Bem feito!

O eterno retorno
ALEXANDRE SCHWARTSMAN, na “Folha” de hoje

FOI COM satisfação que li o editorial da Folha do dia 13 comentando a questão das importações e do PIB, assunto da minha última coluna. O texto reconhece o equívoco de partir de uma identidade contábil para concluir que o aumento das importações teria reduzido o crescimento do PIB em 1,7 ponto percentual, exatamente o ponto central do meu artigo.

Escrito dias depois da entrevista de Affonso Celso Pastore ao “Valor”, e que consegue comprovar que se um importado substitui produção interna, não haverá o menor impacto sobre produção e emprego. Candidatos a Nobel!

Quase comemorei (são poucas as vezes que a racionalidade econômica prevalece), mas a continuação da leitura revelou que falta ainda um tanto para que o jornal compreenda realmente a questão.

Alexandre, que pouco tempo atrás não conseguia enxergar relação entre superávit nas contas externas e inflação, resolve ensinar o jornal que o acolheu.

De fato, o editorial propõe uma métrica peculiar para avaliar se as importações prejudicam (ou não) a atividade econômica: se a indústria local puder fornecer o bem, então a importação será prejudicial; se não, a importação não terá impacto sobre a atividade econômica.

Vamos entender essa lógica. É evidente que toda importação que substitui produção doméstica impacta diretamente atividade econômica e o emprego. A exceção são os casos em que insumos mais baratos aumentam a competitividade de produtos nacionais que os utilizam.

Por essa lógica curiosa, um país só pode importar sem prejuízo à atividade doméstica quando: (a) o bem em questão não é produzido no país; ou (b) o bem é produzido, mas, no momento, não existe capacidade ociosa para fazê-lo.

Em momento algum se admite que bens importados possam simplesmente competir com os domésticos. Em outras palavras, pela lógica do editorial, valorizamos a expansão da produção nacional, independentemente dos preços a que essa expansão ocorra, e o consumidor (ou investidor, no caso de uma máquina) que viva com isso.

Lá em cima ele diz que o editorial da “Folha” está errado por analisar as implicações dos importados sobre a produção interna. Presume-se, então, que ele irá mostrar que importação não afeta produção interna. O que ele faz? Na argumentação, deriva totalmente para preço – que é outro aspecto da discussão. O editorial não está errado. Apenas não privilegiou os aspectos que o “professor de Deus” considerava relevantes.

Com tais idéias dominando o pensamento nacional, não é estranho que o Brasil permaneça como um dos países mais fechados do ponto de vista do comércio internacional.

Imagine, no entanto, que em dado setor surja nova empresa, cujos preços são mais baixos que os das empresas tradicionais. Essa empresa irá provavelmente expulsar as mais antigas, reduzindo a produção destas e, portanto, o emprego. Se essa empresa se localizar no país, chegará às capas das revistas, a despeito da “destruição criativa” que causou no seu setor. Mas, se estiver no exterior, será objeto de editorial contrário, que ressaltará como ponto negativo a mesma “destruição” de emprego e produção saudada no caso anterior. Por que um acidente geográfico deveria levar a conclusões distintas?

Acidente geográfico”? “Destruição criativa”? Destruição criativa é o termo que se emprega para o aparecimento de novas empresas ou setores, na mesma economia, que se impõem sobre os setores tradicionais. Os segundos morrem, os novos se fortalecem. Alexandre passa a usar o termo para a produção que vem do exterior e destrói a produção interna. A única diferençca entre ambos é o “acidente geográfico”. Conseguiu reescrever Schumpeter! É a glória para o pensamento econômico brasileiro.

Os mais ofendidos com o argumento acima irão levantar duas objeções. A primeira é que, no caso da nova empresa ser nacional, a produção e o emprego aqui permanecem, enquanto no segundo caso migram para o exterior. A esse respeito lembro o argumento, já avançado no meu artigo anterior: importação maior permite, tudo o mais constante, que o BC baixe o juro.

Conseguiu que o rabo levantasse o cachorro. Inverteu as relações de causalidade.

O emprego nessa indústria cai, mas a aceleração da demanda doméstica permitida pela importação criará empregos em outras indústrias.

Naquelas que “por acidente geográfico” estão na China

Aliás, não fosse isso, países com déficits comerciais viveriam em recessão crônica.

A segunda diz respeito ao câmbio. Setores que competiam com as importações em condições de superioridade sob determinada taxa cambial não conseguem fazê-lo sob outra taxa mais apreciada. Assim, o problema não seria tanto a importação em si, mas a taxa cambial, “artificialmente apreciada pelo diferencial de juros etc. etc.”.

O editorial da “Folha” bate expressamente nesse ponto. O “professor de Deus” aponta os “erros” do editorial da “Folha” e só agora começa a entrar no ponto de discussão do editorial.

Quanto a isso, sugiro dois pontos para reflexão. Primeiro: quem é o iluminado que determina a taxa de câmbio “correta” para avaliarmos a real competitividade de cada setor industrial? Há vários candidatos a gênio, mas, francamente, quase todos associados a setores que têm muito a ganhar ou a perder com a definição dessa grandeza, e o leitor há de me perdoar por não colocar muita fé nos “estudos” de defasagem cambial que volta e meia aparecem por estas plagas.

É inacreditável! Tem-se setores sendo fechados, empresas sendo sufocados, o índice de importados aumentando em toda a cadeia produtiva, e não se pode mexer no câmbio porque Schwartsman criou uma nova categoria teórica: a taxa de câmbio “correta”. Enquanto não se descobrir de quanto é, não se pode mexer no câmbio. E ainda propõe isso como “ponto de reflexão”.

Segundo: o diferencial de juros entre o Brasil e os EUA caiu à metade nos últimos 18 meses, e, a despeito disso, a taxa de câmbio seguiu se apreciando.

Ele não sabe que, enquanto houver espaço para arbitragem, ela continuará ocorrendo. Se o sujeito mede 1,50, e a água que o encobre cair de 3 metros para 2 metros, reduziu o nível da água, mas ele continua encoberto por ela. Some-se a isso o excepcional aumento da liquidez, e a garantia de apreciação cambial, e se terá o mapa do inferno.

Ao mesmo tempo, as exportações seguiram crescendo a taxas robustas, enquanto os saldos comerciais e em conta corrente se mantiveram em torno de US$ 45 bilhões e US$ 13 bilhões, respectivamente.

Só pode ser gozação. Até o mercado fala em doença holandesa, na preponderância dos primários, e o Schwartsman vem ainda com o velho e batido golpe de mostrar apenas os grandes agregados.

À luz disso, pergunto: o que há de artificial na apreciação do câmbio?

Assim, uma vez abandonada a contabilidade nacional como métrica do assunto, sugiro aos interessados o retorno à teoria do comércio internacional para aferir seus efeitos sobre a economia. A alternativa é o eterno retorno ao protecionismo de sempre.

Dentro dos princípios da retórica rasteira: ou abre-se tudo e se arrebenta com o parque produtivo nacional, ou se volta ao “protecionismo de sempre”. Mas que é engraçado é: a “Folha” coloca um colaborador que destrói a qualidade da página 2 do caderno “Dinheiro”, e ainda se permite dar aulas para o próprio jornal. Quer minha opinião sincera? Bem feito!

ALEXANDRE SCHWARTSMAN , 44, economista-chefe para América Latina do Banco Real, é doutor pela Universidade da Califórnia (Berkeley) e ex-diretor de Assuntos Internacionais do Banco Central.

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