A demagogia climática de Armínio Fraga, por César Locatelli

"Cumpre pedir perdão a Fraga e aos que foram induzidos ao sonho por seu texto, mas o primeiro passo, o mais essencial, o inescapável, é buscar um arranjo social distinto deste que nos trouxe até aqui"

Captura nossa atenção, quando um prócer do mercado financeiro e ex-presidente do Banco Central declara que: “Em tempos de obscurantismo afloram sentimentos que vão da indignação à profunda solidariedade.” Lamentavelmente, ele não revela, entretanto, o que chama de obscurantismo, termo sinônimo de ignorantismo, como ensina Houaiss. Tampouco nos diz com quem se solidarizou ou se, somente, se indignou. É certo que toma do movimento pelo clima, em curso na Europa e nos EUA, seu foco.

Progressistas estado-unidenses, como o socialista Bernie Sanders, defendem um “Novo Acordo Verde”. Na verdade, o termo em inglês, Green New Deal, faz referência ao “New Deal” que foi um “Novo Acordo”, um novo pacto social, liderado por Roosevelt para tentar estancar e reverter a calamidade provocada pela grande depressão de 1929. Pacto e acordo têm subentendida a participação de todos e, mais importante, alguns perdem, alguns são obrigados a abrir mão de poder, de privilégios, de confortos.

O “Brasil Verde” de Armínio Fraga, na Folha de S.Paulo de 28/07, não menciona as palavras acordo e pacto, não menciona o modo de produção das sociedades de hoje, tampouco cita o que querem da vida os humanos nestes tempos. Fraga amputou o acordo proposto por progressistas dos EUA para algo que não passasse por rearranjo social e, portanto, não representasse risco de alguém ter de abrir mão de coisa alguma.

“Imaginem um país onde as praias, lagoas e rios são limpos. Onde todos têm acesso a esgoto e água corrente. Onde o ar que se respira é puro. Onde os alimentos são saudáveis. Onde a natureza é preservada e apreciada. Que tal? Um país assim melhoraria nossa saúde, qualidade de vida e autoestima, atrairia muito mais turismo, de maior poder aquisitivo, e viabilizaria a abertura de mais e melhores mercados para exportações”, diz.

Claro que não há como discordar do ilustre financista. Seria o máximo! Saúde, qualidade de vida e autoestima aliadas a praias limpas? Estaríamos no melhor dos mundos, um sonho! Cabe, no entanto, perguntar por que não estamos. Por que nossas medidas de bem viver estão todas no extremo oposto dessa escala? Teria algo a ver com o capitalismo? Com o capitalismo neoliberal com protagonismo da finança?

Bem, cumpre pedir perdão a Fraga e aos que foram induzidos ao sonho por seu texto, mas o primeiro passo, o mais essencial, o inescapável, é buscar um arranjo social distinto deste que nos trouxe até aqui. Não há saída sem escaparmos deste modo de produção que transmutou todos os âmbitos da nossa existência em coisas que se compram e se vendem, em mercadorias.

Fraga foi empregado de George Soros, magnata gestor de fundos nos EUA com patrimônio líquido de 8,3 bilhões de dólares, segundo a revista Forbes. Esse patrimônio é o que sobrou em nome dele após ter repassado 18 bilhões para a Open Society Foundation no ano passado. E hoje é, ele mesmo, gestor da empresa Gávea Investimentos que gere atualmente cerca de 12 bilhões de reais.

A relevância dessas menções, de sua estreita ligação com o universo que protagoniza o capitalismo desse século XXI, bem como da ausência de análise do que trouxe a humanidade a esse ponto de catástrofe ambiental, é sugerir que seu texto é demagógico. Um discurso que simula virtude com objetivos escusos, na definição de Houaiss.

*Cesar Locatelli é economista e articulista do Jornalistas Livres

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