A vez do mercado de ações

Coluna Econômica – 08/11/2006

O movimento que está se formando, de preparação de empresas para abrir capital, é um fenômeno sem precedentes na história econômica do país. Em muitos períodos o país tentou transformar o mercado de capitais em uma fonte de capitalização de empresas. Houve um movimento forte no início da República, que resultou em uma corrida especulativa ruinosa, conhecida como “O Encilhamento”.

No começo dos anos 70, após a reforma do mercado de capitais ocorrida no governo Castello Branco, seguiram-se duas ondas especulativas que enriqueceram alguns espertalhões e criaram a estranha figura da empresa de capital aberto de dono. O empresário abria capital, captava dinheiro barato, depois não se sentia na obrigação de prestar nem informações, nem remunerar o acionista.

A partir de meados dos anos 70, com a criação da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e a nova Lei das Sociedades Anônimas, o quadro melhorou, mas por pouco tempo. A Lei previa que 2/3 do capital das empresas poderia ser de ações preferenciais, sem direito a voto. Com isso, bastaria ao empresário dispor de 17% do capital da empresa (metade mais um das ações ordinárias) para controlá-la. Depois, veio a inflação dos anos 80 e as Bolsas se transformaram em um imenso cassino.

A privatização poderia ter permitido o florescimento do mercado de capitais. Os governos Collor, Itamar e Fernando Henrique Cardoso jogaram fora a oportunidade de privatizar através da pulverização do capital em bolsa, o que teria permitido repartir os ganhos da privatização com trabalhadores e pequenos investidores. Em lugar disso, o modelo de financiamento das privatizações fez com que grandes empresas privatizadas passassem a ser utilizadas despudoradamente em benefício dos controladores, inclusive com distribuição agressiva de dividendos – para permitir ao controlador pagar os financiamentos contraídos –, que atrasou em muito sua expansão.

Mesmo assim, o mercado foi se organizando, os bancos de investimento ganhando competência, capacidade de análise setorial, a indústria de fundos crescendo vigorosamente. Mas o salto para o mercado de capitais era impedido pelos juros estratosféricos praticados pelo Banco Central.

Agora, à medida que os juros vão caindo, o mercado se prepara para o grande salto de capitalização. Nesse ínterim, a Bolsa de Valores criou o chamado Novo Mercado, com exigências muito maiores de governança às empresas. Em troca, as empresas que entraram nesse Novo Mercado tiveram valorização expressiva dos seus papéis. O grande corte ocorreu com a venda de ações da Natura, que marcou uma nova era no mercado de capitais.

Agora, há usinas de açúcar, redes de drogarias, laboratórios de análise, companhias imobiliárias e todo um leque de novos setores se preparando para abrir capital, mas dentro de novas regras de governança e de profissionalização da gestão.

Se houver profissionalismo das autoridades reguladoras, é possível que a economia brasileira possa, enfim, entrar em um período de capitalização das empresas e de democratização da sua gestão.

Para incluir na lista Coluna Econômica

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Apoie e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Apoie agora