A idiotia latino-americana

Nos anos 90, Plínio Apuleyo Mendoza lançou um livro campeão, o “Manual do Perfeito Idiota Latino-Americano” desmistificando teses anacrônicas da esquerda do continente.

Falta, agora, um “Manual do Perfeito Idiota Planilheiro Latino-Americano”. O continente é uma região tão infecta que qualquer idéia ou pensamento que venha do norte, ao atravessar a linha do Equador se derrete como disco velho submetido aos raios de sol.

Os planilheiros são o reverso do reverso da idiotia desmistificada por Mendoza. Como a intervenção virou atraso, a completa liberação virou moderno, independentemente da análise de caso, da avaliação da realidade nacional. É uma regra geral, tão universal quanto a ignorância, ainda que coberta por creme de leite de um pós-graduação no exterior.

O domínio de teorias internacionais é uma ferramenta que ajuda a entender a realidade nacional. Mas é ferramenta: o conhecimento se dá através da análise da realidade. Aqui, alguns planilheiros são tão primários e anacrônicos, tão despregados da racionalidade, tão incapazes de adaptar o conhecimento à realidade, que esta se torna a variável de ajuste para a teoria. Se liberar geral é “in”, então toda situação e análise têm que se adaptar ao liberar geral, para poder aparecer na foto das celebridades. não é assim?

Uma demonstração campeã de pensamento cabeça de planilha é a declaração do Diretor de Assuntos Internacionais do Banco Central, Paulo Vieira da Cunha, à repórter Jacqueline Farid do “Estadão” (clique aqui)

Segundo ele, “a desvalorização do real ocorrerá de forma “perfeitamente natural”, em conseqüência da perda de competitividade das exportações que, por sua vez, vai reduzir o fluxo de divisas para o País”.

Saia da planilha e entre no mundo real, lentamente para não ser fulminado por um choque térmico.

O câmbio se torna competitivo, e milhares de empresas se preparam para exportar. Compram máquinas, investem em viagens internacionais, enfrentam uma luta hercúlea para afastar concorrentes já instalados nos mercados externos. Depois de todo esse investimento, conquistam o cliente. A partir dali, a manutenção do mercado conquistado dependerá do fornecimento regular de produtos e da melhoria gradativa da produtividade.

Aí vem o Banco Central e permite uma apreciação de 15, 20, 25% do real. O produtor fica sem preço para competir. Resiste um pouco, depois desiste -os mais insistentes quebram. O câmbio vai se apreciando e, a cada semana, novos grupos de exportadores vão desistindo, jogando fora anos de investimento na abertura do mercado externo e -pior– comprometendo sua imagem com seu comprador.

Quando as exportações caem tanto que não sustentam mais os superávits comerciais, quando as cadeias exportadoras estão destroçadas, quando toda uma nova geração de exportadores é expulsa do mercado pelo câmbio, então o câmbio começará a se desvalorizar “de forma perfeitamente natural”, conforme o manual do perfeito idiota planilhado latino-americano.

Quando metade do parque exportador sucumbir, os exportadores renascerão como fênix das cinzas. E cinzas são o que restou de qualquer sinal de vida inteligente no BC.

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