Carta ao jovem jornalista 1 – o diferencial do jornalismo , por Luis Nassif

A maneira de filtrar os conceitos é conferir seus efeitos no mundo real - daí sobressai a vantagem do jornalista, de transitar por vários espaços.

A mensagem vale para o jovem jornalista que tem a pretensão de melhorar o mundo e julga que a economia é o caminho adequado. Ou que tem pretensão de entender os procedimentos econômicos de maneira jornalística ampla.

Jornalista não é economista, não é o pensador econômico. Ele é o intérprete dos economistas e agentes econômicos para falar com o público.

Mas não apenas isso. Não lhe cabe ser o intérprete passivo. A maior qualidade do jornalista é o questionamento das verdades estabelecidas, é de dar isonomia de tratamento aos diversos temas, de dar visibilidade à informação pouco divulgada.

Se a onda é destruição do Estado, o papel do jornalismo é dar voz aos que defendem o Estado; se a onda é a estatização, dar voz aos que defendem o mercado. Enfim, o papel maior do jornalismo é sempre busca a isonomia no tratamento das informações, abrir espaço permanente para o “outro lado”, não apenas como desencargo, mas como peça intrínseca da cobertura jornalística.

O diferencial maior do jornalista, em relação ao economista, é a facilidade de transitar por vários ambientes, o mercado, as empresas, os diversos especialistas em organização da informação, as diversas escolas de economia etc. Por não ser economista, não precisa ficar preso ao dogmatismo das escolas econômicas. Pode avaliar cada conceito per si, selecionar os mais consistentes na solução de problemas da economia. Nesse exercício, uma hora irá se dar conta de que política econômica é um conjunto de medidas pragmáticas, visando solucionar problemas, e não uma receita rígida, com conceitos impenetráveis.

A maneira de filtrar os conceitos é conferir seus efeitos no mundo real – daí sobressai a vantagem do jornalista, de transitar por vários espaços. O papel maior do jornalismo econômico é comparar o que as teorias dizem sobre o comportamento teórico dos agentes econômicos, com o comportamento real dos agentes econômicos. Em suma, ser o checador do que diz a teoria. O resultado de uma política econômica se avalia analisando o comportamento dos agentes econômicos, não nas planilhas dos economistas.

Na próxima Carta, vamos entender alguns princípios básicos de análise jornalística da economia.

Primeiro, a importância de entender a economia como um sistema complexo, uma engrenagem com vários peças que se influenciam mutuamente. A maior ou menor competência do jornalista é relação direta de sua capacidade de enxergar os impactos de cada medida sobre um número variado de setores da economia. Reportar o impacto de uma mudança de juros apenas no mercado financeiro, é de um simplismo que depõe contra o jornalista. Se a lógica do sistema de metas inflacionárias é impactar a inflação, só se conseguirá avaliar sua eficácia conversando com quem define preços – as empresas do setor produtivo.

Analisar os movimentos dos juros só nos efeitos sobre o mercado de câmbio é de uma superficialidade assustadora. Câmbio mexe com valor das exportações, das importações, impõe perdas e ganhos diferenciados aos diversos setores da economia, afeta balança comercial, contas correntes, a competitividade da indústria.

Nos próximos dias, iremos detalhar cada ponto mencionado.

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