Cai o poder da política monetária para estabilizar a economia, por Delfim Netto

Do Valor

O enigma

Antonio Delfim Netto

Todos os economistas respeitam as evidências empíricas porque sabem que elas são a única forma de dar utilidade prática à disciplina que cultivam e à qual se dá o nome de economia. Ela tenta entender como se acomoda o comportamento do agente econômico individual e as consequências da sua inevitável agregação no nível coletivo, que parece revelar relações estáveis e, às vezes, mensuráveis.

O grande objetivo é descobri-­las e medi­-las, nem que seja apenas para conhecer o sinal do eventual nexo de causalidade. E a grande esperança é que possam ser manipuladas para melhorar o nível de bem­-estar da sociedade.

Um exemplo interessante desse processo é a explicação de um fenômeno tão importante quanto a inflação que acompanha o homem desde o monopólio da emissão da moeda metálica pelo Estado. No momento da sua emissão, a “quantidade de metal precioso” incorporada à unidade monetária tem o valor equivalente a uma dada cesta de mercadorias e serviços. Ao longo do tempo, entretanto, eles produziam discretamente um decaimento (“debasement”) dessa quantidade, o que parecia ativar o aumento dos preços, isto é, a inflação.

As explicações escolásticas no fim da Idade Média ainda atribuíam a inflação a tal decaimento. Foi Jean Bodin (1530-1596), na “Réponse aux Paradoxes de M. le Malestroit” (1568), quem revelou que a relação de causalidade era da quantidade de moeda (não do seu conteúdo de ouro ou prata) para os preços, racionalizada por John Locke (1632-­1704).

Durante décadas, a manipulação da identidade PT = MV ­ o preço médio de tudo que foi transacionado (P), multiplicado pelo volume unitário das transações (T) é necessariamente igual a tudo que foi pago em moeda (M) multiplicado pelo número de transações feito por cada uma (V) ­ foi a grande diversão algébrica dos economistas. Foi levada ao paroxismo pelos “monetaristas” do século XX, com suas “longas e variáveis defasagens”.

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