As razões do crescimento brasileiro

Da Folha

Por que o Brasil cresceu mais

DEMIAN FIOCCA

O crédito de bancos públicos, voltados ao investimento, foi importante para evitar que a aceleração da economia fosse limitada pelo risco de inflação

O Brasil viveu dois períodos diferentes desde a estabilização. De 1995 a 2003, teve crescimento baixo: 2,2% em média. De 2004 a 2010, alcançou crescimento alto: 4,4% em média. Mudanças na gestão econômica explicam essa melhora.

O país não foi levado pela “onda” de uma expansão mundial. Enquanto o crescimento do mundo oscilou de 3,4% para 3,8%, o do Brasil dobrou.

TampTampouco foi apenas a “sorte” dos bons preços das commodities.

Minério ou petróleo em alta estimularam investimentos nesses setores e o saldo comercial. Mas o uso de poupança externa, dado pelo deficit em contas correntes, diminuiu.

Passou, na média anual, de 2,9% do PIB para 0,2%.

Cinco políticas importantes têm de constar das explicações do novo crescimento: distribuição de renda, investimentos de estatais, fomento à expansão do crédito, acumulação de reservas e medidas anticíclicas.

Essas políticas moldaram um novo ambiente, de ampliação de renda e emprego, de um lado, e de confiança e expansão do investimento, de outro. Não foi algo trivial nem de continuidade pela inércia.

Desde 2005 há críticos à diretriz de expandir as operações do BNDES. Quando se afirmava que o Brasil podia crescer 5%, outros tentavam provar que o máximo possível era 3,5%.

Quando os bancos públicos sustentaram a expansão do crédito em meio à crise, muitos faziam ressalvas. Quando o presidente transmitia mensagens de otimismo, vários tentaram ridicularizar. Mas todas essas diretrizes estavam corretas.

Comparando 1997-2003 com 2004-2010, o gasto federal cresceu de 15% para 17% do PIB. As transferências a pessoas, como o Bolsa Família e as aposentadorias vinculadas ao salário mínimo, respondem por todo o acréscimo de 2% do PIB.

O gasto com pessoal oscilou de 4,5% para 4,4%. Os investimentos da União, de 0,7% para 0,8%. Tiveram impacto neutro.

Os investimentos das estatais federais subiram de 1,2% para 1,7% do PIB em média. Esse foi outro fator de aceleração.

Adotaram-se medidas favoráveis à expansão dos bancos privados, como a regulação do crédito consignado e o apoio aos bancos médios durante a crise econômica, e diretrizes indiscutivelmente novas de expansão e apoio em relação aos bancos públicos.

O crédito dos bancos privados saltou de 14,8% do PIB em 2003 para 27,1% em 2010. O dos bancos públicos, de 9,8% para 19,5%.

O crédito dos bancos públicos, mais voltados ao investimento, foi importante para ampliar a capacidade produtiva e evitar que a aceleração da economia fosse limitada pelo risco de inflação.

Entre 1995 e 2005, as reservas internacionais oscilaram na faixa de US$ 30-70 bilhões. Com a nomeação de Mantega para a Fazenda, desde 2006 prevaleceu uma política de compra continuada de reservas, por prudência contra crises e para suavizar a tendência de valorização do real, de modo a evitar um impacto brusco sobre a indústria.

As reservas então sobem de U$ 54 bilhões em 2005 para US$ 206 bilhões em setembro de 2008, às vésperas da crise.

Por fim, quando o mundo mergulha na crise, opta-se por política anticíclica, de manutenção dos investimentos públicos, redução de impostos e forte suporte ao crédito.

Descontando efeitos contábeis do Fundo Soberano e da concessão do pré-sal, o superavit primário federal foi reduzido de 2,8% em 2008 para 1,2% em 2009 e em 2010.

Injetou-se impulso de mais de 3% do PIB nesses dois anos. O suporte ao crédito responde facilmente por outros 3% do PIB. Foram políticas ativas, corajosas e inovadoras, que estão no centro do bom desempenho econômico do país.

DEMIAN FIOCCA, é economista, sócio da Mare Investimentos. Foi presidente do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) e da Nossa Caixa. 

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