A lógica econômica dos rolezinhos

Foi Fernando Collor que, no início do seu governo, anunciou que deixaria a esquerda perplexa e a direita indignada – ou vice-versa. É o que está ocorrendo com o fenômeno dos “rolês” em Shoppings.

Nem baderneiros, como supõe a direita, nem ativistas políticos, como imagina a esquerda. Apenas consumidores, clientes dos shoppings, querendo seu espaço.

E por que nos shoppings? Porque são seguros, têm praça de alimentação, tem boas lojas e tem “minas” (meninas no seu jargão). Simples assim.

As conclusões são de Renato Meirelles, presidente do Data Popular, primeiro instituto a estudar seriamente o fenômeno dos novos consumidores, das classes C e D.

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O país tem 30,7 milhões de jovens com idade entre 16 e 24 anos, e 9 milhões deles pertencem a essa nova classe média, com um poder de consumo da ordem de R$ 129,9 bilhões. É muito mais do que a soma de poder de consumo dos jovens de classe alta e baixa, que possuem respectivamente  R$ 80 bi e R$ 19,9 bilhões. Boa parte desses jovens usa roupas de marca que comprou no próprio shopping.

Desses 30,7 milhões de jovens, 16,6 milhões foram ao shopping pelo menos uma vez no último mês. A média mensal é de 3,3 vezes.

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Trata-se de um jovem totalmente distinto dos jovens da classe A.

Estes costumam gastar consigo próprio o dinheiro que ganham. Aqueles, em sua maioria ajudam no orçamento doméstico.

Além disso, são a primeira geração da família que não passou necessidade. Esse fato os dotou de características estimulantes: querem ser donos do seu próprio nariz. Ralam, pagam sua faculdade, acreditam no poder do esforço. Tem mais instrução que os pais e vão buscar na Internet as informações com que abastecem suas casas.

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Para comprovar sua independência, é interessante o fenômeno que ocorre com as igrejas evangélicas.

Muitos jovens foram atraídos pelo discurso da melhoria de vida, o que Renato denomina de Teoria da Prosperidade. Nas igrejas, montaram rede de relacionamentos que ajudaram a conseguir empregos melhores. Conheceram suas futuras esposas, que ajudaram a dividir as despesas familiares.

Depois que mudaram de patamar, passaram a olhar os pastores de forma mais crítica e a duvidar de suas boas intenções. Hoje em dia existem 9 milhões de evangélicos não praticantes – um fenômeno ainda pouco difundido.

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A idade de Renato não lhe permitiu acompanhar uma primeira leva de inclusão na classe média, registrada nos anos 70 e 80. Na época, entraram no mercado os filhos da urbanização e da ampliação da oferta de empregos em grandes corporações. E também os novos ricos dos bairros periféricos das grandes metrópoles.

Chegavam com seus símbolos de status e riqueza, provocando incômodo nos já estabelecidos. Lembro-me do desconforto de velhos senhores com o que consideravam popularização excessiva dos aeroportos e dos shoppings.

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Agora, repete-se o ritual. Só que, de acordo com as pesquisas do Data Popular, o futuro está muito mais nesses jovens do que nos jovens de outras classes. São os mais otimistas, aqueles que acreditam no futuro, no empreendedorismo, no trabalho e no país.

Os rolezinhos são apenas uma maneira mais barulhenta de avisarem o país que eles vieram para ficar.

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