Alta dos juros trará estragos para a economia e efeito pífio sobre inflação, por Lauro Veiga Filho

Nos 12 meses encerrados em setembro deste ano, o IPCA acumulou salto de 10,25%, depois de experimentar, naquele mês, a taxa mensal mais elevada para o período desde 1994 (na sequência do lançamento do Plano Real).

Alta dos juros trará estragos para a economia e efeito pífio sobre inflação

por Lauro Veiga Filho

O estrago da alta na taxa básica de juros tende a ser mais severo sobre a atividade econômica, sacrificando mais o emprego e a renda das famílias, mas com efeitos pífios ou pouco relevantes sobre os preços em geral, a se considerar o comportamento recente do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O salto experimentado pelo índice neste ano, como mostram as séries estatísticas do instituto, tem sido puxado largamente pelos aumentos nas tarifas de energia residencial, pelos combustíveis mais caros, com impactos diretos sobre os custos dos transportes em geral, e pela alta nos preços do gás de cozinha, sacrificando mais drasticamente a população de renda mais baixa.

Mas os demais preços não experimentaram elevação? Sim, mas numa escala muito mais modesta e que, por isso mesmo, parece não recomendar o “choque de juros” colocado em prática pelo Banco Central (BC), instituição usualmente comandada por economistas saídos do mercado financeiro e, não raro, com contas em paraísos fiscais fora do Brasil. Os aumentos de preços observados para aquele conjunto de itens não guardam relação com a demanda doméstica, refletindo, pela ordem, a crise hídrica desenhada, na verdade, desde o ano passado (ou mesmo antes, de acordo com alguns especialistas), a decisão da Petrobrás, discutível sob vários aspectos, de repassar ao mercado brasileiro todo o aumento observado pelas cotações de petróleo e derivados no mercado internacional, desconsiderando os custos interno de sua operação, e a própria variação do dólar ao longo do ano, que ajudou a dar volatilidade aos preços de bens importados pelo País, pressionando igualmente aqueles produzidos aqui e negociados no exterior.

Os aumentos de custos observados na indústria, em mais um exemplo, têm sido influenciados pela descontinuidade imposta às cadeias globais de suprimento desde a pandemia, afetando a oferta e encarecendo insumos e matérias primas, assim como pela valorização de commodities agrícolas e minerais, em grande parte por conta da demanda chinesa. Nitidamente, o aumento dos juros domésticos não terá a menor influência sobre aquele conjunto de fatores. Mas, dizem consultores, analistas e a equipe econômica, o objetivo do BC ao subir os juros seria conter os tais “efeitos de segunda ordem” causados pelos aumentos da energia, combustíveis e gás sobre o restante dos preços na economia.

O rentismo ganha. Sempre

A intensidade da alta já antecipada pelo Comitê de Política Monetária (Copom), que projeta juros básicos próximos a 8,25% a final deste ano, parece, então, despropositada quando se considera o cenário apontado pelo IBGE para a indústria e o varejo, com queda na produção e nas vendas nos números mais recentes. O cenário econômico, com desemprego ainda na faixa de 13,7% e atingindo 14,085 milhões de pessoas, associado a uma retração de 8,8% no rendimento real do trabalho em 12 meses até julho, não parece referendar o diagnóstico escolhido pela equipe econômica e pelos mercados, para os quais os “riscos fiscais” (mesmo com a dívida bruta em queda, quando se considera a relação com o Produto Interno Bruto (PIB), e o arrocho imposto às despesas destinadas ao enfrentamento da pandemia) justificariam o aumento dos juros a todo custo. Claro, o rentismo escatelado no poder real agradece penhoradamente.

Nos 12 meses encerrados em setembro deste ano, o IPCA acumulou salto de 10,25%, depois de experimentar, naquele mês, a taxa mensal mais elevada para o período desde 1994 (na sequência do lançamento do Plano Real). Os preços dos combustíveis subiram nada menos do que 42,02% no mesmo período, com altas de 34,67% para o gás de botijão, de 20,36% para o gás encanado e aumento de 28,82% para as tarifas da energia residencial. Num reflexo da correção aplicada aos preços dos combustíveis, os gastos das famílias com transporte público subiram 7,36%. No setor, no entanto, as influências mais fortes vieram dos preços do transporte por aplicativo, que subiram 14,08%, e das passagens aéreas, num salto de 56,81% (mais do que compensando a queda de 17,15% acumulada nos 12 meses do ano passado).

Energia elétrica, gás, transporte público e combustíveis, em conjunto, registram aumento combinado de 5,12% e responderam por praticamente metade da variação acumulada pelo IPCA na taxa anual. Os demais preços anotaram elevação de 5,13% num percentual aproximado. Nos 12 meses do ano passado, o mesmo grupo de produtos havia registrado elevação de 0,39%, respondendo por apenas 8,7% da inflação anual (que havia alcançado 4,52%). Os demais preços subiram 4,13%. Mais claramente, entre 2020 e 2021 (quer dizer, nos 12 meses terminados em setembro deste ano), energia, gás, transporte público e combustíveis responderam por uma elevação de 4,73 pontos de porcentagem frente a uma variação de 5,73 pontos para todos os preços acompanhados pelo IPCA, que saiu de 4,52% para 10,25% como visto. Os quatro itens relacionados acima responderam, portanto, por 82,55% da variação geral. A variação média do restante dos preços avançou de 4,13% para 5,13% (um ponto porcentual a mais). A comparação mostra que os tais “efeitos de segunda ordem” têm sido limitados pela demanda enfraquecida, a despeito das pressões de custos sofridas pelas empresas.

O jogo do dólar

Sentado sobre reservas internacionais muito próximas a US$ 370,4 bilhões em agosto passado (e próximas de US$ 369,5 bilhões no primeiro dia deste mês), o BC preferiu interferir com parcimônia excessiva no mercado do dólar, deixando a cotação da moeda flutuar quase livremente, salvo intervenções bastante pontuais ao longo dos últimos meses. Aparentemente, a cartilha liberaloide que tem orientado as decisões da equipe econômica desde a “era Temer” (e mesmo antes, durante o curto “reinado” de Joaquim Levy no então mais modesto Ministério da Fazenda) impediu que o BC dosasse de forma mais efetiva a variação do câmbio, impedindo a transferência para a economia brasileira de pelo menos parte das pressões de custos em cena na economia internacional.

Não se pode alegar falta de poder de fogo. Afinal de contas, as reservas respondem por qualquer coisa superior a 23,0% do PIB, superavam toda a dívida externa bruta em 15,2% em agosto deste ano (consolidando a posição do Brasil como credor internacional líquido – sim, o mundo deve ao País). Mais relevante até, as reservas representavam em agosto passado o equivalente a pouco mais de quatro vezes todo o valor do serviço da dívida externa brasileira. Em outros termos, caso houvesse uma interrupção total no crédito internacional para o Brasil, seria possível continuar pagando juros e amortizações por pouco mais de quatro anos, tudo o mais constante (numa referência às planilhas e modelos macroeconômicos preferidos pelos economistas mais ortodoxos).

Lauro Veiga Filho – Jornalista, foi secretário de redação do Diário Comércio & Indústria, editor de economia da Visão, repórter da Folha de S.Paulo em Brasília, chefiou o escritório da Gazeta Mercantil em Goiânia e colabora com o jornal Valor Econômico.

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