Carta ao jovem jornalista 2: as correlações da economia

Uma movimentação na Selic interfere em um sem-número de preços. A marca do bom jornalismo, em cada mudança da Selic, será incorporar a maioria dos setores afetados na análise.

O que separa o jornalismo burocrático do jornalismo criativo é a capacidade da visão estendida, de entender as implicações de medidas econômicas muito além do primeiro nível – os efeitos imediatos sobre o mercado.

Para treinar essa visão, o primeiro passo é entender as correlações envolvidas em cada medida de política econômica. É como uma máquina, na qual os diversos componentes se influenciam mutuamente.

Vamos a alguns exemplos práticos

Por exemplo, a política de metas inflacionárias visa reduzir a inflação através do aumento da taxa de juros.

Primeiro passo: entender as correlações, a lógica desse movimento.

O senso comum diria o seguinte: mais juros -> custo mais alto do crédito -> desestímulo à tomada de crédito -> menos demanda -> menos preço.

Segundo passo: a prova do pudim

Vamos analisar um financiamento hipotético, para avaliar se o aumento do custo (isto é, do valor da prestação) impactará de fato as vendas.

Por exemplo, analisar o impacto de 1 ponto da alta no Selic sobre o valor das prestações.

  1. Um financiamento de R$ 1.000,00 a 3% ao mês, com 12 meses de prazo. A prestação será de R$ 100,46. 3% ao mês equivale a 42,8% ao ano.
  2. Se a Selic aumenta 1 ponto, digamos, e houver repasse total ao consumidor, a taxa atual irá para 43,8% ao ano, ou 3,06% ao mês. Com isso, o valor da prestação irá para R$ 100,82. Não precisa estudar economia para saber que  o impacto sobre as vendas seria nenhum.

Terceiro passo: entender a razão efetiva da queda da inflação

Mas o fato é que, nos tempos de Selic mais elevada havia um efeito sobre a inflação futura. Uma análise dos índices de preços mostraria que a queda de preços ocorreu em produtos importados e exportáveis, cotados em dólares.

A partir daí, monta-se outra hipótese:

  1. O aumento dos juros atrai dólares do exterior.
  2. Mais dólares entrando há uma valorização do real, isto é o real fica mais caro em relação ao dólar pela lei da oferta e da procura.
  3. Com a valorização do real, os produtos importados e os produtos exportáveis ficam mais baratos, derrubando a inflação.

Quarto passo: entender a economia como sistema

Se a economia é um sistema, a mudança do câmbio provocará efeitos diversos.

Um dos efeitos será tornar as exportações mais caras.

A conta é simples:

Preço do produto = R$ 1.000,00

Valor do US$ = R$ 4,00

Preço do produto em dólar = US$ 25,00.

Suponha que o aumento da Selic traga o dólar para R$ 3,50. O novo preço, em dólares, será de US$ 28,6. Ou seja, para receber a mesma quantia, em reais, a empresa teria que aumentar o preço em dólares. Como o mercado externo é basicamente competitivo, ela terá que manter o valor em US$ 25,00 e só receberá R$ 87,50 pelo mesmo produto.

Obviamente essa mudança de preços relativos terá efeito nos resultados do setor exportador, do nível de emprego, dos resultados da balança comercial.

Por outro lado, há inúmeros produtos fabricados internamente, mas que levam grande dose de componentes importados, que serão beneficiados.

Outro efeito será o impacto sobre a dívida pública.

Repare, portanto, que uma movimentação na Selic interfere em um sem-número de preços. A marca do bom jornalismo, em cada mudança da Selic, será incorporar a maioria dos setores afetados na análise.

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1 comentário

  1. O tema da dívida pública é uma boa área para se começar a aprender jornalismo econômico.

    O post tenta mostrar a influência da Selic na dívida pública, que existe de fato. Mas o grande jogo da Selic não é a definição do custo da dívida. Este é definido pelas taxas de colocação dos títulos pelo Tesouro no momento da emissão destes. O custo da dívida é contratado na venda primária, onde poucos atuam. A Selic se presta a comandar as tais curvas de juros, que apenas servem para determinar o preço presente de mercado dos títulos, em que atuam agentes econômicos e apenas marginalmente o Tesouro.

    Como a Selic não define custo da dívida, os estudantes de jornalismo econômico poderiam aproveitar para fazer um curso intensivo sobre o tema. Aprenderiam muito mais sobre economia se prestassem atenção na quitandinha de papéis públicos, vendo como expectativas de valor podem fazer fortunas do dia para a noite. Também intuiriam o potencial de gestão da dívida que o Tesouro despreza ao deixar tudo a cargo do Sr. Mercado.

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