Artes do ilusionismo numérico

Enviado por Marcus Vinicius

O ilusionismo estatístico pode alcançar altos níveis de sofisticação, mas suas técnicas básicas estão longe de serem refinadas. Apesar disso, ainda é capaz de desconcertar muitas pessoas sérias e seus resultados serem utilizados para obscurecer o debate político sério, com danos gravíssimos às pessoas e ao país. Aqui tento descrever as técnicas mais básicas.

Técnica 1: A cientificidade incontestável. Na verdade essa não é uma técnica, mas um mito. O truque é o seguinte: nada parece mais rigorosamente científico do que números e previsões em um estudo feito por um doutor ou consultor que trabalha para grandes empresas. “Esse cara certamente entende das coisas, ele usa modelos estatísticos e dados fora do alcance nosso, simples mortais”, pensam muitos daqueles que se deparam com essas “sagradas análises”. Além disso, por alguma razão acredita-se que números naturalmente são exatos – ressalve-se, os estatísticos sabem que não são. Não caiam nessa, é um mito sem fundamento.

Técnica 2: Os dados viciados. As planilhas calculam com qualquer dado, mas se estes não forem bons ou significativos desde a origem, a conclusão não vale nada. Por isso não se explica as origens e as limitações dos dados. Em geral não se presta muita atenção nisso. As análises das contas públicas que vemos corriqueiramente nos jornais, feitas por consultorias e ex-ministros, se valem bastante dessa técnica.

Há variações. A seleção de dados enviesados é uma variação. Se alguns dados não servem para a tese, descarte-os ou desqualifique-os. Usar dados agregados é um refinamento sutil dessa técnica, pois eles podem esconder detalhes fundamentais, mas não deixam de ser adequados. Neste caso, o diabo mora os detalhes.

Técnica 3: A matemágica. Nessa técnica basta não explicar como as contas foram feitas. É como se os dados resolvessem executar os cálculos por si mesmos, como se tivessem instintos. Costuma-se combinar esta técnica com a anterior. Depois de somados, subtraídos, multiplicados ou divididos os números apresentam um resultado, mas ele pode não ser adequado, pois se somam coisas que não deviam ou não se subtraem as que seriam corretas. O caso da contabilização da Previdência é um exemplo disso.

Técnica 4: Alhos são bugalhos. Trata-se do uso indiscriminado de comparações sem destacar as diferenças. Há diversos usos dessa técnica. O uso grosseiro são as comparações sem sentido, mas que soam interessantes aos desatentos. Por exemplo, dizer que é mais perigoso para as crianças haver uma piscina em casa do que ter uma arma. Ora, ambas não são opções excludentes, é melhor eliminar o risco de vez não tendo nenhum deles em casa. O livro Freaknomics está cheio de exemplos, assim como muitas discussões de políticas públicas.

O uso refinado é menos evidente e abusa das técnicas anteriores. Por exemplo, comparam-se os gastos de previdência, educação, saúde, etc, de diversos países e mostra-se como o Brasil é discrepante. Mas não se diz como se faz as contas (técnica 3) ou como os dados são contabilizados (técnica 2). Será que na Europa os gastos com educação incluem as aposentadorias com os professores, o material didático e a manutenção das escolas? Ter o mesmo nome não significa ser igual. Assim, comparam-se coisas diferentes.

As técnicas podem ser combinadas de diversas formas para causar uma ilusão mais forte e difícil de ser desmascarada.

Mas nem tudo é ruim. Há antídotos contra essas técnicas:

(1) usar o senso crítico: os resultados fazem sentido ou batem com a percepção de realidade que temos? Vejam bem, noção de realidade não é obtida lendo manchetes, é observando o mundo.

(2) ceticismo: duvidar sempre faz bem. (a) Questione a origem dos dados: será que eles realmente mostram o que os analistas dizem que mostram? Eles são obtidos de forma confiável? (b) Questione as contas: foram somados, subtraídos, etc, os dados que realmente deveriam? (c) Questione os resultados: eles realmente representam algo substancial? As análises poderiam ter explorados alternativas ou ambigüidades?

(3) O principal: busque análises alternativas. É muito fácil começar a repetir até virar mantra quando não se verificam as alternativas.

Dá trabalho usar esses antídotos, que já haviam sido resumidos pelo Riobaldo de Guimarães Rosa: “Vivendo, se aprende; mas o que se aprende, mais, é só a fazer outras maiores perguntas”.

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