A reedição do velho desastre

Coluna Econômica – 09/03/2007

Nenhuma surpresa na decisão do Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central) de reduzir a taxa Selic em apenas 0,25 ponto, em função das crises das bolsas internacionais nas últimas semanas. Essa é a desgraça: nenhuma surpresa.

O país parece não dispor de capacidade nem de não errar, nem sequer de não repetir erros já ocorridos em passado recente.

Para o Banco Central reduzir juros sem provocar fuga de dólares, tem que levar em conta a comparação com o custo de oportunidade de investir em títulos brasileiros no exterior. Esse custo é a taxa básica de juros norte-americana, mais a taxa de risco Brasil, mais um percentual para prevenir oscilações do real, qdo as aplicações forem em real.

O investidor externo compara essa taxa com a taxa Selic (que remunera os títulos internamente e em reais). Se a Selic estiver muito acima, ele traz dólares para aplicar no Brasil; se muito abaixo, tira os dólares

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Nos últimos anos houve queda sensível nesses três fatores, abrindo largo espaço para o BC derrubar a taxa Selic. Como não derrubou no ritmo necessário, houve uma inundação de dólares no país, que deixou o real mais caro. O que era um mero movimento financeiro –o aumento da entrada de dólares– começou a interferir na economia real, ao derrubar o câmbio.

Para impedir queda maior do dólar, o Banco Central passou a acumular reservas, isto é, a comprar dólares, chegando a mais de US$ 100 bilhões. O custo fiscal dessas reservas é altíssimo. É a diferença entre o que o BC paga por seus títulos (13% ao ano) e as taxas de aplicação de dólares, em geral baixíssimas. Paga-se todo esse custo meramente para garantir a tranqüilidade desses capitais de curto prazo que acaba, tendo um efeito apenas substitutivo sobre a poupança interna.

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Quando ocorrem terremotos externos, a tendência é um aumento geral na percepção de risco internacional. Nesses momentos, os títulos brasileiros são os primeiros a serem afetados. Aumenta o risco Brasil, aumentam as taxas internacionais por conta da crise. Se houver corrida, primeiro os apaches atacarão ativos mais expostos. Um deles será o real, apesar das reservas em dólares, devido ao fato de haver uma percepção geral de que a moeda está supervalorizada.

Quando esse movimento começar, a primeira tendência do BC será aumentar as taxas de juros Selic, para convencer o investidor externo a deixar o dinheiro no Brasil.

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Há três maneiras da economia brasileira se ajustar a um eventual quadro internacional de crise. Uma delas é através do câmbio. O dólar dispara até o momento em que os investidores acham que bateu no teto, reflui um pouco e se estabiliza.

A segunda maneira é impor controles aa entrada de capitais. Com isso, criam-se amortecedores nas correias de transmissão das crises internacionais para a economia interna.

Já o BC recorre aa solução deletéria. Aumenta a taxa Selic derrubando a atividade econômico, o emprego e sobrecarregando as contas públicas com os juros da dívida e o custo das reservas. E vende parte dos dólares das suas reservas, para impedir que o investidor externo tenha prejuízos.

É esse o quadro prenunciado pela última reunião do Copom, quando decidiu reduzir o ritmo de queda da taxa Selic.

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