Ajuste fiscal e crescimento

A propósito desse artigo de João Sicsú, em fins de 1998 almocei com dois economistas da SOBEET, um deles um dos expoentes do pensamento mercadista, um dos economistas mais ouvidos pela mídia econômica.

Na época, tinha escrito um artigo criticando sua posição de que bastaria um ajuste fiscal para recuperar o desenvolvimento. Meus argumentos eram similares aos de Sicsu. Qualquer dinheiro que retorna à economia tem mais influência sobre a demanda do que o que fica girando no circuito financeiro.

No almoço, pedi para o economista explicar as razões de causalidade entre ajuste fiscal e crescimento. Nada contra ajuste fiscal ou contra redução de desperdício, mas apenas sobre seu efeito imediato sobre a demanda agregada. Pedi para que ele ilustrasse sua afirmação explicando a relação de causalidade. E lhe propus a seguinte questão: eu sou uma prefeitura, tenho R$ 1 milhão para gastar, e posso escolher entre pagar funcionários relapsos ou pagar juros. E lhe dizia que pagar funcionários relapsos tinha efeito mais positivo sobre o crescimento.

Ninguém estava defendendo desperdício de dinheiro, falta de controle, nem indo contra ajuste fiscal, mas apenas mostrando o efeito imediato sobre a economia.

Ele retrucou. Disse que com o ajuste fiscal a prefeitura passaria a gastar um “dinheiro virtuoso”. Indaguei se na hora de comprar a geladeira, as estatísticas selecionariam o que era dinheiro virtuoso ou de desperdício. Evidente que não. E muito menos geladeiras seriam compradas.

Já relatei esse episódio na minha coluna algumas vezes, porque ali ficou claro essa dificuldade do pensamento de clichê de analisar a realidade mais complexa da economia real.

Evidentemente, quando se fala em cortar despesas para aumentar investimentos, está se definindo uma relação correta de causalidade. Quando se fala nisso, sem mencionar o maior fator de despesa, que são os juros, está se maquilando novamente a realidade.

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