Coluna Econômica: a política de desenvolvimento e a última volta do parafuso

Para garantir a reciclagem dos fornecedores, os governos devem recorrer ao que a revista chama de “kit de ferramentas”. E descreve com precisão um modelo que foi vitorioso no Brasil, algumas peças envelheceram, mas foi jogado fora por uma geração encantada com a fantasia do livre mercado.

Do pós guerra aos anos 80 o Brasil teve o melhor modelo de desenvolvimento do mundo emergente. Fundava-se em grandes empresas estatais garantindo os insumos básicos e servindo de âncora para o desenvolvimento do setor privado.

Na infraestrutura, a Eletrobras garantindo a energia. Na industrialização, a Petrobras criando uma cadeia industrial robusta de fornecimento de equipamentos. Nas telecomunicações a Telebras modernizando a rede de comunicações do Brasil. Em outras áreas, a Sunamam (Superintendência Nacional da Marinha Mercante), a Siderbrás.

A crise do balanço de pagamentos nos anos 80, o excessivo manietamento da economia e, depois, a abertura indiscriminada da economia, impediram a modernização do modelo inicial. Desmontou-se uma máquina enferrujada e nada se colocou no lugar.

Nesse período, o mundo embarcou na ilusão do neoliberalismo radical e da ideia das cadeias globais de suprimento. Criou-se uma nova divisão internacional do trabalho, com o chão de fábrica sendo transferido para a Ásia. Ao Brasil restou a produção de produtos primários e a desindustrialização precoce, apesar da manutenção de alguns atores centrais do período anterior, como o BNDES.

Em lugar de políticas industriais consistentes, criou-se a fantasia de que a saída da indústria brasileira seria a integração com as cadeias globais de insumos – como se a decisão fosse uma mera questão de vontade, e não de condições competitivas dadas pelo câmbio, juros, ferramentas de financiamento, investimentos em tecnologia etc.

Agora, uma das mudanças centrais trazidas pela pandemia será o recuo das chamadas redes globais de suprimentos.

A pandemia, os conflitos entre China e Estados Unidos, os movimentos de fechamento das diversas economias globais trazem um novo cenário.,

Nos Estados Unidos, o governo Trump trabalha para desconectar o país das cadeias de suprimento da China. Fala-se em um fundo de repatriamento, de US$ 25 bilhões, para trazer de volta a manufatura – que gerou um empobrecimento da classe trabalhadora.

O adversário Joe Bidden esposa as mesmas propostas. A internalização da manufaturada está no mesmo patamar  das propostas de comércio, impostos e imigração em relação à globalização.

Do mesmo modo, Pol Hogan, Comissário de Comércio da União Europeia passou a defender a diversificação das cadeias de suprimento por uma questão de “autonomia estratégica”. E o Japão anunciou um novo fundo para trazer as empresas japonesas de volta da China. Até agora a proposta atraiu 87 empresas.

Não há unanimidade em relação a essas estratégias de fechamento. Como lembra a revista Foreign Policy, as cadeias de suprimento globais são extremamente complexas, resultado de milhares de decisões individuais e não coordenadas das empresas.

Mesmo se tratando de decisões privadas, porém, os governos têm muitos instrumentos de persuasão. Assim como os governos foram peças centrais da globalização, podem liderar a marcha-ré no processo. Principalmente agora, que a pandemia revelou as vulnerabilidades nacionais pela falta de controle sobre a cadeia de suprimentos. Tornaram-se nítidas as possibilidades de desmonte dessas cadeias por desastres naturais, crises econômicas ou, o que é caso concreto agora, a ampliação do conflito entre superpotências.

Por outro lado, as cadeias globais são mais resistentes do que as nacionais para resistir a choques setoriais.

Mas, alerta a revista, os governos precisam ter melhores informações sobre a estrutura das atuais cadeias de suprimento, devido às dificuldades de mapeamento de toda a estrutura de produção. Há toda uma ciência de matriz insumo-produto, permitindo mapeamento de cadeias produtivas em nível nacional. Em nível global, a realidade é bem mais complexa. Daí a necessidade dos governos, junto com as empresas, executarem testes de estresses, em cima de vários cenários possíveis.

Para garantir a reciclagem dos fornecedores, os governos devem recorrer ao que a revista chama de “kit de ferramentas”. E descreve com precisão um modelo que foi vitorioso no Brasil, algumas peças envelheceram, mas foi jogado fora por uma geração encantada com a fantasia do livre mercado.

Sugere a revista:

* mapeamento das cadeias de suprimentos, estoques e produtos finais;

* uso de subsídios e incentivos fiscais a empresas privadas que produzem internamente em locais menos competitivos.

* verbas para pesquisa e desenvolvimento,

* investimentos públicos em educação e treinamento, políticas de comprar para incentivar a produção locais,

* produção direta por empresas estatais.

Em suma, a volta do parafuso. Espera-se, apenas, que a dupla Bolsonaro-Guedes não destrua os instrumentos capazes de tirar o país da lama atual.

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