A indústria da planilha

A necessidade de superávit fiscal para pagar juros tirou R$ 1,2 bi de estatais, que seguramente seriam aplicados em investimentos. Fábio Giambiagi nada fala sobre o tema.

Na gestão do José Serra no Ministério do Planejamento, Gimbiagi preparou trabalhos demonstrando que o aumento da dívida pública era decorrência da política e juros elevados, fruto dos desequilíbrios nas contas externas. Nem precisava de contas para comprovar esse quadro, mas Giambiagi fez.

Hoje, nega que juros tivessem tido influência no crescimento da dívida pública no primeiro governo FHC. Assim como técnicos do Tesouro em 2002, atribui o crescimento à incorporação de esqueletos. Prudentemente esquiva-se de comentar sobre o impacto dos juros do BC no esqueleto dos estados (já que a Selic afeta toda a estrutura de juros da economia).

Quando lhe cobrei certa vez esse estudo sobre a influência dos juros no aumento da dívida interna, disse que na época era “chapa branca”. Ou seja, dê-me uma tese que eu tratarei de providenciar as contas para legitimá-la. É essa a lógica.

Entenda-se, então, como os cabeções se apropriam da política econômica. O país se reúne, vota uma Constituinte e, pela voz dos deputados, define suas prioridades. Aí, cria-se uma política monetária maluca, que drena todo recurso público para juros e obriga a um aumento insuportável na carga de impostos. Quando a carga bate no limite, de duas uma: ou se trata de testar limites de baixa nos juros, ou de se modificar decisões dos constituintes.

É uma decisão eminentemente política. Mas fica-se, dia após dia, nesse terrorismo que já dura doze anos: ou se faz a reforma, ou o país não cresce. Entrega-se um dedo, e o país continua não crescendo. Entregam-se dois dedos, e o país continua não crescendo.

O uso dos cálculos, por Gimabiagi, Velloso, Castellar e companhia, nada tem de ciência. Tem de técnica. É como o parecer do mau jurista. Pergunta-se, primeiro, qual a tese que o cliente quer ver defendida, para depois escrever o parecer.

A partir dos cálculos, eles tiram conclusões como se fosse a única saída técnica para sair da estagnação. Sabem que não é isso. Porque nunca falam sobre juros, sendo que os juros são a maior conta do setor público? Porque não montam uma simulaçãozinha sequer, demonstrando o peso de cada ponto da Selic sobre as contas públicas?

Porque não são cientistas. São economistas a serviço de uma causa. Não tem a grandeza de outros economistas, como Furtado ou Bulhões, que tinham um modelo de país na cabeça. Eles não têm. A idéia fixa na Previdência visa, unicamente, distrair o foco sobre os juros, e abrir mais espaço para a manutenção de uma política monetária suicida para o país.

Nada contra eles, se explicassem devidamente que seu trabalho está a serviço do setor A ou B, e não a serviço do conhecimento neutro e científico.

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