A estratégia de Mantega para evitar o ‘tsunami monetário’

Do Estadão

Brasil já coordena estratégia contra ‘tsunami monetário’

Depois de conversar com Dilma, Mantega disse não hesitará em usar arsenal para evitar valorização do real

João Villaverde

BRASÍLIA – Preocupada com um possível retorno do “tsunami monetário”, a presidente Dilma Rousseff já coordenou com o ministro da Fazenda, Guido Mantega, a estratégia de resistência aos possíveis efeitos das medidas tomadas nessa quinta-feira, 13, nos Estados Unidos.

Pouco depois de o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) anunciar que injetará mensalmente US$ 40 bilhões em dinheiro novo na economia dos Estados Unidos para reanimar a economia, Dilma e Mantega conversaram por telefone.

O governo federal não vai permitir que o real se valorize caso esses dólares emitidos pelo Fed engrossem o fluxo de capital para o Brasil – o que poderia valorizar o real mais do que o governo gostaria.

Após o telefonema, Mantega desceu do quinto andar do Ministério da Fazenda para o auditório, no andar térreo, para anunciar a desoneração da folha de pagamentos para 25 setores da economia. Aproveitou a coletiva à imprensa para comunicar a estratégia ao mercado financeiro.

“Não deixaremos ocorrer uma valorização do real por causa da medida (do Fed).” O ministro acrescentou que o governo poderá lançar mão a qualquer momento do arsenal de medidas de que dispõe para manter o real desvalorizado.

“Já enfrentamos o QE1 e QE2, que eram até maiores”, disse Mantega, em referência às políticas de expansão quantitativa (na sigla em inglês, QE) adotadas pelo Fed entre meados de 2010 e o início de 2011.

‘Tsunami monetário’

Naquelas ocasiões, a forte injeção de dólares na economia americana inflou os fluxos de capitais para países emergentes, num movimento que a presidente Dilma, no ano passado, apelidou de “tsunami monetário”. O governo entende que ainda é prematuro afirmar que o fluxo de dólares vai aumentar, mas a estratégia na equipe econômica já está pronta.

Na última terça-feira, quando anunciou o pacote de reforma do setor elétrico, Dilma chegou a afirmar que o atual patamar do real foi conquistado após “ações efetivas para que a moeda, artificialmente valorizada por tsunamis monetários e por políticas monetárias de combate à crise nos países desenvolvidos, deixasse de ser um entrave ao mercado interno”.

O entendimento inicial do governo é que instrumentos existem e devem ser usados para evitar que o real volte a se valorizar. Entre os mecanismos estão a compra de dólares, por parte do Banco Central (BC), no mercado à vista, e a venda de contratos de swap cambial reverso no mercado financeiro, numa operação que equivale a compra de dólares no mercado futuro.

Uma frase, creditada ao ex-ministro Antonio Delfim Netto, tem sido repetida por economistas do governo e auxiliares presidenciais em Brasília: “Mesmo com todo o corte efetuado pelo Banco Central na taxa básica de juros, a Selic a 7,5% ao ano num cenário global de juro zero é o último peru no dia de ação de graças”.

(Colaboraram Adriana Fernandes, Célia Froufe e Renata Veríssimo)

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