A discussão sobre as cotas raciais

Do Último Segundo
Coluna Econômica 15/03/2010

Um dos grandes desafios da mídia, nos próximos anos, será estimular a tolerância no país.

A crise mundial jogou luzes sobre as transformações que o país está passando. São as mais relevantes em muitas décadas.

Nos anos 50 houve o início do processo de industrialização. Como consequência, um aumento no tamanho das grandes cidades. A falta de uma política agrária, mais uma grande seca no nordeste, provocou enorme êxodo rural. A falta de investimentos em serviços públicos, a ausência de políticas sociais includentes, trouxe como consequência o inchaço das grandes cidades e uma concentração de renda única no mundo civilizado.

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Seguiu-se um período de crise e estagnação, em que se tentava moldar o novo país.

Vários fatores surgiram no período, cresceram e agora começam a dar frutos: melhoria da curva demográfica (maior percentual da população na população economicamente ativa), maior inclusão social, desenvolvimento indo para o norte, nordeste, centro-oeste e cidades médias do sudeste, o novo mundo da agricultura sustentável.

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Como em toda transição, há conflitos, estranhamento entre setores que entram e setores já estabelecidos. Como em todo país que chega ao desenvolvimento, há maior pressão dos movimentos sociais, das minorias.

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Esses movimentos de inclusão são inevitáveis. Podem ser feitos com conflitos graves – como os movimentos civis norte-americanos -, podem ser feitos de maneira mais civilizada. Mas sempre serão feitos.

O movimento civilizatório se dá quando esses novos grupos conseguem se organizar politicamente, canalizar suas reivindicações dentro da legalidade do país e serem aceitos como forças políticas dentro do jogo democrático.

Quando não há esse espaço, cria-se o conflito. Em países mais atrasados, resultou em sedições, guerrilhas internas, assassinatos políticos.

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Um dos grandes problemas da discussão política atual é que se instrumentaliza qualquer tema reivindicatório.

Exemplo disso são reações de alguns intelectuais pitbulls contra as cotas raciais.

De minha parte, sou terminantemente contrário. Tem que haver políticas compensatórias, que reduzam as disparidade de oportunidades na sociedade brasileira. Mas a parte fraca não é exclusivamente negra: é fundamentalmente pobre. Um negro pobre pode ter menos oportunidades que um branco pobre; mas um negro remediado tem mais oportunidades que um branco pobre. Daí que o elemento unificador é o fato de ser pobre, não ter tido acesso a escolas melhores.

As cotas raciais introduzem um elemento de exclusão de pobres que não sejam negros e um elemento racial em uma sociedade miscigenada.

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No entanto, essa discussão – que poderia se dar de forma civilizada – tornou-se fetiche em algumas areas de mídia. A reação contra as cotas sociais não passa por uma visão civilizada, mas foi transformada em uma questão de tudo ou nada, como se estiivesse em jogo situação vs oposição, esquerda vs direita.

São momentos sombrios em que, em vez de trazer a civilização, alguns órgãos de mídia ajudam a trazer as sombras da Inquisição.

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