendendo às especificidades de cada loja.

O Estado brasileiro -entendido como União, estados e municípios—é o maior comprador de remédios do país. A compra centralizada trazia os mesmos inconvenientes do sistema centralizado dos supermercados. Optou-se por transferir recursos para os municípios, para que cada qual adquirisse os remédios de acordo com suas necessidades. O resultado foi uma enorme disparidade de preços de compra, uma enorme dificuldade de controle, e reduzido poder de barganha dos pequenos municípios.

Com o uso inteligente da informática, um sistema centralizado de compras resolveria a questão. SUS (Sistema Único de Saúde), estados e municípios definiriam suas necessidades de medicamentos, e haveria um leilão reverso (aquele em que os vendedores vão disputando quem oferece o menor preço) que uniformizaria o preço por baixo.

No Seminário sobre “Distribuição de Medicamentos”, organizado pelo Projeto Brasil, foram apresentadas as seguintes dificuldades para a implementação desse modelo:

Risco de crédito: não há garantia para o vendedor de que irá receber o pagamento dos pequenos municípios e mesmo de alguns estados.
Qualidade do produto ofertado, já que há importação de insumos indianos, a preços baixos, mas com qualidade sofrível.
Ora, todos esses problemas já foram tratados pela Bolsa Eletrônica de Compras, criada em São Paulo na gestão Mário Covas. Os municípios só poderiam comprar remédios através de pregão eletrônico. Para tanto, teriam que prestar contas sobre seus estoques e suas necessidades. Em seguida, com o seu consentimento, o SUS bloquearia em um banco público os recursos que garantiriam sua participação no leilão. Na ponta vendedora, os produtos que seriam oferecidos teriam que ser certificados pelo INMETRO (Instituto Nacional de Metrologia) e vendidos através de empresas previamente cadastradas. Completada a compra, haveria a liberação imediata do pagamento para o vendedor, e a garantia de entrega imediata do medicamento para o comprador.

Dez anos atrás, uma proposta dessas pareceria ficção científica. Agora está tudo disponível, tecnologia, modelos bem sucedidos já implantados. Falta apenas capacidade de montar um projeto e levá-lo adiante.

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