A pauta do álcool

Coluna Econômica – 07/03/2007

A montagem de um programa brasileiro que permita ao país consolidar-se na liderança da bioenergia, passa por um conjunto de pontos abrangentes. Nesse sentido, o Summit do Etanol, que ocorrerá em julho em São Paulo, poderá ser o fórum adequado para aprofundar esses temas:

1. Questão tecnológica.

O Brasil sai na dianteira graças às conquistas tecnológicas da Embrapa e às pesquisas do próprio setor sucro-alcooleiro. No momento, há ampla vantagem do álcool de cana sobre os concorrentes. Mas as grandes potências estão começando a acelerar seus programas de pesquisas, especialmente em torno da aposta no álcool celulósico. No Cenpes (o centro de pesquisas da Petrobrás) há ainda quem aposte no hidrogênio como o grande combustível daqui a quinze ou vinte anos. Por isso mesmo, o sistema de pesquisa e inovação têm que entrar de cabeça nessa discussão, através da coordenação do Ministério de Ciências e Tecnologia, e da canalização de verbas dos fundos tecnológicos para pesquisa aplicada.

2. Geopolítica do álcool.

Um eventual acordo com os Estados Unidos poderá resultar em ganhos expressivos para o país se houver clareza sobre nossos interesses, ou em perda da liderança na bioenergia se não houver foco. Os EUA são fundamentalmente consumidores; o Brasil, basicamente produtor. Ao consumidor interessa preços baratos; ao produtor, preços elevados. Esse paradoxo terá que ser resolvido com concessões dos EUA, para reduzir sua dependência do petróleo, e convencer o Brasil a abrir mão de sua vantagem estratégica atual por uma atuação compartilhada.

Havendo coordenação interna, o Brasil teria condições efetivas de montar grupos de empresas (nas áreas de produção do álcool, de máquinas e equipamentos, de tecnologia agrícola) para avançar em territórios promissores, como o norte da África, norte da Argentina, Bolívia, América Central.

Até que ponto uma aliança com os EUA comprometeria essas possibilidades? Até que ponto pode-se abrir mão da aliança e ter a garantia de que haverá competência interna -governo e setor privado—para um papel de liderança?

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3. Conflito energia x alimentos.

Há uma competição clara entre alimentos e energia. Quando os preços dos energéticos sobem, essas culturas ocupam espaço dos alimentos; e vice-versa. Se os preços internacionais do álcool dispararem, poderão afetar os preços dos alimentos internos. Esse é um desafio grande, que terá que ser solucionado o mais rapidamente possível, seja com zoneamento agrícola ou com taxas que permitam equalizar os preços sem explodir o preço dos alimentos, e sem comprometer a rentabilidade do álcool.

4. Política industrial.

Um dos grandes desafios brasileiros será converter sua liderança atual em ganhos efetivos para os setores e para o país. As vantagens competitivas, além de terra e tradição, estão nas pesquisas da Embrapa e na tecnologia da indústria de base, que desenvolveu usinas de esmagamento multi-grãos. Numa primeira etapa, haverá enorme demanda interna pelos equipamentos. Mas haverá também enorme demanda internacional. De alguma forma, terá que se analisar a capacidade do aumento da produção dessas empresas, através de abertura de capital ou de mecanismos de indução.

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