As universidades públicas

Lá por 1996 ou 1997, com o e-mail amplamente disseminado pelo meio acadêmico, fiz uma provocação pela minha coluna na “Folha” a respeito do papel da Universidade. Recebi dezenas e dezenas de análises e sugestões preciosas. Calhou de ter sido iniciada uma discussão relevante interna, sobre o novo papel da Universidade, que era sufocada pela velha guarda, que controlava os departamentos.

Escrevi uma série de colunas, nas quais se baseou a SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência), segundo sua presidente Glacy Zancan, para formular uma proposta de autonomia universitária com responsabilidade, que foi encaminhada ao então Ministro da Educação Paulo Renato de Souza.

Seria impossível comparar a produção acadêmica de uma universidade paulista ou carioca com uma do nordeste. Em vista disso, a proposta da SBPC propunha, além do critério de ensino e pesquisa, outros itens diferenciadores, como o papel da universidade no desenvolvimento regional, sua interação com as forças locais e outros. Achei um critério bastante justo.

O MEC sequer considerou a proposta. Paulo Renato, assim como outros ministros da educação, fugia do tema universidade pública como o diabo da cruz. Liguei para o MEC pedindo uma resposta à proposta da SBPC, me informaram que não haviam recebido oficialmente. Disse-lhes que tinha saído no próprio jornal da SBPC. Em vão, nada foi feito.

Na gestão Tarso Genro, a proposta de reforma universitária incluía critérios de avaliação, que estariam amarrados à distribuição de verbas. Não tenho informação se isso foi adiante.

Na entrevista que fiz com o candidato Geraldo Alckmin, perguntei de sua proposta para o ensino superior. Enfatizou a criação de sistemas de avaliação das universidades federais. Indaguei o porquê de não terem sido implantados nas universidades estaduais paulistas. Disse que havia uma discussão qualquer sobre se isso feriria ou não a lei estadual que conferiu autonomia às estaduais.

Em suma, o que parece é que, como as universidades públicas são um vespeiro, com alto poder de vocalização e muita politização, há uma atitude dúbia por parte dos diversos governantes. Não mexem com elas, não exigem avaliações continuadas e, com isso, não arrumam sarna para coçar. Essa atitude, de um lado, impede a expansão da Universidade; de outro, impede que haja umaefetiva governança. Grupos políticos dominam departamentos, fundações utilizam o nome da instituição para alavancar negócios. E esse grande ativo nacional vai sendo cada vez mais dilapidado.

É um desperdício. A universidade pública tem um papel fundamental para o país, que o sistema privado está longe de suprir. Mas, para tanto, exigirá um Estadista, um Ministro que defina claramente seu papel, a prioridade nelas e, ao mesmo tempo, institua critérios rígidos de avaliação e uma reforma ampla.

Essa reforma deve passar pela criação do cargo de administradores. Não tem cabimento pegar um pesquisador e torná-lo diretor de departamento. Mata-se o pesquisador e o departamento.

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