A oportunidade do biocombustível

Coluna Econômica – 18/10/2006

Ignacy Sachs tem oitenta anos. Faz parte de uma geração de pensadores que, no pós-guerra batalhou por um mundo melhor. Parte desses quadros ajudou na construção da chamada era de ouro do capitalismo, os trinta anos, de 1945 a 1975 em que o capitalismo assumiu sua face humana e promoveu o crescimento e o bem estar. Parte – entre os quais ele – tentou construir um socialismo com face humana, que morreu com a Primavera de Praga, início da grande agonia do império soviético.

Brasileiro de adoção, Sachs chegou por aqui aos 12 anos de idade, fugindo do nazismo na Polônia. Estudou nas Faculdades Cândido Mendes e retornou à Polônia. Com o fim do sonho do socialismo humano, mudou-se para a França, onde se tornou referência mundial da eco-economia.

Hoje, acredita ele, o mundo caminha em cima de dois paradigmas defuntos: o socialismo e o capitalismo puro e seco, que reduz todos os planos estratégicos a visões de custo-benefício ou de taxa interna de retorno. O desenho do longo prazo é incompatível com análises de curto prazo de taxa interna de retorno, diz ele.

A nova economia terá que ser montada em cima de três novos paradigmas:

1. A nível social, o emprego, o trabalho decente, a agenda da OIT (Organização Internacional do Trabalho);

2. a nível ambiental, uma resposta às mudanças climáticas, uma saída gradual da energia fóssil;

3. a nível geopolítico livrar-se o quanto antes da geopolítica explosiva do petróleo;

O modelo histórico do capitalismo do século 20 e da urbanização consistia em expulsar os agricultores ou para as cidades (onde havia emprego no modelo fordista) ou para outros países que se abriram à imigração, como os Estados Unidos e o próprio Brasil. Não há mais espaço para esse modelo, o que obrigará a se reavaliar a economia rural, não apenas como produtora de alimentos, mas como produtora de empregos, inclusive fora da atividade específica da agricultura.

É nesse contexto que Sachs considera que o biocombustível poderá ser a porta de entrada do Brasil para se tornar uma das superpotências do século 21.

Ele vê no programa inúmeros desafios. Um deles será o da eficiência, o que pressupõe um modelo economicamente sustentável, e investimentos intensivos em pesquisa tecnológica. A grande ameaça ao etanol (o álcool de cana) são as pesquisas com álcool celulósico, permitindo tirar álcool de todo tipo de detritos, de madeira, plástico e outras mais.

O segundo ponto, segundo Sachs, é não recorrer exclusivamente às análises de produtividade na hora de desenhar o programa. A cultura mais competitiva para produzir biocombustível é a soja, diz ele. Se se permitir que o mercado se imponha, o resultado será uma monocultura da soja, e o controle de todo o processo por grandes multinacionais.

O papel do governo deverá ser o de impedir essa posição, e o de viabilizar a produção familiar do biodiesel. Não há lógica, segundo Sachs, de considerar a produção familiar incompatível com a produção em larga escala. É tudo uma questão de organização da cadeia produtiva, e do manejo adequado de uma política racional de preços.

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