Carta ao jovem jornalista 5: como entender conceitos de depreciação, por Luis Nassif

Outro caso clássico foi da Sharp. No final dos anos 80 contratou um executivo para colocar suas contas no azul. Colocou em três meses e quebrou a empresa um ano depois. Daí a necessidade de fugir da armadilha dos resultados financeiros e fiscais imediatos.

Uma das maiores superficialidades da cobertura econômica atual é tratar todas as medidas fiscais pelo conceito de caixa, isto é, os resultados do ano. E todos os resultados de empresas apenas pela linha do resultado trimestral.

O bom jornalista econômico não pode prescindir de conhecimentos básicos de contabilidade. E um dos conceitos fundamentais é o da depreciação do ativo.

Pela definição contábil,

“Depreciação é a alocação sistemática do valor depreciável de um ativo ao longo da sua vida útil, ou seja, o registro da redução do valor dos bens pelo desgaste ou perda de utilidade por uso, ação da natureza ou obsolescência”.

Significa o seguinte.

  1. Uma máquina tem 10 anos de vida útil.
  2. A cada ano, teoricamente seu valor cai 10%.
  3. A maneira de impedir a depreciação é a manutenção.
  4. Se a empresa não investe em manutenção, o tempo de vida útil será menor. Digamos 8 anos.
  5. Significa que a economia que conseguiu, deixando, digamos, dois anos sem manutenção, reduziu a  vida útil da máquina em dois anos. Então não houve economia, mas sim a postergação de despesas, que foram muito maiores do que a economia proporcionada pela suspensão da manutenção.
  6. Transporte o conceito para uma estrada.

Se o governo interrompe a manutenção, há uma deterioração da estrada. Quando retomar os trabalhos, o custo será muito maior, porque terá que compensar o período em que ficou sem manutenção. Portanto, quando o governo corta verbas de manutenção da estrada, está jogando a dívida para o futuro.

Há coisa piores, que se repetem também no setor privado.

Nos últimos anos, as grandes corporações passaram a privilegiar cada vez mais o curto prazo. A remuneração dos executivos passou a girar em torno dos resultados dos balanços trimestrais. E a meta final das gestões é apenas a melhoria dos dividendos dos acionistas, sem preocupações maiores com o futuro da companhia.

Essa obsessão produziu a figura do CEO genérico, o sujeito com conhecimento específico de mercado, de gestão financeira, e sem conhecimento sobre o setor em que a empresa atua. A prática levou a dois tipos de desastres.

1. Descuido com normas de segurança e ambientais. Os casos das mineradoras instaladas em Minas Gerais são eloquentes

2. Descuido com o desenvolvimento de novos produtos.

Principal inspirador da escola de “exterminar custos”, Jorge Paulo Lehman sempre investiu em setores tradicionais por exigirem menos gastos em inovação e desenvolvimento de novos produtos. Obviamente, investir em inovação significa abrir mão do lucro imediato por um resultado futuro. Nos últimos anos houve uma revolução nas refeições, com a explosão das comidas naturais e vegetais. Uma de suas empresas não percebeu as mudanças e perdeu o bonde. O episódio marcou o fim do modelo de gestão que preconizava.

Outro caso clássico foi da Sharp. No final dos anos 80 contratou um executivo para colocar suas contas no azul. Colocou em três meses e quebrou a empresa um ano depois. Para equilibrar as contas, desmontou o departamento de vendas, o de desenvolvimento de novos produtos. Em suma, matou o futuro da empresa.

Daí a necessidade de fugir da armadilha dos resultados financeiros e fiscais imediatos.

Todos esses pontos mostram a importância do jornalismo competente em avançar além dos balanços trimestrais e dos resultados fiscais imediatos

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