A especulação de alimentos

Do Valor

Especular com alimentos é perigoso? 

Por Denis Drechsler, George Rapsomanikis e Alexander Sarris
06/07/2010 

Os preços de muitos alimentos básicos aumentaram drasticamente entre 2007 e 2008, criando uma crise de alimentos para países pobres

Alta de preço tem várias razões.

Os preços de muitos alimentos básicos aumentaram drasticamente entre 2007 e 2008, criando uma crise de alimentos para muitos países pobres e em desenvolvimento. Os preços internacionais do milho, arroz e trigo, por exemplo, atingiram seu maior patamar em 30 anos, provocando instabilidade política e econômica – e levando a manifestações de protesto por comida – em vários países.

Muitos fatores contribuíram para a crise, como os altos preços do petróleo, a forte demanda por culturas agrícolas para o setor de biocombustível, o declínio dos estoques mundiais de commodities alimentícias e a queda na produção de cereais. O forte crescimento econômico e as políticas monetárias expansionistas impulsionaram ainda mais essa tendência, assim como medidas protecionistas, como as restrições às exportações.

Embora esses fatores, sem dúvida, tenham pressionado os preços dos alimentos para cima, não são suficientes para explicar as altas pronunciadas. Alguns acreditam que a crise foi amplificada pela negociação especulativa nos contratos futuros de commodities, que se tornaram parte integral dos mercados de alimentos.

As As commodities futuras são acordos formais para comprar ou vender um volume determinado de uma commodity em uma data futura determinada por um preço determinado. Proporcionam, portanto, um importante instrumento de proteção contra riscos de oscilações dos preços nos mercados de commodities. Ao entrar em um contrato futuro, tanto o comprador como o vendedor ganham certa certeza sobre o preço de sua transação subsequente, independente dos acontecimentos no mercado.

Os contratos futuros de commodities em geral são negociados antes de seu vencimento. De fato, apenas 2% dos contratos resultam realmente na entrega da commodity. O mercado, portanto, também atrai investidores que não estão interessados na commodity, mas no ganho especulativo. Na verdade, as commodities futuras tornam-se cada vez mais atraentes para investidores não comerciais, já que seus retornos parecem estar correlacionados negativamente com os retornos das ações e bônus.

A crescente presença de investidores não comerciais proporcionou uma importante liquidez para o mercado, já que os especuladores assumem riscos relacionados aos preços das commodities, riscos que os interessados em proteção querem evitar. Sua presença, no entanto, também trouxe preocupações de que a especulação com as commodities futuras possa trazer maior volatilidade nos preços.

Economistas em geral consideram as commodities futuras como solução para a maior volatilidade dos preços, não sua causa. Argumentam que os negociantes de commodities futuras meramente reagem às sinalizações de preços que, no fim das contas, dependem dos fundamentos do mercado. Dessa forma, a especulação acelera o processo de busca de um preço de equilíbrio e de estabilização do mercado físico, em que realmente há a entrega da commodity.

Mas e quanto aos investidores que seguem as tendências ou que têm poder de mercado? De fato, no curto prazo, um investidor pode sentir-se tentado pela tendência de alta no preço de uma commodity, mesmo sem o preço estar baseado em nenhum fundamento do mercado. Esses investimentos especulativos podem fortalecer ainda mais a tendência e pressionar os preços futuros para ainda mais longe do equilíbrio de mercado, especialmente se muitos investidores seguirem a tendência ou se os que investirem tiverem fundos suficientes para influenciar o mercado.

Os fundos de índices são um exemplo desses poderosos investidores. Tornaram-se participantes fundamentais no mercado, ficando com algo entre 25% e 35% dos contratos futuros agrícolas. Além de investir grandes volumes de dinheiro, ficam com os contratos futuros por longos períodos, reduzindo a probabilidade de que reajam a mudanças nos fundamentos do mercado.

As evidências empíricas não trazem respostas claras sobre qual hipótese está correta. Para cada estudo que revela uma conexão significativa entre as negociações especulativas e a volatilidade do mercado, há pelo menos um reivindicando o contrário.

Os mercados futuros, historicamente, evoluíram refletindo a necessidade dos participantes do mercado de administrar os riscos, com o que representam uma ferramenta indispensável para muitas commodities. Limitar ou mesmo proibir a especulação nos mercados futuros poderia, portanto, ter alto custo e trazer consequências imprevistas.

As propostas para criar um fundo internacional para contrabalançar as altas nos mercados futuros, por exemplo, poderiam afastar os especuladores das negociações e, portanto, diminuir a liquidez do mercado disponível para fins de proteção. Além disso, tal fundo exigiria recursos exorbitantes para poder funcionar, para não mencionar os imensos desafios em determinar o nível de preço que acionaria sua intervenção.

Tendo em vista o importante papel que as commodities futuras desempenham para muitos participantes do mercado, as medidas de regulamentação deveriam almejar incrementar a confiança no funcionamento do mercado. Isso pode ser alcançado com o aumento da transparência e o volume de informações disponíveis sobre a negociação de contratos futuros. As recentes iniciativas da Comissão Reguladora de Operações a Futuro com Commodities (CFTC) dos EUA apontam nessa direção.

Para neutralizar comportamentos suspeitos – como o de negociantes pedindo permissão para investir quantias acima dos limites de suas posições especulativas – a comissão cancelou isenções de duas firmas negociantes de contratos futuros de milho, trigo e soja. Tais medidas contribuirão para modelar um ambiente de mercado mais estável e assegurar que as commodities futuras reduzam os riscos e a volatilidade. 

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Apoie e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Apoie agora