As associações de classe

Coluna Econômica – 20/9/2006
Um dos grandes problemas institucionais do setor privado brasileiro é a baixa representatividade e eficiência de associações setoriais.

Em uma economia cada vez mais integrada, em que as estratégias precisam ser definidas em nível de cadeia produtiva, as associações setoriais ou inter-setoriais teriam um papel relevante a desempenhar.

Caberia a elas levantar indicadores do setor, fornecer subsídios para ações conjuntas, fazer diagnósticos e propostas, criar ferramentas de bechmark. Mas, como regra geral, são organizações burocratizadas, que acabam sendo utilizadas para promoção pessoal de seus executivos ou para ações entre amigos, abrigando velhos companheiros do setor.

Volto ao caso da saúde suplementar, que comentei ontem. Nenhum operador ou hospital, individualmente, irá deflagrar ações preventivas de saúde, pelo receio de que seu investimento vá para o ralo se o cliente mudar de plano. É um pensamento anacrônico e demonstra profunda falta de visão estratégica desses operadores, de não saber como se tornar essencial para seu cliente. Se se limita a cobrir internações, o cliente muda de plano e não sente nenhuma diferença.

Mas o papel de associações inter-setoriais, existentes ou que venham a ser criadas, é essencial. Apenas uma associação que congregue os diversos agentes da cadeia da saúde teria possibilidade de levantar todos os indicadores, estabelecer diagnósticos, identificar pontos falhos e propor ações conjuntas.

Uma associação certamente facilitaria a criação de um cartão magnético único para as operadoras, um cadastro único de clientes, estatísticas unificadas do setor. E, se definisse padrões de qualidade para seus associados, se tornaria um fator de normatização e certificação do setor.

A partir desse levantamento prévio, poderia se constituir no local para a discussão integrada de novas formas de atuação do setor.

Em países com sistemas mais desenvolvidos de financiamento da saúde, o pagamento é feito por capitação (ou seja, o hospital, ou laboratório clínico ou laboratório farmacêutico recebe de acordo com a população atendida). Esse modelo torna todos os elos da cadeia solidários na redução de custos.

Por sua vez, a própria associação, ou a Agência Nacional de Saúde (ANS) tratará de definir pesquisas periódicas para avaliar o grau de eficiência de cada plano, se a economia não resultou em piora no atendimento. Esse é o modelo moderno de regulação pelo mercado.

Hoje em dia, fator expressivo de custo são pacientes que não seguem o tratamento e voltam, tempos depois, com a saúde em pior estado. Além do drama pessoal dele, há um tremendo impacto de custo sobre a operadora. Uma unificação de bancos de dados permitiria, por exemplo, o monitoramento individual de cada pacientes em tratamento, identificação de famílias com riscos potenciais de doença, empresas ou setores com índices relevantes de doença do trabalho, para serem alvos dessa ação preventiva.

Estou dando o exemplo da saúde porque me debrucei sobre o tema nos últimos dias. Mas esse tipo de papel da associação é essencial para a melhoria de cada setor e da economia em geral.

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