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À espera do ajuste cambial

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Coluna Econômica

O mercado entrou em contagem regressiva para um ajuste na taxa de câmbio. De fato, o aumento no déficit nas contas externas. Em junho o déficit foi de US$ 5,18 bilhões, o segundo pior da série – medida desde 1947. No primeiro semestre, o déficit tangencia os US$ 24 bilhões. Por outro lado, houve um refluxo do IED (Investimento Externo Direto).

A lógica desses movimentos é conhecido.

O primeiro movimento é provocado pelo Banco Central, ao aumentar a taxa Selic ou mantê-la muitos acima das taxas internacionais.

Taxa de juros, em política monetária, equivale ao antibiótico na medicina. Serve para cuidar de algumas infecções, mas tem efeitos negativos sobre o organismo. Daí o extremo cuidado dos médicos na sua utilização. Ministra-se o mínimo indispensável para curar a infecção, justamente para evitar as seqüelas.

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NocaNo caso dos juros, a única infecção que ele combate é a da inflação de demanda. Se a economia está muito aquecida, aumentam-se os juros, encarece-se o financiamento, a manutenção de estoques, desaquecendo a demanda.

As contraindicações são muitas, a principal das quais os efeitos deletérios sobre o câmbio. Com as taxas de juros internas mais elevadas que as internacionais, há um movimento dos grandes investidores de tomar crédito em outras moedas e aplicar em renda fixa no Brasil.

Ganham duas vezes. A primeira, com os juros mais elevadas. A segunda, devido ao fato de que excesso de entrada de dólares provoca uma apreciação do real, que permite ganhos adicionais.

É um cassino que não encontra paralelo em outros países.

Suponha que o investidor tome US$ 100 milhões a uma taxa de 1% ao ano. Chega ao Brasil e converte pelo dólar a R$ 1,90. Fica com R$ 190 milhões. Aí, aplica a 12% ao ano. Ao final de um ano terá R$ 212,8 milhões. Se o dólar caiu para R$ 1,70, ele conseguirá converter os reais em US$ 125,2 milhões. A 1% ao ano, sua dívida estará em US$ 101 milhões. Paga a dívida e fica com US$ 24 milhões, sem ter usado um dólar furado de recursos próprios.

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Acontece que, nesse período, o real apreciado vai provocando um rombo gradativamente maior no comércio exterior, na conta de serviços, no turismo. Enquanto sente que o real tem espaço para se valorizar, mais dólares entram pela conta financeira. E esse movimento de apreciação é acelerado por apostas feitas nos mercados futuros de câmbio.

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E como fica o investimento direto nisso? É um capital que não tem rapidez para entrar e sair da economia.

Imagine que uma empresa pense em trazer US$ 1 bilhão para investir aqui, com o dólar a R$ 1,70. Se amanhã houver uma desvalorização e o dólar saltar para, digamos, R$ 2,00, imediatamente no seu balanço ela registra uma perda de 15%.

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Por isso mesmo, quando sente que a apreciação do dólar está chegando ao limite prudencial, caem os IEDs. E fica muito mais difícil financiar o rombo nas contas externas.

As reservas em dólares do Banco Central evitam um choque mais abrupto. Mas não haverá como evitar a desvalorização cambial quando ocorrer o estouro da manada. 

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