Coluna Econômica: Alemanha muda estratégia e passa a defender mais intervenção

Agora, a Alemanha parte para uma inversão de 180 graus em sua estratégia anterior, considerando como ponto central a defesa dos interesses econômicos internos, combinando o poder econômico dos países e de suas empresas.

Na crise de 2008, através de sua influência no Banco Central Europeu, a Alemanha foi fundamental para o arrocho fiscal que quase destruiu países inteiros. A postura fiscal fundamentalista da Alemanha mereceu críticas generalizadas. O próprio Fundo Monetário Internacional (FMI) passou a rever seus critérios de arrochos fiscais em períodos de crise, acentuando pro-ciclicamente as recessões nacionais.

Com a Covid-19, está ocorrendo fenômeno inverso. A Alemanha liberou US$ 1,4 trilhão para enfrentar a recessão. A medida foi criticada pelo chefe da Concorrência da União Europeia, Margrethe Vestager, que considerou que as empresas alemãs teriam uma vantagem injusta.

Não apenas isso. A Alemanha passou a endurecer as regras de investimento estrangeiro, imiscuiu-se no episódio do envenenamento do líder da oposição russa, e partiu para uma estratégia de enfrentamento da ampliação do poderio econômico chinês.

Há quem identifique uma mudança geracional segundo análise de Birgit Jennen, da Bloomberg. A geração do pós-guerra , atormentada pela lembranças do conflito, limitou-se a definir apenas estratégias de crescimento econômico, de maneira a não ameaçar os vizinhos europeus.

A nova geração quer um papel mais pró-ativo, de um amplo protagonismo econômico. Angela Merkel foi a primeira dirigente alemã nascida após o final da guerra.

Como um ator relevante, a Alemanha terá que se colocar perante as duas superpotências, Estados Unidos e China. De um lado, um Estados Unidos cada vez mais isolacionistas; de outro, a China defendendo o multilateralismo.

Antes da pandemia, havia planos para uma reunião de cúpula entre Merkel e Xi Jinping, o presidente chinês e altos funcionários da União Europeia. Foi substituído por uma videoconferência a ser realizada na próxima segunda-feira.

O pano de fundo é uma mudança radical na estratégia econômica. Não mais a liberdade de comércio e integração das grandes cadeias globais de valores,  princípios dos quais a China estava se valendo para adquirir empresas estratégicas.

Foi o que ocorreu em agosto de 2016, quando, obedecendo às regras da UE, a Alemanha permitiu ao grupo Midea, da China, adquirir o fabricante de robôs Kuka.

Agora, a Alemanha parte para uma inversão de 180 graus em sua estratégia anterior, considerando como ponto central a defesa dos interesses econômicos internos, combinando o poder econômico dos países e de suas empresas.

O desafio de Merkel será convencer seus parceiros europeus da importância de ter empresas alemãs relevantes, para enfrentar o poderio chinês.

Há um movimento crescente por uma maior intervenção do Estado, facilitando fusões entre grandes empresas europeias e estreitando as alianças financeiras entre os estados.

Pelas avaliações da Bloomberg, esse movimento terá efeito em telecomunicações, bancos e defesa e em novos setores, como baterias e computações em nuvem.

Trata-se de uma mudança radical desde o pós-guerra. Até então, havia uma preocupação de não transformar a indústria alemã em uma ameaça a seus vizinhos europeus. Em nome dessa cautela, a Alemanha abriu mão de sua moeda, o marco, em favor do euro.

A primeira tentativa de fusão foi entre a alemã Siemens AG e a francesa Alstom SA, para criar uma gente ferroviária. A iniciativa foi bloqueada por Vestager, levando França e Alemanha a começarem a discutir mudanças nas leis de concorrência da UE.

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