A reedição do desastre anunciado

Coluna Econômica – 01/09/2006

No início da semana, o inacreditável Grupo de Conjuntura do IPEA (Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas), elaborou a seguinte compensação sobre a frustração do crescimento econômico: “Às vezes as pessoas minimizam os resultados menos favoráveis. Mas talvez sejam importantes. Ainda que saiam abaixo do esperado, talvez sejam importantes como alerta e como pergunta. Será que o Brasil já criou as condições para crescer mais?”. O autor dessa preciosidade é o economista Estêvão Kopschitz.

Ou seja, aprecie o real até o limite da irresponsabilidade, mantenha os juros em níveis elevadíssimos, tire qualquer condição de crescimento da economia. Depois, diga que o país não cresce porque não tem condições para crescer. Resolvido o dilema.

Em 1997 e 1998 o governo Fernando Henrique Cardoso começava a se encontrar. Foi atropelado pelos erros do real apreciado. O mesmo filme está se repetindo agora. Apesar da crise política, ou até devido a ela, o governo Lula começa a engrenar em várias frentes. Poderia fazer um segundo governo capaz de apagar as manchas do primeiro. Vai ser atropelado da mesma maneira que FHC pelos erros do Banco Central na condução do câmbio.

Ontem o IBGE divulgou os dados referentes ao segundo trimestre de 2006. Se se tomar a soma dos quatro quadrimestres em relação ao mesmo período de doze meses antes, o PIB veio caindo inexoravelmente, de 4,4% no segundo trimestre de 2005, para 3,1%, 2,3%, 2,4% e, agora, 1,7%.

E o PIB ainda não está refletindo de maneira objetiva o que vem pela frente. Por exemplo, a indústria automobilística ainda mantém as exportações, por conta de compromissos já firmados. A partir do momento que o setor perder as esperanças de uma reversão no câmbio no próximo ano, a interrupção das exportações será inexorável.

O PIB agrícola cresceu 1% no segundo trimestre em relação a igual período de 2005. As culturas que responderam pelo aumento foram o café (18,8%) e a soja (2,9%). Tudo indica uma enorme queda da produção de soja para o próximo ano, em função do câmbio. Plantou-se com um custo de produção afetado por um dólar mais forte. Agora, tem que se colher de qualquer maneira. Na hora do replantio, com o setor endividado, é que o país vai sofrer.

E tudo isso por quê? Pela falta de coragem de encarar a questão cambial e do livre fluxo de capitais. Produziu-se uma apreciação do real que está provocando a segunda onda de destruição das cadeias produtivas nacionais -a primeira foi no período 1994-1998. Quando o Sr. Crise resolveu dar uma mãozinha para o Brasil e promoveu a desvalorização cambial de 2002, nos dois anos seguintes se tinha fazendeiro de Mato Grosso abrindo estradas com seus próprios recursos. Ou seja, resolvida a questão da demanda, o investimento começou a jorrar.

Agora volta-se à mesma situação de antes. Assim como no segundo governo FHC, Lula poderia sair por cima no seu segundo governo, com a depuração do PT e o fortalecimento dos ministros gerenciais. O país vai perder de novo pela tibieza continuada de dois governantes que jogaram pela janela a maior oportunidade de crescimento da história.

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