A tragédia brasileira

Coluna Econômica – 07/04/2007

Nos últimos anos, na mídia, multiplicou-se um tipo de analista empenhado em analisar a crise brasileira à luz das raízes ibéricas. Certamente, o corporativismo é uma praga, assim como a visão do Estado paternalista, o empreguismo, a falta de oxigênio para o empreendedorismo.

Mas não é a única faceta dessa praga secular brasileira, que sistematicamente tem impedido o desenvolvimento. Há outro aspecto, um desequilíbrio político e um predomínio técnico que tem sido correntemente utilizado pela parte dita mais internacionalista da elite brasileira.

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As grandes nações do mundo se fizeram sob a égide do trabalho. Mais que isso, do desenvolvimento equilibrado, do apoio às pequenas e médias empresas, do desenvolvimento regional, da inclusão social. A grande saga inglesa e, depois, americana, foi construída em cima desses primados, da inclusão, da busca do bem estar, da universalização dos serviços essenciais, educação, saúde, democracia.

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A tragédia brasileira consiste em oscilar entre dois extremos do que de pior existe em termos de elite. A períodos de extremo corporativismo, sucedem-se outros de extrema espoliação do país, através de um financismo rasteiro que tenta se legitimar em uma falsa ciência.

Governar é a arte de iludir, especialmente com a cartelização da opinião. Há doze anos se vem com a história da “lição de casa”, com a ameaça de qualquer redução maior de juros trará o inferno da hiperinflação de volta, e outros clichês que não resistem a nenhuma análise de bom senso.

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Em 1994, quando colocava em prática a trágica política cambial do período, que vitimou setores inteiros da economia, Gustavo Franco se defendia alegando que a situação internacional era inédita, logo não se poderia analisar a economia sob princípios desenvolvidos em outros períodos.

Agora se volta ao mesmo lenga-lenga. Está-se no auge de um ciclo de internacionalização financeira da economia, e de aparecimento de uma nova potência, a China. Os resultados têm sido bolhas especulativas recorrentes, desequilíbrios freqüentes, com os analistas internacionais divididos apenas em relação à data quando se dará um ajuste mais brusco na economia mundial.

Mas analistas pegam o superávit comercial brasileira para sustentar que o quadro é outro, que a internacionalização é irreversível, e que as empresas terão necessariamente que se adaptar a esse novo quadro. Não bate, a não ser como elemento de defesa de seus interesses específicos.

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A economia não é uma ciência de grandes mistérios, mas se presta a muitos engodos. Primeiro, não há ajuste empresarial suficiente para enfrentar apreciações tão renitentes do real. Mesmo se houvesse, todo o aumento de eficiência, em vez de permitir às empresas se projetarem internacionalmente, serve apenas para garantir a sobrevivência. Todo o esforço empresarial de melhoria de processos não tem como fruto aumento da rentabilidade, permitindo a reinversão dos lucros em ampliação da produção e do emprego. Servem apenas para compensar o real forte. E isso na melhor das hipóteses, quando as empresas conseguem sobreviver.

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