As correlações econômicas

Em breve vou disponibilizar aqui, para críticas, a planilha que estou preparando sobre a Taxa Interna de Retorno de um investimento, em função de diversas variáveis de análise.

A intenção maior é mostrar, didaticamente, como se relacionam as diversas variáveis da economia para, a partir daí, analisar o pensamento de planilha típico, como o de Alexandre Schwarstzman, para quem política monetária só deve mirar a meta de inflação.

Vamos partir da taxa Selic, como se ela fosse a constante da equação. Ela não é. Em um mercado com livre fluxo de capitais e taxa de câmbio flutuante, ela é diretamente arbitrada pela rentabilidade dos papéis brasileiros externos.

Internamente, quando o Banco Central coloca a taxa Selic muito acima da taxa de arbitragem, o que acontece? O investidor externo sai da aplicação brasileira “offshore” e internaliza dinheiro aqui. Ganha no diferencial de taxas. Aqui ele converte em reais e aplica na taxa Selic. O risco de perda é mínimo. Se os juros ficam alto, há uma enxurrada de dólares, provocando uma apreciação do real. Mas o que o investidor externo perde com a apreciação, mais do que ganha com os juros. Se os juros caem, ocorre uma desvalorização do real. O que ele perde com os juros, ganha com a desvalorização. Ou seja, um jogo de ganha-ganha para o investidor e de perde-perde para o Tesouro. Não é à toa que a UBS elegeu a renda fixa no Brasil como a melhor oportunidade de investimento entre todos os emergentes.

O problema é quando esse jogo financeiro bate na economia real. De um lado, pagar taxas de juros superiores ao necessário, significa pagar juros mais do que o necessário. Há uma queda mais lenta na dívida pública, que precisa ser compensada com cortes em outras áreas. E aí o mercado bota o olho gordo nos recursos da Previdência.

No campo dos investimentos privados, os efeitos são variados, mas todos negativos:

Efeito 1 – no cálculo do custo de oportunidade, na hora de investir o empresário vai comparar a rentabilidade esperada do investimento com o que teria aplicando nas taxas básicas da economia, a taxa Selic, que tem liquidez diária. E vai exigir um prêmio sobre o que a Selic paga. Quanto maior a Selic, maior terá que ser a rentabilidade esperada do investimento.

Efeito 2 – além de inibir o investimento (do lado do custo de oportunidade), inibe também pela redução das perspectivas de rentabilidade. De um lado, por encarecer o financiamento para o consumidor e o capital de giro para a empresa. De outro, por provocar a apreciação do real, com impacto negativo sobre as exportações e sobre a produção interna – ainda mais em um momento em que a China invade todos os mercados. Na tabelinha que postei abaixo, há algumas hipóteses (de orelhada, admito) que permitem entender um pouco essas correlações.

Efeito 3 – a taxa de juros elevada impede o crescimento da seguinte maneira:

• Inibe o consumo.

• Inibe o investimento privado.

• Aumenta os gastos públicos, consumindo parcela preponderante não apenas da poupança pública, mas da poupança privada – que é utilizada para rolar a dívida, em vez de ser utilizada para investimento produtivo.

• Obriga ao aumento de impostos, para compensar o aumento da dívida.

• Reduz recursos para infra-estutura.

Repare que é um elenco formidável de fatores que são afetados diretamente pelos juros altos. E, na análise de Schwarstman tudo se resume a uma meta de inflação e a essa lógica de que taxa de juros menores levam a uma demanda maior, logo… Nenhuma preocupação em testar limites de queda nos juros, para saber até onde a inflação poderia ir. E tudo isso em um quadro em que a China produz uma enorme deflação mundial.

Quando a planilha for disponibilizada, dará para perceber melhor como esse xadrez se move, quantas correlações existem, enquanto o planilheiro fica preso à constante da meta de inflação.

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