A lógica do Copom

Enviado por: Rogério Maestri

Nassif´

Como me meti numa área que não era de longe a minha especialidade, o controle da inflação via taxa de juros, levei algumas pedradas do tipo “estás ignorando por desconhecimento o fantástico trabalho do BC no controle da inflação” ou “o BC usa modelos fantásticos para determinar a taxa de juros”. Como tenho humildade de reconhecer as minhas limitações comecei a pesquisar com cuidado dentro das publicações do BC os métodos para avaliação da taxa de juros, além disso, passei a ler com mais cuidado as atas das reuniões do COPOM que indicam os motivos do valor da taxa de juros. Não sou especialista (nem um pouco) sobre o assunto, mas não sou BURRO, e chego a seguinte conclusão:

Primeiro: Os modelos empregados para avaliação da taxa de juros não tem sensibilidade suficiente para saber se ela deve cair 0,25%, 0,50% ou até 0,75%, explico, as constantes determinadas nos modelos são obtidas para situações de inflação e taxa de juros diferentes de hoje em dia, caso estivéssemos nos USA, onde elas sobem e descem frequentemente poderíamos utilizar estes modelos com um grau de refinamento melhor, pois as séries históricas são condizentes com a situação atual (ou seja em outros tempos eles tiveram situações análogas a estas e podem simular o efeito da taxa de juros com precisão).

Segundo: As atas das reuniões do COPOM são estruturadas de tal forma que qualquer conclusão pode ser retirada delas, acho que a maior parte dos analistas econômicos não tem paciência de lê-las e por isto deixam passar as coisas batidas. Nessas atas simplesmente citam-se no mínimo uns 150 índices desde o valor do IPCA até a variação do preço do bujão de gás! Ou seja, dentro daquela lógica que quando não se quer explicar nada, colocam-se bastantes números. Vale a pena se ter um pouco de paciência e ler com cuidado uma ata do COPOM, a média de dado estatístico por linha é de quase 0,75 dados por uma linha. Quanto a uma análise concreta indicando o porquê da taxa num dado patamar não vi nenhuma.

Terceiro: O verdadeiro critério que é utilizado para estipular a taxa de juros é a expectativa do mercado. Voilà, achei a origem de tudo, o BC obedece com o máximo respeito o que “o mercado” indica como tendência de taxa de juros. Aí começamos a entender o porquê da intensificação das entrevistas de diretores financeiros e consultores de bancos nos grandes meios de imprensa antes das reuniões do COPOM. Se observarem com cuidado verão que na semana que antecede as reuniões aparecem analistas ligados ao setor financeiro indicando qual será a próxima taxa de juros.

Logo a partir dessas observações concluo que o que tu desejas “que se teste sistematicamente o piso dos juros”, só será feito quando o clamor da sociedade como um todo indique uma tendência de decréscimo maior na taxa de juros.

Uma observação final, quando necessário o BC sobe a taxa de juros de forma arrojada e segura, agora na hora de baixar, como é?

Comentário

Que maravilha quando o raciocínio e o bom senso se debruçam sobre essa mandracaria do BC, e conseguem capatar a sua (i)lógica.

Uma informação adicional, Rogério: as tais expectativas do mercado no fundo são as expectativas do BC. Suponha que um bom economista de mercado antecipou a queda da inflação. Se ele apostar nessa direção, mas o BC apostar em outra, ele perde. Assim, toda a atuação dos analistas consiste em tentar adivinhar o que vai na cabeça do diretor do BC. É um processo endógeno, que esquece a economia real.

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