Arroz e Feijão, por Rui Daher

Enfim, leitores deste GGN, em se tratando de cadeia alimentar, agronegócios, tudo anda conforme duas leis: a da oferta e procura e a da ganância na superposição de margens de lucro.

Arroz e Feijão

por Rui Daher

O gajo alto e fortão para o baixinho: “Tá olhando o quê? Pra me encarar precisa comer muito arroz e feijão”. Não sei se o franzino opositor poderá seguir a sugestão, visto que terá de enfrentar dois vilões do momento.

Dia desses conversava com fraterno amigo sobre a falta de assunto em folhas e telas cotidianas, tão repetitivas quanto acidentes ferroviários na Índia, naufrágios nos rios do Pará, e infestação de algodões-doces nas águas do rio Tietê, em São Paulo.

Dolente, o noticiário seguia, minuto a minuto, página a página, Covid-19, bolsonasnices e violência policial, principalmente, contra minorias raciais e populações miseráveis. Vez ou outra, uma espetacularização lava jatista.

Foi quando, quanto e tampouco, parceiros e interlocutores celestes, sussurraram:

– Quando não se tem notícia, cria-se, tonto. Virão aí os vilões da inflação.

– Mas quais? De novo?

– Nada mais fácil do que entrevistar dona-de-casa em supermercados.

– Sei não. Tenho escrito regularmente sobre isso, falado em transmissões ao vivo. Com exceção de itens pontuais e óbvios, movidos pelo câmbio, penso na contramão, pois sei o quanto sofreram e sofrem com a pandemia os largados pequenos e familiares agricultores. Vá lá! Vou dar uma olhada.

Ôpa! Encontrei. “Tá lá o corpo estendido no chão”. Segundo o IBGE, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) atingiu 0,24% em agosto, o mais alto para o mês, desde 2016. No acumulado do ano, atingimos absurdos 0,70%, e em 12 meses, alarmantes 2,44%.

Ô gente ingrata. Fico pesaroso por Guedes, tanto esforço e ninguém satisfeito. Os itens que mais pesaram: a gasolina (3,22 % – fiquem em casa!); transportes (0,82% – mesmo conselho); e os reincidentes alimentos e bebidas (0,78%, atores tomate, que nunca terá paz, e os óbvios óleo de US$ soja, US$ carnes, leite e frutas).

Mas os palco e realce foram para o arroz e o feijão, que aumentaram os preços, neste ano, em 19,25% e 30%, respectivamente. Claro que pesa no bolso como, no passado, muito os aliviou.

Vamos, antes de tudo, nos sintonizar. O arroz tem a colheita das águas e do sequeiro. Os feijoeiros entregam (expressão em voga no gueto do home-office para quem tem notebook ou similar, situação óbvia a toda população brasileira), três safras.

Em 15 anos, no Brasil, a área plantada com arroz caiu 58%, a produção se manteve estagnada, compensada pela produtividade que dobrou, com aplicação de tecnologias modernas, na maior parte acessíveis apenas aos grandes produtores e não àqueles que serviam nossas mesas. Sendo assim, quanto à vilania, conversem com Tio João, Prato Fino, Uncle Bens, ou com seus distribuidores.

Para o feijão, não é muito diferente: no mesmo período, 32% de queda na área plantada; 10% na produção total, mal compensada por incremento de 40% na produtividade. De vilania, perguntem às Camil, Caldo Urbano, Fritz & Frida, supermercados em geral. Todos saberão responder-lhes melhor do que eu.

Enfim, leitores deste GGN, em se tratando de cadeia alimentar, agronegócios, tudo anda conforme duas leis: a da oferta e procura e a da ganância na superposição de margens de lucro.

Na medida em que a pandemia chegou e, primeiro impacto, diminuiu geral a demanda, como pensaram a queda seria compensada se não aumentando as margens de lucro? Não precisam perguntar a ninguém, talvez vocês mesmos saibam disso e o fizeram.

Tudo na agropecuária é sazonal, uma gangorra de preços determinada pela oferta e procura, bem como da habilidade do governo em lidar com as conjunturas.

Com o arroz, exportações para Índia e China, acima da capacidade de produção para atender aumento rápido da demanda interna. Feijão, incapacidade crônica de produzir para milhões de desempregados e pessoas abaixo da linha de pobreza, que passaram ao macarrão.

Vínhamos de um arrocho fiscal que exterminava o desenvolvimento do consumo. A pandemia obrigou o lamentável governo atual, com R$ 600, admitir ter recursos, mas não política desenvolvimentista de médio e longo prazos. Os necessitados saíram comprando, os gananciosos se aproveitaram.

Simples assim. Inté!

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