Cinco perguntas para a economista Rosa Maria Marques, por Cesar Locatelli

Foi presidente da Sociedade Brasileira de Economia Política e integrante da Comissão de Orçamento e Finanças do Conselho Nacional de Saúde. Foi presidente da Associação Brasileira de Economia da Saúde (ABrES) de 12/2012 a 12/2016..

da Associação Brasileira de Economistas pela Democracia

Cinco perguntas para a economista Rosa Maria Marques

por Cesar Locatelli

1 A atualidade do pensamento de Marx

David Harvey, no prólogo do seu livro “A Loucura da Razão Econômica” afirma que: “ao longo da vida, Marx fez um esforço prodigioso para compreender como funciona o capital. Sua obsessão era tentar descobrir como aquilo que ele chamou de ‘as leis do movimento do capital’ afetavam o cotidiano das pessoas comuns”.

Mais à frente ele diz: “na minha avaliação, as análises de Marx, embora evidentemente datadas em alguns aspectos, são mais relevantes hoje do que na época em que foram escritas”.

Queria saber se você concorda com Harvey e pedir para você aprofundar essa questão da relevância de se estudar Marx para compreender o capitalismo hoje.

2 As instituições jurídicas como componentes do capitalismo

O professor Alysson Mascaro, da faculdade de direito da USP, afirma em seu livro “Golpe e Crise” que: “o conjunto das normas jurídicas não é mero ato voluntário e gratuito do Estado. As instituições jurídicas se apresentam, historicamente, como dados necessários das relações sociais capitalistas. Marx, em ‘O Capital’, é o pioneiro em desvendar tal ligação…”

Você poderia comentar essa afirmação dele e falar sobre a Lava Jato e o prejuízo que ela impôs ao país?

3 O capital e a saúde do trabalhador

Comentando um relatório da Saúde Pública inglesa de 1864, Marx diz que:

“Em conflito com a opinião pública ou mesmo com a polícia sanitária, o capital não tem a menor cerimônia em justificar as condições perigosas ou degradantes a que submete a atividade e o lar do trabalhador, alegando que isso é necessário para explorá-lo mais lucrativamente.

É o que faz o capital quando renuncia a providências para proteger o trabalhador contra máquinas perigosas nas fábricas, a disposições para ventilar e proporcionar segurança nas minas etc. O mesmo ocorre com a habitação dos trabalhadores das minas.”

O quadro que ele desenha parece bem semelhante à pressão para a volta ao trabalho com os números de casos de Covid-19 ainda em ascensão. Você poderia falar sobre isso e se você vê outras alternativas?

4 O valor e o capital como relações sociais

Harvey, no mesmo livro “A Loucura da Razão Econômica”, afirma que “Marx define valor como tempo de trabalho socialmente necessário. O tempo de trabalho que gasto fabricando bens para outros comprarem e usarem é uma relação social. Como tal, ela é, assim como a gravidade, uma força imaterial, mas objetiva. Não importa quanto eu disseque uma camisa, jamais encontrarei nela átomos de valor, da mesma forma como jamais poderei dissecar uma pedra e encontrar nela átomos de gravidade”.

Mais adiante, ele continua: “descrevemos noções como poder, influência, crença, status, lealdade e solidariedade social em termos imateriais. ‘Elementos materiais não convertem o capital em capital’, escreve ele [Marx]. Pelo contrário, eles relembram que ‘o capital, de um lado, é valor, portanto algo imaterial, indiferente ante à sua existência material’”.

Por que é importante termos em conta essa definição de valor como o tempo de trabalho socialmente necessário? Por que é importante termos em conta que o capital é uma relação social?

5 A acumulação não é um escolha individual

O professor Belluzzo, em Valor e Capitalismo, aponta que “… Marx, ao estabelecer a dependência necessária entre o progresso das forças produtivas e a reprodução das relações de produção, efetua conexões indispensáveis entre a produtividade do trabalho e a lei do valor, em sua forma capitalista”.

Ele continua dizendo que “a acumulação não é, portanto, uma questão de escolha individual. Trata-se de uma necessidade engendrada pela própria competição: uma luta em que os capitalistas procuram excluir-se uns aos outros do mercado. O progressos técnico é a arma utilizada por esses senhores para se esmagarem mutuamente”.

Você poderia aprofundar essa questão da lei do valor e da busca constante por aumento da produtividade? Poderia falar dos efeitos prejudiciais dessa escalada aos humanos e ao meio ambiente?

Breve Currículo

Rosa Maria Marques é professora titular do Programa de Estudos Pós-graduados de Economia Política da PUCSP. Ela possui graduação em Ciências Econômicas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, mestrado em Economia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e doutorado pela Fundação Getúlio Vargas – SP. Fez pós-doutorado na Faculte de Sciences Economiques da Université Pierre Mendes France de Grenoble e na Universidad de Buenos Aires.

Foi presidente da Sociedade Brasileira de Economia Política e integrante da Comissão de Orçamento e Finanças do Conselho Nacional de Saúde. Foi presidente da Associação Brasileira de Economia da Saúde (ABrES) de 12/2012 a 12/2016..

É autora do capítulo “Efeitos da operação Lava Jato na economia brasileira”, no livro Relações Indecentes, de 2020. É coorganizadora do livro “Economia Brasileira”, que está na 6a edição pela Saraiva e da cartilha “Economia, que bicho é este”, pela Expressão Popular em 2018.

É coautora, com Paulo Nakatani, do livro “O que é capital fictício e sua crise’, publicado pela Editora Brasiliense (série primeiros passos). Esta prestes a lançar “O Capital em Crise”, também com Paulo Nakatani “O capital em Crise”.

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